Redes sociais se tornam palco de atos de crueldade animal, com participação crescente de menores

Cadela Vitória, resgatada em Rondônia, estava sendo arrastada por moto pelas ruas presa com uma corda no pescoço — Foto: Andreia João



Nas madrugadas silenciosas, enquanto a maior parte da população busca o repouso necessário para enfrentar o dia seguinte, a delegada Lisandrea Salvariego mantém os olhos fixos em uma sucessão de telas que revelam o que há de mais sombrio na experiência humana digital. Longe do brilho inofensivo de vídeos de entretenimento ou interações sociais convencionais, o monitoramento conduzido pela delegada mergulha em um ecossistema de jogos online, chats privados e redes sociais onde o entretenimento é substituído por desafios perigosos e atos de violência extrema. O cenário descrito por Salvariego é desolador: transmissões ao vivo que expõem, em tempo real, abusos sexuais, rituais de automutilação e, com uma frequência perturbadora, a tortura e o assassinato cruel de animais domésticos.

Este trabalho minucioso é realizado no âmbito do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), uma unidade especializada da Polícia Civil de São Paulo. Originalmente concebido para investigar a onda de ataques a escolas que abalou o Brasil em 2023 — ano em que o país registrou 12 incidentes dessa natureza —, o Noad acabou descobrindo que o problema era muito mais profundo e ramificado. As investigações revelaram que os ataques escolares eram apenas o ápice de uma pirâmide construída sobre discursos de ódio, estruturas hierárquicas rígidas e um sistema de recompensas baseado no sofrimento alheio. O que começou como uma força-tarefa contra o terrorismo doméstico em instituições de ensino expandiu-se para o combate a uma rede de zoossadismo e violência virtual que opera nas sombras da internet de superfície.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Emanoel Reis, Macapá – AP

A metodologia do Noad exige um distanciamento emocional quase sobre-humano. Para reunir evidências sólidas que sustentem prisões e internações, os agentes precisam se infiltrar nesses grupos e adotar uma postura de observação passiva. Eles assistem aos delitos sem intervir, pois qualquer sinal de presença policial poderia alertar os criminosos, levando à destruição de provas e ao fechamento imediato dos servidores. A delegada Salvariego não esconde as cicatrizes psicológicas dessa missão. Segundo ela, há noites em que o silêncio do quarto é preenchido pelos ecos dos gritos de cães e gatos torturados que ela testemunhou através da tela. Esse sentimento de revolta, no entanto, é o que serve de combustível para que a equipe continue mapeando os agressores e resgatando vítimas.

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Recentemente, o caso do cão Orelha, um animal comunitário brutalmente morto na Praia Brava, em Florianópolis, mobilizou as redes sociais e gerou uma onda de indignação nacional. Contudo, para a equipe do Noad, o destino trágico de Orelha é uma estatística diária. Salvariego afirma que o Brasil possui incontáveis “Orelhas” sendo sacrificados todas as noites em rituais de violência gratuita que se tornaram rotina para os investigadores. A delegada observa com preocupação que muitos desses crimes são cometidos por crianças e adolescentes cujos pais ignoram completamente suas atividades digitais. Por falta de educação digital e supervisão, jovens mergulham em subculturas onde a vida de um ser não possui valor algum, servindo apenas como ferramenta para ganhar status em comunidades fechadas.

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Homem é preso por maus-tratos em Vilhena (RR) — Foto: Polícia Civil

Nas comunidades de zoossadismo, a violência não possui um propósito prático ou financeiro; a motivação é a estética do horror. A delegada explica que o objetivo é puramente a busca por fama dentro desses nichos. Em noites de alta atividade, o grupo chega a registrar 20 casos de tortura, onde animais são mortos com crueldade extrema e o sangue é utilizado pelos agressores para escrever seus próprios nomes, uma forma de “assinar” a barbárie. O sofrimento precisa ser intenso e prolongado para ser valorizado pelos pares. Casos semelhantes, como o do cão Abacate, morto a tiros no Paraná em janeiro, reforçam a tese de que a violência contra animais é frequentemente um precursor ou um acompanhante de comportamentos antissociais graves em jovens.

A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, corrobora essa visão ao destacar um processo de dessensibilizarão galopante entre a nova geração. A exposição constante a conteúdos violentos, sem o filtro da maturidade ou a mediação dos responsáveis, altera a percepção moral do indivíduo. O que inicialmente causa repulsa passa a ser tolerado e, eventualmente, replicado. A escalada começa com o consumo passivo de vídeos de violência e evolui para a prática de atos atrozes. Um exemplo extremo desse fenômeno foi registrado em um dos grupos monitorados pelo Noad: uma adolescente foi submetida a humilhações e abusos sexuais ao vivo para uma audiência de até mil espectadores. Durante a transmissão, após ser forçada a se automutilar e beber água do vaso sanitário, a jovem implorou para não matar um gato, alegando que amava o animal. A pressão do grupo, no entanto, muitas vezes sobrepõe-se a qualquer resquício de empatia.

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Diferente do que muitos acreditam, essas atividades não estão restritas à dark web. Elas ocorrem na internet de superfície, em plataformas acessíveis por qualquer dispositivo comum. O Discord, em particular, tornou-se um terreno fértil para esses núcleos extremistas. Embora tenha nascido como uma ferramenta para jogadores, sua estrutura de servidores fechados e convites privados facilita a criação de ambientes onde crimes podem ser orquestrados com impunidade relativa. A hierarquia nessas comunidades é clara, com líderes que ordenam estupros virtuais, automutilação e morte de animais. O recrutamento é sutil, começando em plataformas populares como Roblox ou TikTok, onde vídeos de estética caótica, conhecidos como “brainrot”, preparam o terreno psicológico para a radicalização.

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A moderação nessas plataformas é frequentemente criticada por ser insuficiente ou delegada aos próprios usuários, o que permite que os líderes dos servidores mantenham o controle total sobre o conteúdo compartilhado. Enquanto países como o Reino Unido já enfrentam redes internacionais de tortura de gatos que operam de forma lucrativa, no Brasil a motivação predominante ainda parece ser o sadismo puro e a busca por pertencimento em grupos de ódio. A Polícia Civil tenta contornar as dificuldades de cooperação com as empresas de tecnologia por meio da infiltração e da preservação de dados antes que os servidores sejam deletados.


Desde a criação do Noad, os resultados são expressivos: centenas de meninas foram retiradas de situações de abuso em arenas virtuais, dezenas de adultos foram presos e mais de mil animais foram salvos. A delegada Salvariego ressalta que uma medida simples poderia reduzir drasticamente esses índices: o controle do uso de dispositivos durante a madrugada. A maioria desses crimes ocorre entre as 23h e as 3h, um horário em que a supervisão parental é mínima. A delegada, que já foi alvo de ameaças diretas — incluindo um episódio em que uma vítima foi obrigada a gravar seu nome na pele como um “presente” irônico para a policial —, afirma que conhecer o inimigo é a sua maior defesa.
O cenário descrito revela uma falha societal profunda. A cultura da crueldade, impulsionada pelo ódio contra seres indefesos e pela busca por notoriedade virtual, demonstra como a empatia está sendo erodida no ambiente digital. Para a delegada e sua equipe, a luta contra o zoossadismo e a violência online não é apenas uma questão de segurança pública, mas um esforço para salvar uma geração que está perdendo a sensibilidade diante da dor alheia. O combate a essas redes tóxicas exige uma ação coordenada que envolva a conscientização das famílias, a responsabilização das plataformas de tecnologia e a aplicação rigorosa da lei, antes que o sadismo virtual se transforme de forma irreversível em tragédias reais e permanentes no mundo físico.


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