CULTURA

Milhares de foliões tomam conta das ruas centrais de Macapá para celebrar a 61ª edição do bloco “A Banda”

Cores, bonecos gigantes e a alma de um povo que faz da terça-feira de Carnaval o seu maior espetáculo de liberdade

Quando a poesia de Chico Buarque ganha as ruas da Linha do Equador: a tradição de ‘A Banda’ arrastando corações em Macapá — Foto: Divulgação


Na tarde da terça-feira, 17 de fevereiro de 2026, o asfalto quente de Macapá não apenas exalava o calor equatorial característico da capital amapaense, mas vibrava sob o peso de uma massa humana que, há mais de seis décadas, subverte a lógica do isolamento geográfico para afirmar uma identidade própria. O bloco “A Banda”, em sua 61ª edição, arrastou uma multidão estimada em 200 mil pessoas pelas ruas do Centro, consolidando-se não apenas como o maior bloco de rua da região Norte, mas como um inventário vivo da memória política e cultural do Brasil profundo. O que se viu foi um mar de “sujos” — como são carinhosamente chamados os foliões que abdicam do luxo das escolas de samba em favor da irreverência das ruas — transformando a capital em um palco onde o passado e o presente se encontram em um passo de marcha.


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Os bonecos desfilaram com roupas nas cores da Seleção Brasileira de Futebol que estará no Mundial deste ano — Foto: Reprodução/WEB

A gênese desse fenômeno remete a um cenário quase literário: uma mesa de carteado no Carnaval de 1965. Enquanto o país tateava os primeiros e sombrios meses da ditadura militar, um grupo de amigos em Macapá decidia que a folia precisava de um corpo coletivo. Mal sabiam eles que aquele jogo de cartas daria origem a uma tradição que sobreviveria a regimes, crises econômicas e transformações urbanas. O nome, emprestado da lírica de Chico Buarque de Hollanda, não foi uma escolha puramente estética. Naquele momento, “A Banda” era o hino de campanha de Janary Nunes, então candidato a deputado federal e figura central na política territorial. A canção, que falava de um povo que parava para ver a banda passar cantando coisas de amor, carregava consigo uma ambiguidade que, aos olhos dos censores da época, beirava a insurreição.

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Essa carga política manifestou-se de forma física nos primeiros anos do bloco. Relatos históricos e a memória oral dos baluartes da Associação de Brincantes e Simpatizantes do Bloco de Sujos recordam o dia em que o desfile ousou traçar seu caminho pela Avenida FAB, o coração administrativo e militar da cidade. O medo de que a alegria desordeira dos foliões escondesse uma revolta contra o regime levou os militares a fecharem o trecho em frente ao antigo Palácio do Governo. A Banda, contudo, não parou; ela contornou o autoritarismo com a mesma fluidez com que hoje contorna as esquinas do centro comercial, provando que o Carnaval é, por excelência, o espaço da negociação do poder através do riso.

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No epicentro dessa multidão, erguem-se figuras que desafiam a escala humana. Os bonecos gigantes, com seus três metros de altura, funcionam como tótens de uma mitologia local. Eles não são meras alegorias carnavalescas; são homenagens a personagens que costuraram a história social de Macapá.

Chicona

A linhagem dessas figuras começou com a lendária “Chicona”, a primeira boneca a ganhar as ruas. Levada originalmente por um folião conhecido como Cutião, a figura foi batizada em honra a uma enfermeira muito popular na cidade durante a década de 1960. Ver a Chicona balançar hoje, cercada por novas personalidades esculpidas em isopor e tecido, é testemunhar a canonização popular de cidadãos comuns que, na memória da Banda, tornam-se imortais.
O apoio do governo do Amapá nesta edição de 2026 reforça a institucionalização do bloco como patrimônio, mas o espírito que domina o trajeto permanece sendo o da espontaneidade. Diferente do Carnaval do Rio ou de São Paulo, onde o espetáculo é mediado por ingressos e grades, A Banda é um organismo aberto.

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Ali, o juiz divide o espaço com o operário, ambos cobertos de amido de milho, espuma e alegria, em um ritual de nivelamento social que só o “bloco de sujos” permite. A logística para mover 200 mil pessoas em uma cidade de meio milhão de habitantes é um desafio que paralisa o comércio, altera o fluxo do transporte público e mobiliza todo o aparato de segurança, mas ninguém em Macapá parece se importar. Na terça-feira de Carnaval, a cidade pertence à Banda.

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O percurso é um exercício de resistência física e emocional. O som que emana dos trios elétricos é uma mistura de marchinhas clássicas, o inescapável tema de Chico Buarque e os ritmos regionais que dão o sotaque amapaense à festa. O calor de Macapá, que em fevereiro costuma ser acompanhado por pancadas de chuva súbitas, as famosas “torrenciais de inverno”, não arrefece o ânimo. Pelo contrário, a chuva é recebida como uma bênção que lava o suor e renova as energias para as últimas horas de desfile. É uma catarse coletiva que reafirma a posição do Amapá no mapa cultural brasileiro, muitas vezes negligenciado pelos grandes eixos do Sudeste.

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A importância de A Banda vai além do entretenimento. Ela é um termômetro sociológico. Nas fantasias improvisadas, nos cartazes que pontuam a multidão e na escolha dos novos bonecos homenageados, percebe-se o que aflige e o que diverte o povo nortista. Em um estado que faz fronteira com a Guiana Francesa e que olha para o Rio Amazonas como sua principal rodovia, o Carnaval de rua é o momento em que todas as influências se fundem. A Banda é o ponto de encontro entre a tradição dos antigos carnavais de clube e a modernidade das grandes aglomerações urbanas.

Ao atingir sua 61ª edição, o bloco enfrenta o desafio de se manter relevante para as novas gerações sem perder a essência que o originou naquela mesa de jogo em 1965. A presença massiva de jovens entre os foliões sugere que o DNA da Banda foi transmitido com sucesso. Eles podem não conhecer todos os detalhes da tensão militar na Avenida FAB ou a biografia completa da enfermeira que inspirou a Chicona, mas entendem o código fundamental do bloco: a rua é o lugar da liberdade.


O desfile deste ano, encerrando-se ao pôr do sol, deixou para trás uma cidade exausta, mas preenchida por uma sensação de dever cumprido. Macapá provou, mais uma vez, que sua maior riqueza não está apenas nos recursos naturais ou na linha imaginária do Equador que a corta, mas na capacidade de sua gente em transformar uma simples marcha musical em um monumento de resistência e alegria. Quando a última nota da canção de Chico Buarque silenciou, o que ficou foi a promessa silenciosa de que, no próximo ano, os gigantes de três metros voltarão a caminhar entre os mortais, e a banda continuará passando, cantando coisas de amor e, acima de tudo, contando a história de um povo que recusa o silêncio.

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