Imagens capturadas por câmeras de segurança, aliadas ao monitoramento estratégico da Polícia Federal, registraram movimentações financeiras atípicas que somam saques de R$ 400 mil, R$ 260 mil e R$ 130 mil integralmente em espécie
O submundo da política amapaense, frequentemente envolto nas brumas de alianças de conveniência e manobras de bastidores, enfrenta agora uma de suas tempestades mais severas com o avanço das investigações da Polícia Federal sobre a construção do Hospital Geral e Maternidade Municipal (HGM). O que deveria ser um marco de saúde pública para a capital, com a promessa de 155 novos leitos para aliviar o sistema saturado de Macapá, transformou-se no epicentro de um escândalo que, segundo os federais, desvia o olhar da luz pública para os porões do Palácio Laurindo Banha.
No centro da teia, a PF identifica um consórcio de interesses que envolve o sócio proprietário da construtora Gama Engenharia Ltda, o engenheiro civil Rodrigo de Queiroz Moreira, e o prefeito de Macapá, Antônio Furlan, do MDB. O esquema, que apura desvios na ordem de 9 milhões de reais, é descrito pelos agentes federais como uma engrenagem sistêmica de corrupção que transita livremente entre a Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura Urbana (Semob), a Secretaria Municipal de Finanças (Semfi) e o gabinete principal do executivo macapaense.

A obra do Hospital Geral de Macapá, orçada em 69 milhões de reais, é fruto de uma articulação financeira robusta, composta por emendas parlamentares das ex-deputadas Leda Sadala e Aline Gurgel, além de recursos destinados pelo senador Lucas Barreto e pelo deputado federal Vinícius Gurgel. É imperativo ressaltar que, até o momento, os parlamentares que destinaram as verbas não são alvo de investigação, sendo considerados as fontes de recursos que acabaram capturadas por uma estrutura de malversação.
O problema, segundo o inquérito da PF, reside na execução e no destino final desses valores. A Gama Engenharia Ltda, sediada na avenida Antônio Coelho de Carvalho, no bairro Santa Rita, teria se tornado, sob o comando de Rodrigo Moreira, o braço executor de um projeto que ia muito além da engenharia civil. Os agentes acreditam que a proximidade entre o empresário e o prefeito não era meramente institucional, mas sim uma simbiose operacional desenhada para drenar recursos públicos de forma quase indetectável pelos métodos tradicionais de fiscalização.
Um dos pontos de inflexão na investigação ocorreu em uma manhã de movimentação aparentemente comum no centro de Macapá, mas monitorada de perto pelos olhos atentos da PF. Rodrigo Moreira foi flagrado por investigadores enquanto realizava um saque de vultosas quantias em espécie em uma agência bancária central. A cena, digna de roteiros cinematográficos de suspense político, foi confirmada por fontes ligadas ao inquérito.
O empresário, após a retirada dos valores, teria acondicionado o montante em uma mochila preta. Ao deixar a agência, o destino daquela mochila não foi o escritório da construtora ou o canteiro de obras do hospital, mas sim o interior de um veículo que o aguardava estrategicamente posicionado. Dentro do carro, a Polícia Federal identificou Jequerson da Costa Rodrigues, figura conhecida nos corredores do poder municipal como o motorista pessoal e de extrema confiança do prefeito Antônio Furlan.

Para a PF, a entrega direta de uma mochila carregada de dinheiro ao motorista do prefeito é o elo físico que faltava para conectar o empresário ao centro do poder executivo da capital amapaense. A tese dos investigadores descarta qualquer possibilidade de coincidência. O volume de 9 milhões de reais em desvios, a figura do motorista como receptor intermediário e as subsequentes visitas registradas a um escritório de um médico, amigo íntimo do prefeito, formam um mosaico de evidências que sugerem um fluxo financeiro paralelo.
A analogia utilizada pelos agentes federais é forte e carrega um peso histórico devastador: Rodrigo Moreira estaria exercendo para Antônio Furlan o mesmo papel que Paulo César Farias, o PC Farias, desempenhou para o ex-presidente Fernando Collor de Mello no início da década de 90. Naquela época, o “Esquema PC” tornou-se sinônimo de uma rede de corrupção que utilizava um operador financeiro privado para intermediar interesses de empresários com a máquina pública, garantindo a sustentação política do governo através de propinas e lavagem de dinheiro, o que culminou no histórico processo de impeachment de Collor.
Ao traçar este paralelo, a PF eleva o nível da investigação de um suposto crime licitatório para uma crise institucional de proporções sísmicas. A suspeita é de que o Palácio Laurindo Banha tenha se tornado um terminal de despachos secretos, onde a Secretaria de Finanças liberava os pagamentos para a Semob, que por sua vez repassava à Gama Engenharia, apenas para que uma parcela significativa retornasse ao gabinete do prefeito por mãos de terceiros.
Esse ciclo de retorno, conhecido no jargão policial como “rebus”, é o que caracteriza o enriquecimento ilícito e o financiamento de redes de influência. A figura de Rodrigo Moreira, portanto, não seria a de um simples prestador de serviços, mas a de um articulador financeiro capaz de transitar entre o mundo dos negócios e as decisões mais sensíveis do executivo, garantindo que a obra do hospital avançasse apenas o suficiente para justificar os repasses milionários, enquanto o excedente alimentava o esquema.

A gravidade do caso aumenta quando se considera o impacto direto na população de Macapá. Enquanto os milhões de reais circulavam em mochilas pretas e encontros furtivos, a construção dos 155 leitos do HGM sofria com o ritmo ditado pelo esquema de desvios. O atraso em obras de saúde não se mede apenas em dias, mas em vidas que deixam de ser atendidas e cirurgias que são postergadas por falta de infraestrutura.
O desvio de 9 milhões de reais, em um contexto de carência extrema no sistema único de saúde municipal, representa uma perda irreparável de oxigênio para a rede pública. Para os investigadores, a ousadia do grupo era tamanha que as transações ocorriam sob a luz do dia, em bancos centrais, sob a crença de que a rede de proteção política e o silêncio dos porões do palácio seriam suficientes para manter a impunidade.
O prefeito Antônio Furlan, que vinha consolidando uma imagem de gestor realizador e dinâmico, vê agora sua reputação confrontada com os relatórios da PF que descrevem o motorista do seu gabinete como um “mula” de luxo para o transporte de valores de procedência duvidosa.
A defesa do prefeito e do empresário Rodrigo Moreira tem tentado minimizar os fatos, alegando que as relações são estritamente profissionais e que os saques em dinheiro possuem justificativas contábeis ligadas à operação da empresa. Entretanto, a Polícia Federal aponta que a prática de saques em espécie é um método clássico para apagar o rastro digital do dinheiro e dificultar o rastreamento por órgãos de controle como o COAF. A conexão com o motorista pessoal de Furlan é o “batom na cueca” que as defesas ainda lutam para explicar de forma convincente perante a opinião pública e a Justiça.

As investigações agora avançam sobre as Secretarias de Obras e Finanças, buscando identificar quais servidores facilitaram o fluxo de caixa para a Gama Engenharia sem a devida contraprestação dos serviços ou com sobrepreços que permitissem a margem dos 9 milhões de reais investigados. O receio em Macapá é de que o “Esquema Furlan”, como já começa a ser chamado informalmente em círculos de oposição, tenha ramificações em outras obras da cidade, utilizando o mesmo modus operandi de intermediários financeiros e mochilas de dinheiro. O fantasma de PC Farias ronda Macapá, lembrando que figuras que se julgam intocáveis no topo da pirâmide política podem ser derrubadas pelos rastros deixados por seus operadores mais próximos.

A sociedade civil amapaense, exausta de ciclos de corrupção que drenam o futuro do estado, observa com expectativa o desenrolar das diligências. A possibilidade de um afastamento judicial do prefeito ou de prisões preventivas de figuras do alto escalão municipal não é mais descartada por analistas jurídicos. Se Rodrigo Moreira for de fato o PC Farias de Macapá, a história ensina que o desfecho tende a ser traumático para a gestão Furlan. O Hospital Geral de Macapá, que deveria ser um templo de cura, corre o risco de ficar marcado na memória coletiva como o monumento ao desvio de finalidade e ao uso da máquina pública para o enriquecimento de poucos. Enquanto a PF aprofunda os depoimentos e analisa as comunicações apreendidas, o clima no Palácio Laurindo Banha é de apreensão total, com o silêncio sendo interrompido apenas pelo barulho das sirenes que, cedo ou tarde, prometem retornar para buscar as respostas que a mochila preta e o motorista ainda não deram.

A comparação com o governo Collor não é apenas retórica; ela aponta para uma falha estrutural de controle onde o executivo se sobrepõe às instituições de fiscalização interna. O Ministério Público Federal e a Controladoria Geral da União já monitoram os desdobramentos, dado que os recursos são de origem federal. O desvio de 9 milhões de reais é apenas a ponta de um iceberg que pode revelar como a política de Macapá foi capturada por interesses privados travestidos de engenharia. O destino de Antônio Furlan parece agora intrinsecamente ligado ao destino de Rodrigo Moreira, em uma parceria que, se comprovada a tese da PF, levará ambos do topo do prestígio político e empresarial para o centro de um dos maiores julgamentos criminais da história recente do Amapá.

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