Cadela Vitória, resgatada em Rondônia, estava sendo arrastada por moto pelas ruas presa com uma corda no pescoço — Foto: Andreia João
Nas madrugadas silenciosas, enquanto a maior parte da população busca o repouso necessário para enfrentar o dia seguinte, a delegada Lisandrea Salvariego mantém os olhos fixos em uma sucessão de telas que revelam o que há de mais sombrio na experiência humana digital. Longe do brilho inofensivo de vídeos de entretenimento ou interações sociais convencionais, o monitoramento conduzido pela delegada mergulha em um ecossistema de jogos online, chats privados e redes sociais onde o entretenimento é substituído por desafios perigosos e atos de violência extrema. O cenário descrito por Salvariego é desolador: transmissões ao vivo que expõem, em tempo real, abusos sexuais, rituais de automutilação e, com uma frequência perturbadora, a tortura e o assassinato cruel de animais domésticos.

Este trabalho minucioso é realizado no âmbito do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), uma unidade especializada da Polícia Civil de São Paulo. Originalmente concebido para investigar a onda de ataques a escolas que abalou o Brasil em 2023 — ano em que o país registrou 12 incidentes dessa natureza —, o Noad acabou descobrindo que o problema era muito mais profundo e ramificado. As investigações revelaram que os ataques escolares eram apenas o ápice de uma pirâmide construída sobre discursos de ódio, estruturas hierárquicas rígidas e um sistema de recompensas baseado no sofrimento alheio. O que começou como uma força-tarefa contra o terrorismo doméstico em instituições de ensino expandiu-se para o combate a uma rede de zoossadismo e violência virtual que opera nas sombras da internet de superfície.
A metodologia do Noad exige um distanciamento emocional quase sobre-humano. Para reunir evidências sólidas que sustentem prisões e internações, os agentes precisam se infiltrar nesses grupos e adotar uma postura de observação passiva. Eles assistem aos delitos sem intervir, pois qualquer sinal de presença policial poderia alertar os criminosos, levando à destruição de provas e ao fechamento imediato dos servidores. A delegada Salvariego não esconde as cicatrizes psicológicas dessa missão. Segundo ela, há noites em que o silêncio do quarto é preenchido pelos ecos dos gritos de cães e gatos torturados que ela testemunhou através da tela. Esse sentimento de revolta, no entanto, é o que serve de combustível para que a equipe continue mapeando os agressores e resgatando vítimas.

Recentemente, o caso do cão Orelha, um animal comunitário brutalmente morto na Praia Brava, em Florianópolis, mobilizou as redes sociais e gerou uma onda de indignação nacional. Contudo, para a equipe do Noad, o destino trágico de Orelha é uma estatística diária. Salvariego afirma que o Brasil possui incontáveis “Orelhas” sendo sacrificados todas as noites em rituais de violência gratuita que se tornaram rotina para os investigadores. A delegada observa com preocupação que muitos desses crimes são cometidos por crianças e adolescentes cujos pais ignoram completamente suas atividades digitais. Por falta de educação digital e supervisão, jovens mergulham em subculturas onde a vida de um ser não possui valor algum, servindo apenas como ferramenta para ganhar status em comunidades fechadas.


Nas comunidades de zoossadismo, a violência não possui um propósito prático ou financeiro; a motivação é a estética do horror. A delegada explica que o objetivo é puramente a busca por fama dentro desses nichos. Em noites de alta atividade, o grupo chega a registrar 20 casos de tortura, onde animais são mortos com crueldade extrema e o sangue é utilizado pelos agressores para escrever seus próprios nomes, uma forma de “assinar” a barbárie. O sofrimento precisa ser intenso e prolongado para ser valorizado pelos pares. Casos semelhantes, como o do cão Abacate, morto a tiros no Paraná em janeiro, reforçam a tese de que a violência contra animais é frequentemente um precursor ou um acompanhante de comportamentos antissociais graves em jovens.
A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, corrobora essa visão ao destacar um processo de dessensibilizarão galopante entre a nova geração. A exposição constante a conteúdos violentos, sem o filtro da maturidade ou a mediação dos responsáveis, altera a percepção moral do indivíduo. O que inicialmente causa repulsa passa a ser tolerado e, eventualmente, replicado. A escalada começa com o consumo passivo de vídeos de violência e evolui para a prática de atos atrozes. Um exemplo extremo desse fenômeno foi registrado em um dos grupos monitorados pelo Noad: uma adolescente foi submetida a humilhações e abusos sexuais ao vivo para uma audiência de até mil espectadores. Durante a transmissão, após ser forçada a se automutilar e beber água do vaso sanitário, a jovem implorou para não matar um gato, alegando que amava o animal. A pressão do grupo, no entanto, muitas vezes sobrepõe-se a qualquer resquício de empatia.

Diferente do que muitos acreditam, essas atividades não estão restritas à dark web. Elas ocorrem na internet de superfície, em plataformas acessíveis por qualquer dispositivo comum. O Discord, em particular, tornou-se um terreno fértil para esses núcleos extremistas. Embora tenha nascido como uma ferramenta para jogadores, sua estrutura de servidores fechados e convites privados facilita a criação de ambientes onde crimes podem ser orquestrados com impunidade relativa. A hierarquia nessas comunidades é clara, com líderes que ordenam estupros virtuais, automutilação e morte de animais. O recrutamento é sutil, começando em plataformas populares como Roblox ou TikTok, onde vídeos de estética caótica, conhecidos como “brainrot”, preparam o terreno psicológico para a radicalização.

A moderação nessas plataformas é frequentemente criticada por ser insuficiente ou delegada aos próprios usuários, o que permite que os líderes dos servidores mantenham o controle total sobre o conteúdo compartilhado. Enquanto países como o Reino Unido já enfrentam redes internacionais de tortura de gatos que operam de forma lucrativa, no Brasil a motivação predominante ainda parece ser o sadismo puro e a busca por pertencimento em grupos de ódio. A Polícia Civil tenta contornar as dificuldades de cooperação com as empresas de tecnologia por meio da infiltração e da preservação de dados antes que os servidores sejam deletados.

Desde a criação do Noad, os resultados são expressivos: centenas de meninas foram retiradas de situações de abuso em arenas virtuais, dezenas de adultos foram presos e mais de mil animais foram salvos. A delegada Salvariego ressalta que uma medida simples poderia reduzir drasticamente esses índices: o controle do uso de dispositivos durante a madrugada. A maioria desses crimes ocorre entre as 23h e as 3h, um horário em que a supervisão parental é mínima. A delegada, que já foi alvo de ameaças diretas — incluindo um episódio em que uma vítima foi obrigada a gravar seu nome na pele como um “presente” irônico para a policial —, afirma que conhecer o inimigo é a sua maior defesa.
O cenário descrito revela uma falha societal profunda. A cultura da crueldade, impulsionada pelo ódio contra seres indefesos e pela busca por notoriedade virtual, demonstra como a empatia está sendo erodida no ambiente digital. Para a delegada e sua equipe, a luta contra o zoossadismo e a violência online não é apenas uma questão de segurança pública, mas um esforço para salvar uma geração que está perdendo a sensibilidade diante da dor alheia. O combate a essas redes tóxicas exige uma ação coordenada que envolva a conscientização das famílias, a responsabilização das plataformas de tecnologia e a aplicação rigorosa da lei, antes que o sadismo virtual se transforme de forma irreversível em tragédias reais e permanentes no mundo físico.

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