Macapá (AP) — Domingo, 01 de março de 2026
A voz do povo em risco
O Amapá assiste a uma “limpeza” necessária: ou a Justiça ficou mais rígida, ou os políticos ficaram mal acostumados com a sensação de impunidade

A democracia deveria ser o momento em que a nossa voz, como cidadãos, decide o rumo do Amapá. É o contrato de confiança mais sagrado que existe: nós escolhemos, e eles trabalham por nós, dentro da lei. Mas, olhando para o que tem acontecido na política do nosso estado nos últimos anos, parece que esse contrato virou apenas um detalhe burocrático para alguns. O que vemos hoje é um cenário de “limpeza” forçada. De um lado, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AP) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estão puxando o freio de mão; de outro, parlamentares que parecem ter esquecido que o poder tem limites. Diante de tantas cassações, fica a dúvida: a justiça ficou finalmente mais rígida ou os nossos políticos ficaram tão acostumados com a impunidade que se tornaram descuidados?
O Amapá não é laboratório para testes de ética, mas os casos recentes servem como uma lição amarga. O exemplo mais comentado envolve um nome de peso, alguém que já sentou na cadeira de presidente da nossa Assembleia Legislativa. Ver um político desse calibre perder o mandato após decisão do TSE, ser multado e ainda ver sua ex-esposa passar pelo mesmo processo de cassação na Câmara Federal, não é apenas um fato jurídico; é o retrato de um modelo de política “em família” que ruiu. Quando a Justiça Eleitoral corta esses mandatos, ela está dizendo que a eleição não pode ser um jogo de quem tem o bolso mais cheio ou a máquina pública na mão. Ganhar “na marra” ou pelo caminho torto tem um preço que, finalmente, está sendo cobrado.
Essa onda de punições, que já tirou de cena diversos parlamentares e os deixou inelegíveis por oito anos, mexe com a estrutura do nosso estado. É positivo ver a justiça agir como um sistema de defesa da sociedade, tentando expulsar o que há de “podre” na nossa representação. Mas, ao mesmo tempo, é triste perceber que o desejo de ocupar uma vaga em Macapá ou em Brasília, para alguns, não tem nada a ver com servir ao povo. Para essas pessoas, a candidatura é tratada como um investimento financeiro: gasta-se hoje para lucrar amanhã com privilégios, contratos e enriquecimento ilícito. É o mandato usado como balcão de negócios, onde o patrimônio pessoal cresce enquanto a esperança da população diminui.
O que mais assusta é a desconexão desses políticos com a realidade. Enquanto a Justiça se modernizou, usa cruzamento de dados e fiscaliza em tempo real, parte da nossa elite política parou no tempo. Eles ainda apostam naquela velha ideia de que “no final tudo acaba em pizza”. Essa confiança cega na impunidade gera um desleixo quase arrogante. Eles deixam rastros porque acreditam que são intocáveis. Só que o martelo está batendo, e o custo disso para o Amapá é alto demais: mandatos interrompidos, substituições constantes e uma instabilidade que trava o desenvolvimento do nosso estado.
No fim das contas, a pergunta que fica na mesa de cada amapaense é: será que essas punições vão mudar o comportamento nas próximas eleições? A verdadeira vitória da lei não será contar quantos mandatos foram cassados, mas sim chegar ao dia em que ninguém tente trapacear para vencer. Precisamos de gente que honre o voto, que tenha orgulho de subir na tribuna e não medo de aparecer nas páginas policiais. Esse processo de limpeza é doloroso e demora, mas é o único caminho para que a nossa democracia deixe de ser uma fachada e passe a ser, de fato, o governo do povo, pelo povo e para o povo. No Amapá, o dinheiro não pode mais calar a consciência.

