CULTURA

Curta-documentário de Val Costa enfoca identidades do Amapá e Pará por meio da música

Mais que música, uma simbiose de resistência: o novo documentário de Val Costa mergulha na ancestralidade amazônica

A cultura popular em movimento: projeto conecta saberes do Amapá e do Pará através do registro audiovisual — Foto: Divulgação


Sob o calor úmido de uma tarde de sexta-feira, 6 de fevereiro, o pátio do Colégio COC Macapá Norte transformou-se em um epicentro de resistência e celebração da memória amazônica. O lançamento do curta-documentário “Afro Conexão – Encontro dos Patrimônios: Carimbó e Marabaixo”, dirigido por Val Costa, não foi apenas a exibição de um registro audiovisual, mas o fechamento de um ciclo de intercâmbio que costura, através do couro do tambor, as identidades do Amapá e do Pará. O projeto, que nasceu no rastro das festividades da Consciência Negra de 2025, consolida-se agora como um documento essencial sobre a salvaguarda de saberes que, embora centenários, lutam diariamente contra o apagamento sistemático das culturas periféricas da Região Norte.


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O filme é o desdobramento de uma jornada iniciada em novembro do ano passado, durante o tradicional Encontro dos Tambores. Naquele momento, oficinas e workshops serviram como laboratório para um diálogo inédito entre o marabaixo amapaense e o carimbó paraense. O que se viu na tela do colégio macapaense foi a síntese dessa experiência: uma narrativa que foge do didatismo frio para abraçar a pulsação do território. A obra registra o encontro de mestres e aprendizes, em uma dinâmica onde a ancestralidade é tratada não como um artefato de museu, mas como uma tecnologia viva de sobrevivência e afirmação social.

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A produção, assinada por Andreia Lopes, da Arte da Pleta, enfatiza o caráter político da iniciativa ao direcionar suas ações para grupos em situação de vulnerabilidade. Segundo a produtora, o “Afro Conexão” operou como um espaço de formação que transcendeu as barreiras acadêmicas, unindo desde estudantes do ensino fundamental até detentores de saberes tradicionais com formação superior. “O projeto atua como espaço de transmissão de conhecimentos ancestrais, envolvendo lideranças comunitárias e artistas em um fluxo de saberes que ignora hierarquias formais”, pontua Lopes, reforçando que a cultura popular é, antes de tudo, uma ferramenta de educação não formal e de coesão comunitária.

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A estética do documentário, entremeada por depoimentos e cenas de oficinas ministradas por Val Costa, reflete a complexidade desse “corpo-território” amazônico. A presença do ator e cantor Tom Rodrigues, vindo do projeto “Circula o Carimbó Rio Belém Macapá”, trouxe ao curta uma camada extra de regionalidade, evidenciando que as fronteiras entre os estados vizinhos são porosas quando o assunto é o batuque. O diálogo intercultural estabelecido em cena mostra que, apesar das particularidades rítmicas — a cadência mais arrastada do marabaixo em contraste com o giro vibrante do carimbó —, ambos compartilham a mesma espinha dorsal: a herança diaspórica africana que moldou a identidade da Amazônia atlântica e fluvial.


Financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), através do Governo Federal, o projeto “Afro Conexão” surge em um momento estratégico de retomada das políticas públicas de fomento. Ao documentar esses encontros, Val Costa e sua equipe garantem que a memória imaterial do Brasil não se perca no tempo. O filme, portanto, não é um ponto final, mas um convite à reflexão sobre como as novas gerações receberão esse bastão. Ao final da exibição, o silêncio que precedeu os aplausos no COC Macapá Norte indicava que a mensagem da ancestralidade havia encontrado seu alvo. Em um tempo de conexões digitais efêmeras, o “Afro Conexão” provou que as conexões de pele e tambor ainda são as que mais profundamente ressoam na alma do Norte brasileiro.

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