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Gestão de Furlan deixa passivo milionário e investigações sobre fraudes em contratos com empreiteiras

Marcada por empréstimos milionários e denúncias de má gestão, administração de Antônio Furlan chega ao fim com cofres vazios e polêmicas fiscais que agora ameaçam suas ambições ao governo estadual

O fim da gestão Furlan revela uma prefeitura mergulhada em dívidas: montanhas de processos e passivos bancários marcam o rastro de uma administração definida por órgãos de controle como perdulária — Imagem: ArteAVA

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
17/04/2026 | 14h20

O ex-prefeito de Macapá, Antônio Furlan (PSD), renunciou formalmente ao cargo no início de março de 2026, encerrando um ciclo de cinco anos e três meses marcado por um volume recorde de empréstimos bancários e suspeitas de desvios, com o objetivo de disputar o Governo do Amapá e após ser alvo de um afastamento judicial determinado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A saída, oficializada em meio ao avanço da Operação Paroxismo da Polícia Federal, expõe uma crise financeira na capital amapaense, onde a estratégia de gestão baseada no endividamento massivo e na execução de obras com recursos de crédito deixou um passivo milionário para os cofres públicos e uma série de investigações sobre fraudes em contratos com empreiteiras.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

A trajetória de Furlan na Prefeitura, que começou com a promessa de uma gestão técnica e eficiente sob a alcunha de “Dr. Furlan”, transformou-se, segundo críticos e órgãos de controle, em um modelo de administração perdulária. O ponto de inflexão ocorreu logo após a renúncia, quando os números reais da saúde financeira do município começaram a emergir. Relatórios técnicos indicam que Macapá, que possuía contas equilibradas e superávit ao final de 2020, acumulou um déficit preocupante em menos de seis anos. O símbolo dessa política foi a aprovação sucessiva de pacotes de crédito, incluindo um empréstimo de R$ 200 milhões em 2024 destinado à pavimentação asfáltica, que elevou o nível de endividamento da cidade a patamares históricos, sem que houvesse uma contrapartida clara em termos de sustentabilidade fiscal.

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O cenário de “cofre vazio” tornou-se uma reclamação constante entre fornecedores e servidores nos meses que antecederam a saída do prefeito. Enquanto a gestão anunciava grandes obras e convênios vultosos, a realidade dos bastidores apontava para dificuldades básicas de caixa. Um dos episódios mais sensíveis envolveu as denúncias de apropriação indébita relacionadas aos empréstimos consignados dos servidores municipais. De acordo com os relatos encaminhados ao Ministério Público, a prefeitura realizava o desconto das parcelas diretamente no contracheque dos funcionários, mas não repassava os valores às instituições bancárias. O resultado foi a negativação de centenas de trabalhadores e o comprometimento da credibilidade da administração junto ao sistema financeiro, agravando a percepção de uma gestão que gastava acima de suas capacidades.

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O desfecho da administração Furlan foi acelerado pela pressão jurídica. A decisão do ministro Flávio Dino, do STF, de afastar o gestor em decorrência da Operação Paroxismo, funcionou como o golpe de misericórdia. A investigação da Polícia Federal debruçou-se sobre indícios de superfaturamento e desvio de verbas públicas destinadas ao Hospital Geral de Macapá, um dos projetos vitrines da gestão. Os investigadores apontam que o esquema envolvia empresas de fachada e favorecimento ilícito em licitações, revelando que a política de gastos desenfreados não se limitava apenas à busca de crédito para infraestrutura, mas também permeava áreas sensíveis da saúde pública, onde os recursos pareciam se dissipar em meio a irregularidades administrativas.

A movimentação política de Furlan também foi alvo de intensos debates. Antes de renunciar, o agora ex-prefeito articulou sua saída do MDB para ingressar no PSD, sob as bênçãos de lideranças nacionais como Gilberto Kassab e o apoio local do senador Lucas Barreto. A troca de partido foi o movimento final do tabuleiro para consolidar sua pré-candidatura ao Governo do Amapá nas eleições de 2026. Para seus aliados, a renúncia foi um ato de coragem para “expandir o modelo de Macapá para todo o estado”. Já para a oposição, tratou-se de uma fuga estratégica de um cargo onde ele não conseguiria mais sustentar o peso das dívidas e das investigações judiciais, utilizando a campanha majoritária como um escudo político e um palanque para tentar reabilitar sua imagem perante o eleitorado.

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A análise do período Furlan à frente da capital revela um contraste entre a imagem de “prefeito das obras” e a realidade técnica de uma baixa execução financeira proporcional aos recursos angariados. Embora tenha sido hábil em captar verbas por meio de convênios federais e operações de crédito, a eficiência no gasto foi questionada. Obras paradas, aditivos constantes e a falta de transparência no uso dos R$ 200 milhões aprovados no último ciclo de crédito alimentaram a tese de que o volume de dinheiro circulando na prefeitura não se traduzia em melhorias estruturais duradouras, mas sim em um endividamento que comprometerá as próximas gestões. A sensação de que Macapá viveu sob uma “bolha de crédito” é compartilhada por economistas locais, que agora preveem anos de austeridade forçada para sanear as contas municipais.

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Humanamente, o impacto da gestão perdulária é sentido na ponta, pelo cidadão que depende de serviços básicos. O Hospital Geral, epicentro da Operação Paroxismo, tornou-se o símbolo de uma promessa que gerou mais processos judiciais do que atendimentos médicos. O legado de Furlan, portanto, é disputado entre duas narrativas: a de um médico dinâmico que mudou a cara da cidade com asfalto e luzes, e a de um político que gastou o que não tinha, deixando um rastro de investigações e uma prefeitura financeiramente fragilizada. Com a renúncia, a Justiça e os órgãos de controle assumem o protagonismo para auditar o que realmente sobrou das contas de Macapá após cinco anos e meio de uma administração que apostou tudo no crédito e agora enfrenta o ônus da responsabilidade fiscal e criminal.


O futuro de Antônio Furlan agora depende tanto das urnas quanto dos tribunais. Enquanto ele percorre o interior do estado tentando convencer o povo amapaense de que sua gestão foi um sucesso, os relatórios da Polícia Federal e do Tribunal de Contas continuam a ser produzidos, detalhando cada centavo dos milhões emprestados e cada contrato sob suspeita. A transição para o cargo de governador, objetivo final de sua renúncia em março, tornou-se uma corrida contra o tempo, onde os fatos econômicos e judiciais parecem correr mais rápido do que as promessas de campanha. Macapá, por sua vez, inicia o processo de “ressaca” financeira, tentando entender como uma cidade que tinha as contas no azul mergulhou em um mar de dívidas sob o comando de um único homem.

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