A corrida do ouro e terras raras no Amapá atrai o crime organizado e ameaça comunidades locais

Órgãos de fiscalização intensificam cerco contra empresas de fachada e notas fiscais fraudadas usadas por organizações criminosas para contrabandear minérios críticos da Amazônia



A corrida internacional por minerais críticos colocou o estado do Amapá no centro de um complexo e alarmante esquema de exploração clandestina e contrabando, impulsionado por 65 processos minerários ativos de terras raras — todos associados a metais nobres como o ouro —, que saltaram drasticamente desde 2022, quando 53 protocolos de pesquisa foram formalizados na Agência Nacional de Mineração (ANM) com forte concentração nos municípios de Calçoene e Oiapoque, transformando a região amazônica em um polo de atração para redes criminosas que contam com empresas de fachada, notas fiscais fraudadas e operações de escoamento internacional via complexo portuário de Barcarena, no Pará, desafiando autoridades e ameaçando comunidades locais.

A intensificação das fiscalizações e do cerco policial ao garimpo em outras áreas da Amazônia acabou provocando o chamado “efeito balão”, um fenômeno em que operadores ilegais simplesmente migram e deslocam suas frentes clandestinas em direção ao solo amapaense, atraídos tanto pela tradicional exploração aurífera que pressiona o Vale do Jari e unidades de conservação quanto pelo novo e cobiçado potencial de terras raras e cassiterita, mineral essencial para a indústria global de eletrônicos. “O que vemos hoje é uma mutação do crime organizado na Amazônia, que percebeu nas fendas da burocracia e na vastidão da floresta uma oportunidade de ouro — literal e figuradamente — para lavar minérios críticos e abastecer mercados estrangeiros sem qualquer controle socioambiental”, aponta um pesquisador especializado em dinâmicas criminosas na região norte do país.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
FINA ESTAMPAFINA ESTAMPA30 de julho de 2019Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Emanoel Reis, Macapá – AP

As investigações conduzidas por órgãos de segurança pública revelam que a engrenagem desse esquema ilegal é altamente sofisticada, utilizando artifícios contábeis e documentais para conferir uma falsa aparência de legalidade a toneladas de minério extraídas sem autorização. Um exemplo emblemático dessa atuação foi a Operação Trono de Ferro, deflagrada pela Polícia Federal, que desarticulou uma rede criminosa responsável por movimentar centenas de toneladas de cassiterita ilegal mediante o uso sistêmico de fraudes em notas fiscais emitidas após o transporte clandestino do material. Para moradores e lideranças comunitárias que testemunham o avanço dessas frentes de lavra em Calçoene e Oiapoque, a pressão sobre os recursos naturais afeta diretamente o cotidiano e traz insegurança: “A gente percebe a movimentação estranha de caminhões e pessoas que chegam de repente, destruindo os igarapés e trazendo um clima de medo para quem só quer viver da pesca e da agricultura familiar”, desabafa um morador de Oiapoque que prefere não ter a identidade revelada por medo de represálias.

O escoamento dessa imensa riqueza subtraída ilegalmente do solo amapaense encontra sua principal garganta logística no estado vizinho do Pará, mais precisamente no Porto de Vila do Conde, localizado no município de Barcarena, estrategicamente visado por contrabandistas devido à sua capacidade de movimentar cargas em grande escala rumo aos exigentes mercados asiático e europeu. Diante dessa rota de escoamento, a atuação conjunta da Receita Federal e de agências reguladoras tem resultado em interceptações frequentes de volumes massivos de minérios críticos — como cobre, manganês e cassiterita —, que acabam retidos nos terminais portuários por apresentarem graves inconsistências fiscais e documentação forjada. “Estamos barrando cargas que somam milhares de toneladas e que tentam burlar o Fisco utilizando rotas interestaduais para simular uma origem lícita que jamais existiu”, destaca um auditor fiscal lotado nos terminais de Barcarena, evidenciando o esforço do Estado para estancar a sangria logística do contrabando regional.

Especialistas em geopolítica dos recursos minerais alertam que a corrida pelas terras raras no Amapá — embora frequentemente mascarada por protocolos de pesquisa voltados primordialmente para o ouro, conforme indica a concentração de pedidos na ANM — esconde um risco geopolítico e ambiental de proporções incalculáveis para o Brasil. A ausência de um monitoramento tecnológico rigoroso e de uma presença estatal capilarizada nessas zonas de fronteira permite que o país seja espoliado de insumos fundamentais para a transição energética global sem que haja contrapartida social ou desenvolvimento local. “O Amapá corre o sério risco de repetir os ciclos trágicos da borracha e do garimpo predatório, onde a riqueza é extraída às pressas, deixando para trás degradação ambiental irreversível, conflitos fundiários agudos e comunidades empobrecidas, enquanto o lucro real é realizado a milhares de quilômetros de distância”, adverte uma analista de sustentabilidade e direitos socioambientais que acompanha de perto a expansão minerária na Amazônia Legal.

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Enquanto o debate sobre a soberania dos minerais críticos ganha força nos gabinetes de Brasília e nos organismos internacionais, a realidade na ponta continua a ser marcada pela vulnerabilidade social, pela pressão sobre ecossistemas frágeis e pela urgência de respostas institucionais coordenadas que consigam sufocar a articulação financeira das facções. Para os cidadãos amapaenses que acompanham o noticiário sobre as operações policiais e a chegada de novas empresas de mineração, o sentimento predominante é de apreensão quanto ao futuro coletivo do estado. “Nós não somos contra o desenvolvimento, mas queremos saber que desenvolvimento é esse que destrói nossa terra, enriquece meia dúzia de criminosos de fora e deixa para nós apenas a conta da poluição e da violência”, resume, com angústia e esperança de justiça, uma liderança comunitária do Vale do Jari, sintetizando o drama humano por trás dos números frios dos processos minerários.


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