CULTURA

A resistência da música de Sérgio Sampaio: um reflexo das lutas sociais nas ruas brasileiras

O poeta maldito que fez o país cantar e morreu esquecido aos 47 anos: a tragédia do autor de “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua”

O artista nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, e faleceu em maio de 1994, por conta de uma pancreatite crônica — Imagem: Reprodução/WEB


Em uma manhã de maio de 1994, no Hospital de Santa Teresa, o tempo parecia medido pelo oxigênio e pelo vento ralo que agitava a cortina. O cantor e compositor Sérgio Sampaio tinha o rosto afilado, a pele colada ao lençol. A mão subia e caía, buscando um apoio que não vinha. Dentro dele, uma sala de memórias acesas a meia-luz: cabos, palcos, e um refrão que já movera ruas e agora cabia inteiro entre os lábios e a máscara. O Rio de Janeiro seguia lá fora. Ali, a voz resistia, em um silêncio que doía resistir. Aos 47 anos, a voz pararia de lutar, mas o canto, teimoso e essencial, apenas esperava sua vez.

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O berço e o microfone: Cachoeiro de Itapemirim (1947-1960)
Antes do Rio, havia Cachoeiro de Itapemirim. Nascido em 1947, Sampaio cresceu em um quintal de pedra e água, entre pilhas de discos, com um pai que afinava instrumentos na cozinha e conduzia bandas amadoras. O rádio de mesa, com seu chiado constante, era a trilha sonora. Aos quinze, ele já estava do lado de dentro do chiado: era locutor da ZYL-9, a emissora AM da cidade. Ali, no calor do microfone, a palavra deixou de ser apenas palavra, ganhando corpo de música, guardada para o futuro.
No final dos anos 1960, com uma mala curta e um violão gasto, ele desembarcou no Rio. Pensão na Lapa, paredes finas, cadernos empilhados perto da janela. Cantou em balcões de tampo pegajoso até que, numa noite, o riso acendeu e apagou no rosto de Raul Seixas, que parou para escutar duas estrofes. O encontro, anotado no verso de um guardanapo, levou à sala pequena de estúdio: duas tomadas, uma conversa baixa sobre cortar uma sílaba, e a voz de Sérgio no ponto exato em que a palavra aceita cair. Raul saía com uma certeza guardada no bolso.

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O marco: o “Kavernista” e a marcha inevitável
Em 1971, o resultado dessa certeza veio em forma de LP: “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10”. Concebido por Raul Seixas, o álbum de estúdio da CBS reuniu Sampaio, Edy Star e Miriam Batucada. Uma montagem de canções e vinhetas, gargalhadas rápidas costurando críticas, alegria nervosa servida em faixas curtas, tudo registrado em microfone próximo. O disco foi parar num catálogo sem lugar, uma luz pequena, um “fósforo aceso dentro do bolso”, que continua queimando mesmo quando a mão esquece.
O palco grande viria em 1972. No Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, sob as luzes altas, ele levou uma marcha que cantou sem pedir aval: “Eu quero é botar meu bloco na rua”. O compacto correu pelas rádios, atravessou as esquinas. O refrão ficou na boca do país, ecoando mesmo enquanto a ditadura carimbava pareceres em tinta roxa sobre letras devolvidas com versos riscados.

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O desvio: a teimosia contra o mercado
O ano de 1973 trouxe o LP de capa marcante, com letras que mordem e afagam um Brasil que assobiava enquanto procurava seu nome no rótulo. Mas o mercado pedia outra coisa. Em reunião de repertório, após tocar faixas no violão, o produtor elogiou a rima, mas pediu algo “que circule no almoço”. Sampaio ficou com o desvio: o gosto pela mistura indócil, a melodia que encontra ternura por dentro da farpa, a ironia de borda fina e a batida que prefere a confidência ao espetáculo.
Nos bastidores, o adjetivo “maldito” começou a circular como atalho, cabendo em pauta e cochicho. Enquanto o mercado encolhia ao seu redor, sua obra reteve a própria teimosia, lapidando desvios de detalhe, ironia no ponto, rimas que soam inevitáveis desde o começo. Sua dicção, que desloca o peso de palavras triviais, a solda precisa entre bolero, samba, choro e blues, tudo era feito sem cartaz, longe do horário nobre.

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O fim da estrada e o recomeço tardio
A estrada foi minguando para o artista. Pensões em Copacabana, bares de luz incerta com plateias de oito pessoas numa terça. Uma senhora pedia “a do bloco”, ele atendia com gratidão e, por dentro, guardava as outras, as mais fundas, aquelas que quase ninguém conhecia. Falavam de álcool, de contas atrasadas. Em vez de justificativa, permanecia a vida posta no papel.
Já nos anos 90, um recomeço breve na Bahia, em Itapuã, trouxe outro vento. Cadernos cheios, voz ensaiando em fita cassete. Ele tentava um esforço paciente para manter o corpo no eixo, com horários marcados a lápis para compor. O copo afastado da mesa, o álbum desenhado em conversa de cozinha. Mas as sessões inteiras não aconteceram. Ficaram apenas os fragmentos ainda quentes, as promessas de timbre.
Na semana derradeira, a dor instalou-se no abdômen. O táxi subiu até Santa Teresa. No hospital, os médicos falaram de pâncreas inflamado. Ele fechou os olhos e ouviu a cadência da marcha que não se apagava. Levou a mão ao peito, guardando uma última sílaba para a gravação que não viria. No dia 15 de maio de 1994, a voz parou de lutar. A notícia saiu sem alarde, notas breves, enterro curto.


A maré póstuma: a canto que não pede licença
Depois da morte, a maré virou devagar. O concerto “Balaio do Sampaio” (1996), que reuniu amigos no Circo Voador, abriu a porta. Em 1998, o tributo ganhou vinil e CD, e aquelas faixas saíram do circuito miúdo, encontrando novas casas de som. Em 2006, o álbum “Cruel” garimpou suas vozes de ensaio com arranjos atentos à linha em que a dor respirava sem exibicionismo.
Uma estrada póstuma se formou: universidades, pesquisadores, coletivos independentes. A comparação com o conterrâneo famoso, Roberto Carlos, é inevitável, mas descabida: um ergueu o império da televisão; Sampaio, o repertório essencial, de canto áspero e delicado ao mesmo tempo, um arranhão que ilumina.
Sérgio Sampaio dispensou estátua e legenda. Ele não virou manchete, mas sustenta o que importa. Basta um bar de cadeiras tortas, um cantor novo que puxa uma faixa de outro tempo, e a frase desce inteira, do jeito em que foi inventada. O bloco passa outra vez, sem alarde. Aos poucos, vai se formando um país miúdo de ouvintes cuidadosos.
A cortina ainda bate, rala, no hospital de Santa Teresa, e o chiado do rádio permanece. Fica o canto. E a noite, demorada, aprende de memória o que não quer esquecer.

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