CULTURA

“Um Beijo do Gordo” promove uma viagem nostálgica pela história da televisão

Intelectual atípico para a televisão, Jô Soares foi um artista genial e completo. Sua carreira e sua vida admiráveis são o tema da série documental ‘Um Beijo do Gordo’, da Globoplay

Jô Soares conheceu a atriz Claudia Raia enquanto ela fazia figuração em um programa de humor — Foto: Reprodução


Multifacetado, Jô Soares foi um intelectual da TV. Por mais paradoxal que pareça essa ideia, a verdade é que Jô conseguiu uma façanha única: a de levar sua erudição para um meio de comunicação de massa, na mesma medida que proporcionava o melhor do humor de sua época. Jô foi muitos e espalhou suas marcas para além da TV, mas foi nela que ele atingiu o grande público que só esse meio consegue abraçar.

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A série documental Um Beijo do Gordo, dirigida por Renato Terra na Globoplay, nasce com esse imenso desafio: o de tratar de um ser humano grandioso em apenas quatro episódios, tendo que escolher recortes dentro de uma carreira infindável. Diretor e equipe então optaram por um caminho mais ou menos cronológico, que retrata o começo de sua carreira na comédia, os programas humorísticos na Record e na Globo, até a coragem para lutar por um sonho: o de apresentar um talk show.

Em 2000, Jô voltaria à Globo em grande estilo, capitaneando o Programa do Jô, no qual ficaria até 2016. Desde sua saída, ficou fora da TV, e por fim faleceu de insuficiência renal em 2022, aos 84 anos. Mas esse breve resumo não faz jus àquilo que ele foi, muito além do que foi conhecido pelas pessoas. E é isso que Um Beijo do Gordo tenta apresentar ao seu público.


Conforme já dito, Renato Terra tinha em Um Beijo do Gordo a tarefa, ao lado da roteirista Jordana Berg, de optar por poucos momentos dentro de uma carreira absolutamente profícua. Nos quatro episódios, chama a atenção que suas escolhas sejam por momentos não tão conhecidos assim, os quais desenvolve com fluidez e calma – o movimento contrário seria tentar colocar o máximo de situações possíveis, sem desenvolvê-las.

Também é um grande ganho as entrevistas com os músicos que compartilhavam o programa com o apresentador, formando o Quinteto do Jô, que em certo momento virou Sexteto. Ali há pequenas pistas deliciosas que esclarecem como Jô tinha a perfeita noção de como controlar tudo para fazer as interações do seu programa parecerem espontâneas e, por isso, sempre engraçadas.


Cito dois momentos mais complexos: em um suposto entrevero que ele teria tido com Fábio Porchat, sugerindo que houve um certo boicote ao novo comediante (as razões não são bem explicadas, e Porchat conta que, em certo momento, Jô ligou para ele e pediu desculpas) e no depoimento de Claudia Raia sobre o relacionamento dos dois. Logo após a atriz falar que todos se impressionavam que a mulher mais gostosa da Globo fosse apaixonada por um homem gordo, é veiculada uma entrevista com Flavinha, esposa de Jô por onze anos, contando que o apresentador disse a ela que namorou Claudia só porque ela não lhe deu bola.
Essas nuances são importantes para que se tire um pouco a visão de um homem sem defeitos. Mas é impossível não se emocionar com as falas do último episódio, que foca apenas na vida íntima e nos últimos momentos da vida de Jô Soares. São relatos intimistas e até banais, como os narrados por Adriane Galisteu, que era sua vizinha de prédio e que compartilhava com ele o hábito de comer guloseimas pouco saudáveis na madrugada.

Embora alguns aspectos da série documental possam ser considerados over (coloco aqui a reconstituição do cenário do Programa do Jô para tentar emocionar os entrevistados que dessem entrevista nele, o que traz um certo efeito de quadro do Luciano Huck), o fato é que Um Beijo do Gordo comove ao contar a história de um personagem absolutamente único e erudito dentro de um veículo que, na maior parte das vezes, fica limitado à superfície dos temas. E deixa claro: nunca mais haverá alguém como Jô.

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