Investigação foca em quadrilhas que introduzem o produto químico ilegal pela fronteira do Amapá para abastecer garimpos clandestinos, gerando graves impactos à saúde e ao meio ambiente na Amazônia
Com o objetivo de sufocar o abastecimento do garimpo ilegal na Amazônia, a Polícia Federal (PF) deflagrou, na terça-feira (2 de junho), a Operação Azougue. A ofensiva mira as redes criminosas que utilizam o Amapá e outros estados do Norte como rota para introduzir clandestinamente o mercúrio vindo da Guiana Francesa. De acordo com as investigações, a interiorização desse metal altamente tóxico é fundamental para a extração irregular de ouro, provocando um rastro de destruição à saúde das comunidades locais e ao meio ambiente.

A nova operação é o desdobramento de uma teia investigativa que ganhou força em abril de 2025, quando os agentes federais realizaram uma apreensão histórica de aproximadamente 50 quilos de mercúrio. Aquela ação inicial acendeu o alerta das autoridades para a consolidação do Amapá como um corredor estratégico e rota internacional do crime ambiental. De lá para cá, o cerco policial contra a mineração clandestina de filão — modalidade que escava profundamente a rocha atrás do minério — vem se estreitando.

Há exatos seis meses, duas operações simultâneas da PF, batizadas de Valedicere e Inexpectatus, avançaram sobre os municípios de Calçoene e Tartarugalzinho, duas das áreas mais impactadas pela atividade clandestina no Amapá. Na ocasião, além da fiscalização rigorosa, equipes policiais destruíram maquinários milionários e focaram no cruzamento de dados para identificar as pessoas jurídicas e empresas de fachada que financiam a logística do ouro ilegal.

Fontes ligadas à investigação apontam que o fluxo do contrabando segue uma logística sofisticada. O mercúrio cruza as fronteiras do extremo norte, entra no Amapá e é escoado rapidamente para o interior do estado e para regiões vizinhas, como a divisa entre Laranjal do Jari e Almeirim, no Pará. “O Amapá não é apenas o destino, mas a porta de entrada de um insumo que alimenta uma cadeia de destruição em toda a Amazônia Legal”, afirmou um delegado da PF envolvido nas investigações, sob condição de anonimato. De acordo com ele, a desarticulação dessas infraestruturas milionárias é o caminho mais eficaz para inviabilizar o garimpo na floresta.

O uso do mercúrio na atividade garimpeira é considerado um dos piores pesadelos ambientais da atualidade. Utilizado para separar o ouro da terra e da areia, o metal pesado é despejado sem qualquer controle na natureza. O resultado é a contaminação em massa de rios e solos, que entra diretamente na cadeia alimentar através dos peixes, afetando de forma severa e irreversível a saúde de comunidades ribeirinhas e povos indígenas que dependem desses recursos para sobreviver.

Para fazer frente ao poder financeiro dessas organizações, a PF tem atuado em conjunto com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). As investidas recentes na calha dos rios amapaenses, amazoneneses e paraenses têm priorizado o estrangulamento econômico dos garimpos, queimando escavadeiras hidráulicas, geradores e motores, além de confiscar os carregamentos do produto químico antes que cheguem aos locais de extração.

Embora o foco atual esteja concentrado nas conexões transfronteiriças do Amapá, os investigadores reforçam que o contrabando de mercúrio é um problema sistêmico que atinge toda a Amazônia Legal. A Operação Azougue tenta mapear os destinatários finais desse comércio invisível, que muitas vezes envolve o crime organizado e a lavagem de dinheiro em centros urbanos fora da região Norte.

A participação da população tem sido apontada pelas forças de segurança como uma ferramenta valiosa no mapeamento dessas atividades clandestinas em áreas de difícil acesso na floresta. A PF ressalta que qualquer informação que ajude a identificar pistas de pouso clandestinas, portos de escoamento, rotas de transporte de mercúrio ou acampamentos de garimpo pode ser repassada de forma totalmente anônima e segura por meio do canal Comunica PF, disponível na internet.

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