“Sem Coração” é o filme que retrata a juventude de maneira única

Premiado longa-metragem de estreia dos cineastas Nara Normande e Tião, ‘Sem Coração’ constrói um rico e complexo mosaico de histórias que envolvem adolescentes no Brasil dos anos 1990
O medo de viver algo novo é uma sensação universal, muitas vezes explorada pelo cinema. A transição da adolescência para a vida adulta é como vagar por um nevoeiro espesso, uma experiência angustiante, mas também definidora. A inocência da infância ainda nos envolve, enquanto os anseios nebulosos pelo futuro começam a se manifestar. É um período de exploração, de descoberta do desconhecido, de despertar para a complexidade dos sentimentos e da sexualidade.
Nara Normande e Tião, dois talentosos jovens cineastas, mergulham fundo nessa experiência no belo Sem Coração, longa-metragem de estreia dos diretores e uma obra singular, na qual autenticidade e sensibilidade se fundem, entrelaçando realismo e elementos oníricos (as cenas com uma baleia agonizante na praia são belíssimas), retratando tanto o indivíduo quanto o coletivo, tudo isso em meio a paisagens litorâneas paradisíacas, de beleza surreal. O filme chega nesta semana aos cinemas brasileiros.
Estamos em 1996. Tamara (Maya de Vicq), uma jovem criada nas praias de Garça Torta, em Alagoas, se prepara para deixar sua terra natal e iniciar seus estudos universitários em Brasília. Este é o último verão dela ali, junto com seu irmão Vitinho e seu grupo íntimo de amigos, que vivem nas vizinhança. É importante assinalar aqui que ela e sua família pertencem à classe média, enquanto os outros jovens são mais vulneráveis economicamente e em outros aspectos.
Os adolescentes passam os dias de forma despreocupada, nadando no mar, conversando sob as palmeiras e dançando nas noites quentes – há, no ar, uma sensualidade latente. A tranquilidade, no entanto, é interrompida pela aparição de Sem Coração (Eduarda Samara), uma jovem que entrega de bicicleta peixes pescados por seu pai. A cicatriz em seu peito, resultado de uma cirurgia cardíaca na infância, desperta a curiosidade de Tamara, que se sente cada vez mais atraída por ela.
Enquanto isso, nuvens negras começam a se formar sobre o grupo de amigos. O assassinato, nas redondezas, de Paulo César Farias, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Mello, e sua namorada parece desencadear segredos sombrios e desafios inesperados. Uma tempestade existencial se avizinha, trazendo consigo revelações que abalam as estruturas das vidas de todos na localidade.

‘Sem Coração’ é o filme que vai mexer com você
Entrelaçando a trama principal com diversas subtramas que envolvem as famílias de Tamara e Sem Coração, os dramas pessoais dos amigos e questões sociais, como homofobia e violência familiar, os dois cineastas constroem um rico em complexo mosaico de histórias. Esses fragmentos, aparentemente insignificantes isoladamente, se combinam habilmente para criar um quadro mais amplo, repleto de nuances e emoções. O resultante é notável.
Sem Coração vai além de ser apenas um filme. É uma jornada sensorial, capturada de forma sensível pela diretora de fotografia Evgenia Alexandrova, que transforma cada cena em uma experiência visualmente intrigante.
Sem Coração vai além de ser apenas um filme. É uma jornada sensorial, capturada de forma sensível pela diretora de fotografia Evgenia Alexandrova, que transforma cada cena em uma experiência visualmente intrigante. É uma estreia promissora que nos convida a mergulhar nas profundezas da juventude, da descoberta e da transformação.
Sem Coração participou da mostra competitiva Orizzonti do 80.º Festival de Cinema de Veneza, foi premiado no Festival do Rio e ganhou o prêmio da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine) de melhor filme da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2023.





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