Após gravar vídeo com dados falsos, pré-candidato Antônio Furlan é desmentido por mineradora

Depois do desmentido oficial publicado pela mineradora, Antônio Furlan enfrenta forte desgaste político e potenciais processos na Justiça por propagar dados incorretos sobre geração de empregos no território do Amapá



O pré-candidato ao Governo do Amapá Antônio Furlan (PSD) gerou uma crise política e jurídica no estado ao ser desmentido publicamente pela DEV Mineração na terça-feira (14). Furlan publicou em suas redes sociais um vídeo gravado nas instalações da mineradora, no município de Santana, projetando dados inflados de emprego e produção que foram prontamente contestados pela própria companhia. A tentativa do ex-prefeito de Macapá de transformar uma visita técnica em palanque eleitoral acabou por expor os riscos de sua estratégia de pré-campanha ao violar diretrizes corporativas de neutralidade e apresentar dados classificados pela empresa como incorretos e fantasiosos.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

O episódio joga luz sobre os limites éticos e legais da pré-campanha eleitoral em um cenário de forte vigilância das plataformas digitais e de compliance das grandes corporações. No material gravado, Furlan prometia a criação de 5.000 postos de trabalho e uma produção anual de 6 milhões de toneladas de minério, além de afirmar que o processo de licenciamento ambiental do empreendimento esteve paralisado por quase cinco anos por inércia do governo estadual. A presença de uma funcionária da empresa nas imagens foi utilizada de forma calculada para conferir um aspecto de aval oficial e institucional ao discurso do político.

A reação da DEV Mineração, contudo, desidratou a narrativa construída pelo pré-candidato. Em comunicado oficial enviado à imprensa, a mineradora esclareceu que o projeto prevê, na verdade, cerca de 2.500 empregos diretos e indiretos quando estiver em pleno funcionamento — exatamente a metade do número propagado pelo ex-prefeito. Além disso, o volume de produção anual previsto é de 5,5 milhões de toneladas, e não 6 milhões. A empresa também revelou que a colaboradora exibida no vídeo, Raquel Dalseco, integra a equipe executiva no Brasil, mas não atua como diretora, cargo que lhe foi atribuído erroneamente na gravação de forma deliberada.

A maior contestação técnica, que repercute diretamente no tabuleiro político amapaense, diz respeito ao cronograma de licenciamento do Projeto Amapá, que envolve minas em Pedra Branca do Amapari, ferrovia e o terminal portuário de Santana. A mineradora negou enfaticamente que as licenças estivessem paradas há cinco anos, explicando que os atuais controladores assumiram o projeto apenas em 2022. Desde então, a empresa cumpriu etapas de estudos técnicos e obteve a Licença Prévia em dezembro de 2025 e a Licença de Instalação em abril deste ano, o que atesta o trâmite regular e célere sob responsabilidade do atual governo do estado.

Especialistas jurídicos avaliam que a conduta de Furlan abre espaços graves para contestações em diferentes esferas da Justiça. No âmbito eleitoral, a disseminação de dados sabidamente inverídicos para obtenção de benefícios políticos pode ser enquadrada nas resoluções do Tribunal Superior Eleitoral que combatem a desinformação. Adversários políticos têm o caminho aberto para acionar o Tribunal Regional Eleitoral do Amapá sob alegação de tentativa de obter vantagem indevida por meio de narrativas falsas. Há também o risco de configuração de propaganda antecipada irregular, uma vez que a simulação de apoio de uma multinacional e o uso político de uma área privada caracterizam potencial abuso de poder econômico.

Na esfera civil, a DEV Mineração detém legitimidade para acionar o pré-candidato por uso indevido de imagem e marca. Ao registrar imagens promocionais em propriedade privada sem prévia autorização e associar a marca de forma compulsória a uma plataforma eleitoral partidária, Furlan violou o princípio da neutralidade corporativa amplamente defendido pela mineradora. A empresa reafirmou que mantém rigorosa distância de partidos, campanhas ou candidatos, o que possibilita o pleito judicial pela remoção do vídeo e reparação pecuniária por danos à reputação institucional.

Do ponto de vista puramente político, o episódio revela-se um erro tático de proporções consideráveis para quem almeja o Palácio do Setentrião. Ao tentar desgastar a atual gestão do estado acusando-a de lentidão burocrática, Furlan acabou oferecendo de presente aos seus opositores um documento oficial que atesta a eficiência do governo na concessão das licenças necessárias. A contestação rápida e cirúrgica da DEV desmoraliza o discurso de liderança econômica do ex-prefeito, transformando o que deveria ser uma vitrine de desenvolvimento em um símbolo de açodamento e desinformação eleitoral que exigirá um complexo trabalho de contenção de danos por parte de sua coordenação de pré-campanha.


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