OPINIÃO

De saldo bilionário a rombo histórico

O diagnóstico de prefeitura fragilizada esconde a realidade de uma gestão que dilapidou recursos públicos e paralisou obras em Macapá

A gestão pública, em sua essência mais nobre, deveria ser um exercício de continuidade e zelo pelo bem comum, mas o que se descortina hoje em Macapá é o retrato de um estelionato administrativo que ultrapassa a barreira do aceitável. Quando o prefeito interino Pedro DaLua utilizou uma entrevista coletiva para classificar a prefeitura como “fragilizada”, ele não apenas proferiu um diagnóstico brando, mas cometeu uma generosidade retórica que agride a realidade dos fatos. O que se encontra nos corredores do Palácio Laurindo Banha não é uma fragilidade passageira ou uma anemia institucional comum em trocas de comando; é um cenário de terra arrasada, fruto de uma condução política que trocou o planejamento fiscal pelo populismo de fachada e a responsabilidade administrativa por práticas que agora estão sob o rigoroso crivo do Supremo Tribunal Federal.
Para compreender a magnitude do desastre, é preciso fazer um exercício de memória e honestidade numérica. Em janeiro de 2021, as chaves da cidade foram entregues a Antônio Furlan com um conforto financeiro raramente visto na história amapaense. O antecessor, Clécio Luís, deixou em caixa cerca de R$ 1,2 bilhão, valor que incluía convênios robustos, verbas carimbadas para infraestrutura e um superávit que garantia salários rigorosamente em dia. Era o cenário ideal para qualquer gestor: a mesa estava posta, os recursos garantidos e os projetos, como a nova orla, possuíam lastro financeiro para sair do papel sem sobressaltos. Entretanto, o que ocorreu nos quatro anos seguintes foi uma dilapidação sistemática desse patrimônio, uma metamorfose perversa que transformou abundância em escassez e esperança em insolvência.
O termo “fragilizada” soa como um eufemismo quase ofensivo diante dos relatórios da Secretaria do Tesouro Nacional (STN). Ver uma gestão que herdou bilhões acumular um rombo superior a R$ 300 milhões em tão pouco tempo não é um acidente de percurso; é o resultado de escolhas deliberadas, de medidas perdulárias e de uma fome arrecadatória que não se traduziu em benefícios reais para a população. Quando as obras do Marabaixo 3 param e as máquinas silenciam, não é apenas o asfalto que deixa de chegar; é a dignidade do morador que é soterrada pela má gestão. O impacto humano dessa debacle financeira é incomensurável, especialmente quando olhamos para os milhares de trabalhadores terceirizados que, vítimas de contratos atrasados, tornaram-se os fiadores involuntários de uma prefeitura que perdeu a capacidade de honrar seus compromissos mais básicos.
As suspeitas de malversação, peculato e corrupção que culminaram no afastamento de Furlan pelo ministro Flávio Dino não são meras ilações políticas, mas o desfecho previsível de uma administração que se perdeu em esquemas e prioridades invertidas. A tentativa desesperada de contrair um empréstimo de R$ 200 milhões no apagar das luzes de 2024, com o aval complacente da Câmara de Vereadores sob a batuta de Marcelo Dias, foi o último suspiro de um modelo falido. Alegar urgência por falta de caixa próprio após ter recebido um montante bilionário é uma confissão de culpa que deveria envergonhar qualquer homem público. O dinheiro público, ao que parece, foi tratado como um recurso infinito para sustentar uma engrenagem que priorizou tudo, menos o cidadão que paga seus impostos.
É imperativo que a sociedade macapaense não se deixe seduzir pela moderação das palavras do prefeito interino. O momento exige clareza e transparência total. Não basta dizer que a prefeitura está em uma situação “delicada”; é preciso expor as vísceras desse rombo, apontar onde cada centavo foi desperdiçado e garantir que os responsáveis pela destruição das finanças municipais respondam por seus atos. A transição forçada pelo Judiciário é uma oportunidade amarga, porém necessária, para que Macapá interrompa esse ciclo de predação. A reconstrução da capital exigirá mais do que novos empréstimos ou paliativos; demandará um choque de gestão ética e uma auditoria profunda que revele o tamanho exato do abismo deixado pela administração de Antônio Furlan.
A história será severa com este período. De uma gestão que recebeu as finanças arrumadas e um horizonte de progresso, Macapá regrediu para um estado de paralisia e descrédito institucional. O povo, que hoje sofre com serviços públicos precarizados e canteiros de obras abandonados, merece mais do que silêncios estratégicos ou adjetivos suaves. O editorial desta tragédia administrativa ainda está sendo escrito, mas a conclusão é óbvia: não se trata de fragilidade, mas de uma traição administrativa que deixou a capital amapaense de joelhos diante do descaso e da corrupção. É hora de levantar a cidade, mas primeiro, é preciso encarar a verdade nua e crua do desastre que foi permitido acontecer sob os olhos de todos.

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