O silêncio que prejudica o eleitor
Suspeitas de desvio de recursos públicos e irregularidades na saúde exigem respostas firmes, provando que liderar a corrida eleitoral não substitui a obrigação de prestar contas à sociedade amapaense

Em qualquer disputa democrática, a campanha eleitoral não deveria ser tratada apenas como um jogo de tabuleiro em que se movem peças para evitar riscos, mas sim como um espaço de diálogo direto e transparente com a sociedade. A recente decisão do candidato ao governo do Amapá, Antônio Furlan (PSD), de faltar às sabatinas da Diário FM e da CBN na quarta-feira (23), sob a justificativa de conflito de agenda, traz à tona um debate antigo, porém sempre urgente: até que ponto a estratégia de marketing de um candidato pode se sobrepor ao direito sagrado do eleitor de obter respostas?

Essas ausências não ocorreram no vácuo. Elas se deram logo após a participação de Furlan na Rede Amazônica, ocasião em que sua gestão à frente da Prefeitura de Macapá e a própria situação de sua candidatura foram postas sob escrutínio. Líder na pesquisa Quaest de agosto, divulgada pela Folha de S.Paulo, o ex-prefeito parece estar aplicando um manual de sobrevivência política bastante conhecido nos gabinetes de campanha: quando se está na frente, o objetivo principal deixa de ser convencer e passa a ser proteger a vantagem conquistada, recolhendo as velas para evitar qualquer vento contrário.
“Quando um postulante ao governo opta por se esquivar de sabatinas, a consequência é um déficit de informação para o cidadão, que chega à votação com menos elementos críticos para avaliar o futuro do Amapá.”


Essa lógica do silêncio estratégico é amplamente destrinchada por especialistas em comunicação e ciência política. Como bem apontou o cientista político Rodrigo Prando em entrevista à Deutsche Welle, candidatos que lideram as pesquisas muitas vezes calculam que o risco de uma exposição prolongada é consideravelmente maior do que o benefício potencial. Afinal, no ecossistema digital e polarizado de hoje, um tropeço verbal ou uma resposta titubeante pode render dias de repercussão negativa nas redes sociais, ao passo que uma boa performance em uma sabatina nem sempre se traduz de forma automática em novos votos nas urnas.
“A Polícia Federal investiga suspeitas de irregularidades no Hospital Municipal e desvio de recursos públicos, apontamentos graves que colocam sob escrutínio o uso de dinheiro da saúde para finalidade eleitoral.”
Contudo, por mais que esse cálculo faça sentido do ponto de vista estritamente técnico ou marqueteiro, ele cobra um preço alto da democracia local. Quando um postulante ao Palácio do Setentrião opta por se esquivar de entrevistas e sabatinas, a consequência prática é imediata e nociva: reduzem-se drasticamente as oportunidades para que ele confronte sua versão dos fatos com questionamentos independentes, incômodos e necessários. A proteção do candidato contra desgastes políticos acaba gerando um déficit de informação para o cidadão, que chega ao momento da votação com menos elementos críticos para avaliar quem de fato merece gerir o futuro do estado do Amapá.

O cenário exige ainda mais cautela e transparência quando olhamos para os temas que rondam o debate público atual. Conforme veiculado pela imprensa nacional, a Polícia Federal investiga suspeitas de irregularidades em obras de grande relevância, como a do Hospital Municipal, além de apurar um suposto desvio de R$ 25 milhões que teriam sido direcionados para financiar uma rede de promoção política e ataques a adversários. A gravidade desses apontamentos reside justamente na potencial utilização de recursos públicos — especialmente em uma área tão sensível quanto a saúde — para fins político-eleitorais.

É fundamental ressaltar, por uma questão elementar de justiça e respeito aos fatos, que suspeitas em curso não equivalem a culpa comprovada. O devido processo legal existe justamente para apurar responsabilidades com base em provas sólidas. Em nota publicada pelo UOL em maio, o próprio Furlan negou veementemente qualquer prática ilegal ou envolvimento com estruturas de milícia digital. Essa defesa é um direito legítimo e precisa ser devidamente registrada e considerada por qualquer observador atento.

No entanto, a negativa pública de irregularidades, embora necessária, não pode ser tratada como um ponto final que encerra o assunto. Liderar as preferências do eleitorado nas pesquisas quantitativas pode até explicar a cautela tática da campanha e o recuo diante dos microfones, mas jamais substituirá a obrigação intransigível de prestar contas à sociedade. Governar um estado como o Amapá exige coragem para enfrentar crises, firmeza para administrar divergências e, acima de tudo, disposição irrestrita para encarar perguntas difíceis. O eleitor amapaense, que carrega nos ombros os rumos do nosso estado, merece muito mais do que estratégias de silêncio; merece clareza, verdade e respeito absoluto à sua capacidade de julgar.




