LITERATURA

“A Bomba” revela a visão crítica de Zinn sobre o uso de armas atômicas em Hiroshima e Nagasaki

O historiador Howard Zinn em Nova York, 2008. Ativista e autor de “A Bomba”, Zinn dedicou a vida a humanizar a história, questionando o silêncio social diante das atrocidades das guerras — Foto: Marc Dalio / Reprodução


A memória do historiador Howard Zinn, um dos mais importantes intelectuais públicos dos Estados Unidos, ganhou novo fôlego no Brasil com o lançamento de A Bomba (Mundaréu/Selo Manjuba, 2023), obra em que o autor utiliza sua própria experiência como soldado na Segunda Guerra Mundial para desmontar a legitimidade moral dos ataques aéreos contra civis.
Traduzido por Bruno Cobalchini Mattos, o livro reúne ensaios escritos pouco antes da morte de Zinn, em 2010, nos quais ele confronta a narrativa oficial de que o uso de armas atômicas em Hiroshima e Nagasaki foi um “mal necessário”. Ao unir o rigor documental à confissão pessoal, Zinn revela como o distanciamento físico proporcionado pela tecnologia bélica moderna permitiu o distanciamento moral necessário para que sociedades democráticas aceitassem o extermínio em massa como estratégia política.


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Ilha de Tinian, agosto de 1945. A bomba atômica Little Boy, em um suporte de reboque, sendo içada para o compartimento de bombas do bombardeiro Boeing B-29 Superfortress Enola Gay — Foto: U.S. National Archives / Reprodução

Longe do academicismo frio, o texto de Zinn pulsa com a urgência de quem esteve no cockpit de um bombardeiro B-17. O autor não se coloca no pedestal da superioridade ética; ao contrário, ele parte de sua própria “ignorância feliz” de 1945. Naquela época, o jovem artilheiro Zinn celebrava o clarão sobre o solo japonês sob a ilusão de que aquelas bombas eram o passaporte para o fim da guerra e o seu retorno para casa. Essa desumanização do inimigo, mediada por mapas e abstrações de altitude, é o ponto de partida para uma reflexão dolorosa sobre como a guerra moderna transforma pessoas comuns em engrenagens de um terrorismo de Estado.

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O coração da obra reside no ensaio “Hiroshima: Quebrando o silêncio”. Nele, Zinn faz um movimento de câmera radical: ele desce das nuvens e caminha entre as vítimas. Ao resgatar os relatos de sobreviventes e dados médicos de mutilações por radiação, o autor insiste que a estatística — os 140 mil mortos em Hiroshima — é uma forma de ocultamento. Para Zinn, o horror só se torna real quando é individualizado, quando a pele queimada de uma criança substitui a cifra fria nos relatórios do Pentágono.

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A tese central de Zinn é provocativa e amparada por uma vasta historiografia: a bomba não era necessária para encerrar o conflito. O autor mobiliza documentos que provam que o Japão já estava militarmente derrotado e buscava termos de rendição. A insistência dos Estados Unidos na “rendição incondicional” e o uso do artefato nuclear seriam, na visão de Zinn e de cientistas como P. M. S. Blackett, menos um ato final da Segunda Guerra e mais o gesto inaugural da Guerra Fria — uma demonstração de força dirigida à União Soviética, usando civis japoneses como figurantes descartáveis.

Zinn sugere que a bomba atômica foi a intensificação da prática de ataque deliberado a civis, atitude já legitimada pelas ações anteriores, e não uma ruptura civilizacional

No segundo ensaio, “O Bombardeio de Royan”, Zinn mergulha em sua própria biografia para analisar o ataque a um balneário francês semanas antes do armistício europeu. Foi ali que o napalm foi testado pela primeira vez na história, e Zinn estava em um dos aviões que despejaram a substância incendiária sobre a cidade. Através de pesquisas posteriores, ele descobriu que o ataque não possuía relevância estratégica. O bombardeio de Royan serve como prova de que Hiroshima não foi uma “ruptura civilizacional”, mas sim a intensificação de uma prática de ataque deliberado a civis já legitimada pelos bombardeios a Tóquio e às cidades alemãs.

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A leitura de A Bomba em 2026 torna-se inevitavelmente comparativa. É impossível não traçar paralelos entre a lógica de Zinn e os conflitos contemporâneos, como as ofensivas militares na Faixa de Gaza. O padrão se repete: uma brutalidade inicial cria um clima de legitimidade moral inquestionável, onde operações de larga escala em áreas densamente povoadas são defendidas como “inevitáveis” para a segurança nacional. Zinn nos lembra que a retórica da “necessidade” é o escudo preferido de quem detém o poder tecnológico.

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Ao longo de toda a obra, Zinn coloca uma questão que ecoa nas intervenções estadunidenses na Coreia, no Vietnã e no Iraque: existe alguma necessidade estratégico-política capaz de justificar o horror imposto a centenas de milhares de seres humanos? Para o autor, a resposta negativa é a única forma de nos libertarmos do pensamento que nos paralisa enquanto atrocidades são cometidas em nosso nome.


O legado de Zinn em A Bomba não é apenas um registro histórico, mas um alerta sobre a facilidade com que a barbárie é normalizada pelo silêncio dos bons. Para ele, o maior perigo não reside apenas no líder que ordena o massacre, mas em uma sociedade que, protegida pelo distanciamento físico e moral, aceita a desumanização do “outro” como o preço aceitável de uma paz ilusória.

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