O envolvimento de magistrados em transações financeiras com banqueiro destrói o espírito de corpo no Supremo Tribunal Federal. Sem um inimigo externo, os ministros se isolam em Brasília, transformando almoços institucionais e julgamentos em cenários de disputa
Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), assessores jurídicos e interlocutores do Poder Judiciário enfrentam uma crise institucional inédita nos bastidores da Corte em Brasília, que se arrasta intensamente desde o primeiro semestre deste ano, em razão de graves revelações financeiras envolvendo o Banco Master que esgarçaram a coesão interna do tribunal, dividindo os magistrados em duas alas rivais e esvaziando agendas sociais devido a um clima de profunda desconfiança mútua. A deterioração das relações, antes blindada pelo espírito de corpo que unia o tribunal contra ataques externos, agora transborda em votações ríspidas no plenário, no boicote a jantares institucionais e em trocas de farpas públicas. O fenômeno expõe uma Corte fraturada, onde a tradicional cordialidade dos corredores já não consegue mascarar o isolamento político e ético de seus integrantes.

Publicamente, as aparências são mantidas com o rigor litúrgico que o cargo exige. Os ministros se cumprimentam formalmente, dividem a tradicional sala de lanches anexa ao plenário durante os intervalos das sessões e tratam de amenidades institucionais nos corredores do palácio. No entanto, o clima pesado é um fato consensual entre servidores e assessores de todas as gabinetes. A linha de fratura tornou-se evidente após vir à tona o escândalo do Banco Master, que colocou sob os holofotes transações financeiras milionárias de escritórios e empresas ligadas a membros do tribunal. A Receita Federal identificou um pagamento de 80,2 milhões de reais, ao longo de 22 meses, ao escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro Alexandre de Moraes, contratado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Paralelamente, revelou-se que o ministro Dias Toffoli recebeu ao menos 35 milhões de reais por meio de negócios com um fundo de investimentos ligado ao mesmo banqueiro em um resort, além de relatórios apontarem o uso de aeronaves da empresa de Vorcaro por magistrados.

O reflexo prático desse terremoto ético foi uma segregação social sem precedentes na capital federal. A festa de posse do ministro Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), realizada em uma luxuosa casa de eventos em Brasília, funcionou como o primeiro retrato nítido desse distanciamento. Conhecido por reunir o PIB político e jurídico do país em sua residência no Lago Sul, Nunes Marques viu sua comemoração esvaziada pelos pares. Dos dez colegas de Supremo, apenas Gilmar Mendes e André Mendonça compareceram — este último por ter sido empossado vice-presidente da corte eleitoral na mesma data. Os demais limitaram-se à cerimônia formal e protocolar no plenário mais cedo. Na antessala do TSE, o constrangimento foi notado por membros de outros tribunais superiores: os ministros do STF conversavam animadamente com convidados externos, mas evitavam dirigir a palavra uns aos outros.

A divisão consolidou a formação de dois blocos nitidamente rivais dentro do tribunal. De um lado, o presidente da Corte, Edson Fachin, lidera uma ala focada na preservação da imagem institucional, recebendo o apoio direto de Cármen Lúcia, Luiz Fux, André Mendonça e do próprio Nunes Marques. Do outro lado, estruturou-se uma bancada de resistência formada por Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Dias Toffoli, inicialmente alinhado ao grupo de Moraes e Gilmar, passou a ser cortejado pela ala de Fachin. Magoado por considerar que não foi devidamente blindado pelos aliados históricos quando as investigações do caso Master o atingiram, Toffoli estuda migrar de grupo como tática de sobrevivência política, adotando uma postura de absoluto silêncio nos julgamentos recentes sobre o tema e evitando aparições públicas.

Essa disputa interna alterou a dinâmica das sessões de julgamento, onde as rusgas de bastidores começaram a transbordar. Em março, o plenário impôs uma derrota acachapante a André Mendonça por oito votos a dois, derrubando sua liminar que ordenava a prorrogação da CPI do INSS no Senado. Durante o julgamento, o ministro Luiz Fux, ao apoiar isoladamente Mendonça, mencionou um precedente antigo de Gilmar Mendes sem citar seu nome, sob o pretexto de respeito. A reação de Gilmar foi imediata e irônica: “O voto é meu, ministro Fux, pode falar”. O tensionamento escalou em abril, quando Gilmar criticou publicamente na televisão a postura de Fachin ao sugerir a criação de um código de ética para o STF, alegando erro na oportunidade e no contexto do debate. Moraes e Toffoli já haviam manifestado forte contrariedade à proposta de regulação de conduta no início do ano.

Diferente de crises anteriores, como os embates com o governo de Jair Bolsonaro ou o julgamento dos atos golpistas de 8 de janeiro, quando o STF se uniu em uníssono para se defender, o cenário atual carece de um inimigo externo unificador. Para a ala de Fachin, a ameaça reside nos graves deslizes de conduta ligados ao sistema financeiro; para a ala de Moraes e Gilmar, o perigo é a insistência do próprio presidente do STF em pautas moralizadoras, vista por eles como uma omissão na defesa da integridade dos colegas perante a opinião pública.

Embora a assessoria do tribunal tente atribuir a ausência dos ministros em solenidades às agendas governamentais atribuladas, o esvaziamento dos eventos institucionais é visível. No lançamento de um livro em homenagem a Gilmar Mendes dentro do STF, apenas quatro ministros compareceram. Dias depois, em um coquetel internacional organizado por Fachin, somente Moraes e Zanin marcaram presença. Enquanto ministros como Cármen Lúcia e Flávio Dino mantêm sua postura histórica de aversão a festividades, o restante do plenário tateia um terreno minado, onde a convivência diária resiste apenas graças ao peso da toga e à obrigação constitucional.

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