Prefeitura de Macapá promete regularizar coleta de lixo sem admitir colapso do sistema

PMM reduz frequência de coleta e deixa calçadas tomadas por entulho, enquanto gestão interina promete regularizar serviço que já afeta áreas hospitalares e bairros periféricos



Moradores de diversos bairros de Macapá enfrentam, desde o início de abril, uma crise severa na coleta de lixo urbano causada pela interrupção e redução da frequência do serviço nas vias públicas, situação que a prefeitura, sob gestão interina de Pedro DaLua (União), promete regularizar sem admitir oficialmente o colapso do sistema. O acúmulo de resíduos domésticos, móveis descartados e entulhos em calçadas e canteiros centrais tem gerado riscos sanitários imediatos, potencializados pelo período de chuvas intensas na capital amapaense. A problemática, que se arrasta há pelo menos trinta dias, expõe a fragilidade da zeladoria urbana tanto em áreas nobres quanto na periferia, transformando o cotidiano da população em um exercício de convivência com o mau cheiro e a proliferação de vetores de doenças.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Por Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Por Emanoel Reis, Macapá – AP

A paisagem urbana de Macapá, conhecida por suas brisas e proximidade com o rio Amazonas, deu lugar a um cenário de abandono que se espalha como mancha de óleo pela cidade. No Centro, o coração comercial do município, e em bairros tradicionais como Santa Rita e Santa Inês, a rotina de colocar o lixo na calçada tornou-se um ato de incerteza. Onde antes os caminhões passavam com regularidade, hoje restam montanhas de sacos plásticos rasgados por animais e revirados por urubus, que encontraram no descaso público um farto banquete. A situação é visualmente alarmante na avenida Raimundo Álvares da Costa, local que abriga instituições sensíveis como o Instituto de Hematologia e Hemoterapia do Amapá (Hemoap). Ali, onde a manutenção deveria ser prioridade absoluta, o lixo acumulado nas calçadas desafia a segurança biológica.

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A crise não escolhe CEP, mas castiga com maior rigor as zonas de maior densidade populacional. No Buritizal, Novo Buritizal, Congós e Muca, a interrupção do serviço sem aviso prévio transformou esquinas em lixões clandestinos a céu aberto. Relatos de moradores indicam que a frequência das coletas foi drasticamente reduzida, deixando as cestas domésticas transbordando. Em conjuntos habitacionais como o Açucena, o limite de tolerância — e de espaço físico — já foi ultrapassado. O depósito destinado aos resíduos do condomínio tornou-se insuficiente, forçando o descarte nas áreas comuns e calçadas externas, obstruindo o direito de ir e vir dos pedestres e criando gargalos no tráfego de veículos em vias estreitas.

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Crise na coleta de lixo em Macapá completa um mês e gera revolta entre moradores, que temem surtos de doenças devido ao acúmulo de resíduos e chuvas intensas em diversos bairros

O componente meteorológico agrava o que já é uma emergência social. Macapá atravessa o seu período de chuvas características, e a combinação de resíduos sólidos com as fortes precipitações é um gatilho para o desastre ambiental. O lixo espalhado entope bueiros, favorece alagamentos e cria poças de chorume que se misturam à água da chuva, aumentando exponencialmente o risco de doenças como a leptospirose, a dengue e infecções gastrointestinais. Para as famílias que vivem próximas a esses pontos de acúmulo, o medo de ver a sujeira invadir as residências durante uma tempestade é uma preocupação constante que tira o sono e afeta a saúde mental da comunidade.

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Nas redes sociais e em grupos de mensagens, a indignação popular é documentada em tempo real. Vídeos e fotos circulam como um diário do descaso, funcionando como um termômetro da insatisfação que a gestão municipal tenta, sem sucesso, conter. A população utiliza as ferramentas digitais não apenas para reclamar, mas para mapear o avanço da crise, denunciando que, em certos pontos, o serviço foi simplesmente suspenso sem qualquer explicação por parte da administração pública. O sentimento compartilhado é o de que os impostos continuam sendo pagos, mas o retorno básico em saneamento e higiene urbana desapareceu das ruas.

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A postura da Prefeitura de Macapá, até o momento, tem sido de cautela e silêncio sobre as raízes do problema. Embora a realidade das ruas aponte para um colapso operacional ou financeiro no contrato de coleta, a gestão evita utilizar a palavra “crise”. Procurada para prestar esclarecimentos sobre o cronograma de normalização e os motivos da falha no serviço, a Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom), representando o prefeito interino Pedro DaLua, limitou-se a informar que a regularização da coleta ocorrerá “em breve”. A nota oficial, no entanto, carece de prazos específicos ou de um plano de ação detalhado que tranquilize os moradores sobre quando os caminhões compactadores voltarão a percorrer as rotas habituais com a frequência necessária.

Enquanto a solução política e administrativa não se materializa, o impacto humano da crise se aprofunda. Comerciantes do centro reclamam da perda de clientes, incomodados com o aspecto insalubre e o odor fétido nas portas das lojas. Pais de família no Muca e nos Congós expressam receio pela saúde das crianças, que muitas vezes precisam desviar do lixo espalhado para chegar à escola.


O que se vê em Macapá neste mês de abril é o retrato de uma cidade que, presa entre o silêncio institucional e o acúmulo visível de resíduos, aguarda por uma resposta que vá além das promessas genéricas de gabinete. A zeladoria urbana, pilar fundamental de qualquer gestão municipal, tornou-se o maior gargalo de uma capital que hoje sufoca sob o peso do próprio lixo. A esperança de quem vive na “cidade do meio do mundo” é que a limpeza pública deixe de ser um privilégio esporádico e volte a ser o serviço essencial e contínuo que o cidadão macapaense exige e merece.


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