Fuga de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos desmonta ofensiva de Alcolumbre para conter crise institucional

Presidente do Senado buscou saída com Gilmar Mendes para evitar escalada de tensão entre Poderes, mas embarque do senador do PL rumo aos Estados Unidos inviabilizou recurso da Casa e acirrou disputa — Foto: Sergio Lima/AFP



O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), articulou nos bastidores de Brasília, na segunda-feira (26), uma ofensiva institucional junto ao Supremo Tribunal Federal para tentar reverter a retenção dos passaportes do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ordenada pelo ministro Alexandre de Moraes após a proclamação das eleições pelo Tribunal Superior Eleitoral. A ofensiva, contudo, ruiu na terça-feira (27), data em que vencia o prazo legal das 12h fixado pela Polícia Federal para a entrega dos documentos e momento em que o parlamentar carioca embarcou rumo aos Estados Unidos sem autorização judicial. A manobra frustrada expõe a fragilidade dos acordos de cúpula em um Congresso cindido, onde a busca por distensão esbarra na radicalização de agentes políticos que convertem medidas cautelares em palanque de contestação às urnas.

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Antes do embarque de Flávio, Alcolumbre relatou a ao menos três parlamentares próximos que acionara diretamente o decano da corte, Gilmar Mendes, e que preparava uma representação formal da Mesa Diretora contra a ordem restritiva, avaliada pelo amapaense como lesiva às prerrogativas parlamentares de quem exerce mandato legislativo regular até fevereiro. Em manifestações oficiais remetidas à reportagem, tanto a assessoria da presidência do Senado quanto o gabinete do decano negaram categoricamente a existência do diálogo telefônico, contradizendo os relatos uníssonos prestados reservadamente por aliados que participaram das reuniões preparatórias. Nos bastidores do Congresso, o presidente do Senado pretendia argumentar com Moraes que o confisco fornecia munição discursiva ao bolsonarismo, alimentando tensões que afetam a estabilidade democrática e desorganizam a pauta legislativa prioritária.

O despacho que deflagrou a crise atendeu a uma representação formal da Polícia Federal baseada no artigo 320 do Código de Processo Penal, apontando risco concreto de evasão do território brasileiro pelo filho mais velho do ex-presidente em meio ao avanço de inquéritos sob relatoria de Moraes. Ao aterrissar em território norte-americano, Flávio ignorou a ordem judicial, proclamou-se inicialmente o “verdadeiro presidente” e, após retificar a postagem para “líder do Brasil”, alegou perseguição política para legitimar a saída sem apresentar quaisquer elementos probatórios sobre fraudes eleitorais. Pesquisas do Instituto Datafolha indicam que o descumprimento de medidas judiciais por figuras públicas aprofunda o desgaste das instituições, gerando sentimento de insegurança na população que vê normas rígidas para o cidadão comum serem desafiadas abertamente pela elite política.

Juristas e especialistas em direito constitucional ouvidos pela reportagem advertem que a estratégia de contestar sanções no exterior aprofunda o fosso entre os Poderes e vulnera a representatividade dos mais de 4,3 milhões de eleitores fluminenses que outorgaram o mandato ao senador. A cientista política Carolina Silva observa que a tentativa de blindagem corporativa revela o choque entre o rigor procedimental da magistratura e as conveniências de sobrevivência partidária, num contexto em que parlamentares abrem mão de prerrogativas legítimas em troca da radicalização retórica nas redes sociais. Enquanto analistas apontam a insolvência da mediação institucional diante de fatos consumados de fuga, lideranças comunitárias e servidores públicos relatam que a constante paralisia do Congresso em torno de disputas pessoais asfixia debates vitais sobre emprego, renda e serviços básicos para a sociedade.

Nas entrelinhas da articulação frustrada repousa a disputa pela sucessão da presidência do Senado em 2027, pleito no qual Alcolumbre ambiciona reconquistar o comando da Casa enfrentando uma bancada conservadora ampliada nas urnas sob a bandeira explícita de pautar o impeachment de ministros do STF. Para tentar aplacar esse bloco sem romper com o Judiciário, o senador amapaense passou a ventilar nos corredores a tese de articular um indulto humanitário junto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor de Jair Bolsonaro, detido preventivamente desde agosto de 2025 pelos atos golpistas. Caso o Executivo vete a medida de clemência, Alcolumbre já sinalizou a interlocutores que patrocinará a tramitação de uma anistia ampla pelo plenário, tentando consolidar-se como o único fiador capaz de frear convulsões entre as instituições republicanas.

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O cálculo pragmático do presidente do Senado, no entanto, foi recebido com ceticismo generalizado pela oposição parlamentar, cujas principais lideranças no plenário qualificaram os gestos de apaziguamento como insuficientes para garantir qualquer apoio formal à sua recondução ao cargo máximo da Mesa Diretora. Dados consolidados do processo legislativo mostram que a fragmentação partidária atinge níveis recordes, inviabilizando acordos bilaterais de cúpula que não contemplem concessões materiais imediatas à bancada bolsonarista, historicamente refratária a composições de centro. Com a viagem de Flávio consolidada no exterior e as pontes com a oposição mantidas em compasso de espera, a tentativa de Alcolumbre de atuar como pacificador entre o Supremo e o Legislativo naufragou, deixando o Senado em estado de alerta e com o diálogo institucional sob severa paralisia.


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