A trajetória de “rasteiras políticas” contra nomes como Gilvan Borges e Capibaribe expõe a fragilidade da base de Furlan, que agora usa as redes sociais para mascarar seu isolamento institucional.
Nos últimos anos, o ex-prefeito Antônio Furlan (PSD) consolidou uma trajetória marcada por sucessivos rompimentos políticos e pelo isolamento institucional, após se distanciar de aliados fundamentais que viabilizaram sua vitória nas eleições de 2020. Desde que assumiu o cargo em 2021, o médico e político desfez laços com figuras como Gilvan Borges (MDB), João Alberto Capibaribe (PSB) e Patrícia Ferraz (em 2020, filiada ao Podemos) em um intervalo de apenas dezoito meses, priorizando um projeto de poder familiar e a expansão de seus negócios privados no setor de saúde. A estratégia de “voo solo”, fundamentada na busca por autonomia absoluta, resultou em uma crise de confiança na base aliada e levantou questionamentos sobre o uso do capital político para o fortalecimento de interesses pessoais, empresariais e da carreira de sua esposa, a ex-primeira-dama Rayssa Furlan, em detrimento dos acordos coletivos que o levaram ao Palácio Laurindo Banha, sede da Prefeitura de Macapá.

A renúncia ao cargo foi
interpretada como fuga
estratégica para evitar
o impeachment e salvar
seus direitos políticos.
A ascensão de Antônio Furlan em 2020 foi um fenômeno construído sob a promessa de renovação e diálogo, mas os bastidores da gestão revelaram um padrão de comportamento centrípeto, onde o poder se fechou em um núcleo cada vez mais restrito. O caso mais emblemático dessa ruptura foi com o ex-senador Gilvan Borges, que atuou como o principal arquiteto da aliança vitoriosa e indicou a candidata a vice-prefeita Mônica Penha. O que deveria ser uma coalizão sólida transformou-se no que aliados de Borges descrevem como uma “rasteira política” sem precedentes. Logo após a posse, Furlan iniciou um processo de afastamento deliberado da influência da família Borges, não honrando compromissos de bastidores e manobrando para assumir o controle do MDB no estado, deixando seus antigos fiadores em um vácuo político.

O distanciamento de Gilvan
Borges é visto como uma
grande traição, após ele
ser o principal arquiteto
da vitória de Furlan.
Essa tendência ao descarte de parceiros não se limitou ao grupo de Borges. Líderes experientes como o ex-senador João Alberto Capibaribe e a ex-deputada Patrícia Ferraz, que emprestaram sua capilaridade eleitoral e credibilidade ao projeto de Furlan em momentos decisivos da campanha, foram gradualmente escanteados. Em apenas um ano e meio de mandato, o arco de alianças que parecia imbatível nas urnas estava em frangalhos. Para observadores da política amapaense, o ex-prefeito demonstrou uma faceta pragmática ao extremo: utilizou o apoio dessas lideranças como degraus para o cargo e, uma vez instalado na cadeira de prefeito, cortou os canais de interlocução para evitar a divisão de dividendos políticos ou a interferência em sua agenda pessoal.

Enquanto as alianças ruíam,
o ex-prefeito priorizou a
expansão de sua clínica
particular e os projetos
do seu núcleo familiar.
Paralelamente ao esvaziamento de sua base política, o patrimônio e a carreira privada de Furlan experimentaram um crescimento notável. No período em que deveria estar focado exclusivamente nos gargalos administrativos de Macapá, o ex-prefeito investiu pesadamente na expansão de sua clínica médica, adquirindo imóveis e equipamentos de ponta para criar um dos centros de saúde mais sofisticados do estado. O foco na vida empresarial, somado ao protagonismo dado à primeira-dama Rayssa Furlan — também médica e peça central nas decisões estratégicas do grupo —, gerou a percepção de que a prefeitura servia como uma plataforma de autopromoção e fortalecimento do clã familiar. O projeto público, aos poucos, foi sendo substituído por um plano de negócios pessoal e um ambicioso projeto de poder focado no palácio do Setentrião, sede do poder executivo estadual.

O isolamento institucional de Furlan cobrou um preço alto quando ele se viu sob investigação de órgãos de controle e do Legislativo. Sem uma base de apoio sólida na Câmara Municipal e cercado por ex-aliados que se tornaram adversários ferrenhos, o ex-prefeito viu sua margem de manobra desaparecer. A renúncia ao cargo, ocorrida recentemente, foi interpretada não como um gesto de desprendimento para disputar o governo estadual em 2026, mas como um movimento de fuga para evitar um processo de impeachment que estava em curso. Caso o processo avançasse, Furlan corria o risco real de perder seus direitos políticos por oito anos, o que enterraria definitivamente suas pretensões futuras.

Em apenas dezoito meses,
Furlan descartou aliados
vitais como Capibaribe e
Patrícia Ferraz, optando
por uma gestão isolada.
A narrativa de “perseguido político” que Furlan tenta emplacar em suas redes sociais esbarra na realidade dos fatos. Embora decisões judiciais recentes tenham lhe dado algum fôlego técnico, o desgaste de sua imagem entre a classe política é profundo. O Ministério Público Eleitoral já atua contra ele por propaganda antecipada, evidenciando que a pressa em se manter no holofote é uma tentativa de compensar a falta de apoio partidário orgânico. No Amapá, o histórico de Furlan é lido hoje como um alerta: o de um gestor que prioriza o rompimento em vez da composição e que não hesita em abandonar o mandato e os parceiros quando seus interesses privados e familiares são colocados à prova.

A narrativa de injustiça
no STF é vista como uma
cortina de fumaça para
esconder a fragilidade de
sua base institucional.
A desconfiança gerada por essa sequência de traições políticas dificulta a construção de novas frentes para o pleito de 2026. Políticos que outrora consideravam Furlan um aliado viável agora observam com cautela o destino de Gilvan Borges e dos Capibaribe. A “rasteira” aplicada no grupo de aliados que o elegeu em 2020 tornou-se o principal cartão de visitas negativo de uma pré-candidatura que tenta se sustentar apenas no marketing digital. O eleitorado, por sua vez, começa a questionar se o “médico do povo” não estaria mais interessado em cuidar de sua própria clínica e do futuro político de sua família do que em honrar a confiança depositada nas urnas.

Para renomados analistas políticos ouvidos pela reportagem, a trajetória de Antônio Furlan em Macapá serve como um estudo de caso sobre os riscos do isolamento e do personalismo na política. Ao transformar aliados em inimigos e o interesse público em um trampolim político-pessoal e empresarial, o ex-prefeito construiu uma carreira meteórica, mas extremamente frágil. Sem o suporte das lideranças que o ajudaram a chegar ao topo, ele agora caminha por um campo minado, onde cada novo passo em direção ao governo estadual será assombrado pelo fantasma dos acordos descumpridos e da priorização sistemática de seus próprios negócios acima da estabilidade republicana do Amapá.

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