OPINIÃO

Crise política exige rigor diante de mega corrupção na PMM

Cenário controverso atual em Macapá revela face perversa do fisiologismo em meio a escândalo de R$ 70 milhões e revanchismo no Executivo

O colapso administrativo que abateu a capital amapaense nos últimos dias não é apenas um episódio de instabilidade política, mas um sintoma agudo de uma patologia que insiste em corroer as instituições públicas: a confusão entre o patrimônio estatal e os projetos de poder pessoal. A renúncia de Antônio Furlan (PSD), acossado por investigações da Polícia Federal que apontam um esquema de corrupção em obras hospitalares de R$ 70 milhões, deixa Macapá em um vácuo de autoridade que dificilmente será preenchido apenas com a burocracia das posses interinas. O que se vê, em vez de um movimento de autocorreção ética, é uma reação em cadeia de expurgos e revanchismos que coloca em xeque a continuidade de serviços essenciais à população.
A queda de um prefeito sob suspeita de desviar recursos destinados à saúde pública — em um projeto de envergadura como o Hospital Municipal — carrega um simbolismo cruel. Em uma região onde os gargalos assistenciais são históricos, o suposto desvio de dezenas de milhões de reais não é apenas um crime financeiro; é um atentado contra a dignidade de quem depende do SUS. A determinação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, ao afastar o gestor, não foi um ato de interferência arbitrária, mas uma medida de profilaxia necessária diante de indícios que, se confirmados, revelam um pragmatismo criminoso encastelado no Palácio Laurindo Banha.
Entretanto, a ascensão de Pedro DaLua (União) ao cargo de prefeito interino trouxe consigo um novo componente de instabilidade. Ao promover uma demissão em massa em pastas nevrálgicas como as de Obras, Finanças e Saúde, o novo gestor parece ter optado pelo “método do trator”. Embora a necessidade de oxigenar a administração e afastar nomes sob investigação da PF seja compreensível, o expurgo generalizado de aliados do ex-prefeito soa mais como um acerto de contas político do que como um plano de saneamento administrativo. A fúria e o “ranger de dentes” observados na Câmara Municipal de Macapá e nos corredores das secretarias indicam que a transição está longe de ser um processo de pacificação.
O risco imediato dessa convulsão é a paralisia da máquina pública. Secretarias como a SEMOB e a SEMSA não podem ser tratadas como espólios de guerra em meio a uma crise de confiança. Quando o titular de uma pasta de Finanças é exonerado sem que haja uma transição técnica mínima, o impacto é sentido na ponta: fornecedores deixam de ser pagos, convênios estagnam e o servidor público torna-se refém da incerteza. Macapá não pode se dar ao luxo de interromper o fluxo de sua gestão para que novos e antigos grupos políticos meçam forças em uma arena de vaidades. A infraestrutura administrativa da prefeitura, já fragilizada pelo escândalo, corre o risco de sofrer um apagão gerencial.
Além disso, a reação da bancada governista na Câmara Municipal revela o quão profundas são as raízes do fisiologismo na capital. A resistência ao expurgo promovido por DaLua não parece motivada por uma defesa da eficiência técnica, mas pelo temor da perda de espaços de influência. É um espetáculo deprimente onde os interesses da municipalidade ficam em segundo plano, enquanto os atores políticos se digladiam pela manutenção de cargos que, por definição, deveriam servir ao cidadão, e não ao partido. A renúncia de Furlan deveria ser o ponto de partida para uma reflexão profunda sobre os métodos de governança adotados nos últimos anos, e não o estopim para uma nova rodada de clientelismo.
É imperativo que as instituições de controle, como o Ministério Público e o Tribunal de Contas, mantenham uma vigilância rigorosa sobre este período de interinidade. Não se combate a corrupção de um lado permitindo o arbítrio político do outro. A transparência nas novas nomeações e a garantia de que as investigações da Polícia Federal seguirão sem obstruções são as únicas formas de devolver alguma credibilidade à prefeitura. O “mega esquema” investigado precisa ser dissecado até que se identifiquem todos os beneficiários do desvio de recursos do hospital, independentemente de estarem no governo que saiu ou no que acaba de entrar.
Macapá vive hoje um cenário de terra arrasada. A renúncia de um prefeito é sempre um trauma institucional, mas quando ela ocorre sob o peso de algemas virtuais da PF, o dano é reputacional e moral. O que a sociedade espera de Pedro DaLua não é a demonstração de força por meio de canetadas justiceiras, mas a capacidade de manter a cidade funcionando enquanto a Justiça faz o seu trabalho. A política não pode ser um jogo de soma zero onde a população é sempre quem perde. Se o expurgo na prefeitura for apenas uma troca de guarda de grupos políticos interessados no mesmo orçamento, a renúncia de Furlan terá sido apenas a troca de uma crise por outra.

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