Preocupado com avanço do bolsonarismo, Lula avalia entrar na campanha eleitoral no Amapá em apoio a Clécio

Em conversa no Oiapoque, presidente articula palanque com Davi Alcolumbre para reforçar campanha de Clécio Luís e frear crescimento de Antônio Furlan, que lidera pesquisas e conta com apoio bolsonarista



Em uma conversa reservada na segunda-feira, 17 de agosto, no município de Oiapoque, extremo norte do país, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou a interlocutores de primeira hora sua preocupação com o avanço do bolsonarismo no Amapá e começou a articular sua entrada direta na disputa pelo governo do estado. A movimentação, desenhada ao lado do governador e candidato à reeleição Clécio Luís (União Brasil), do presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União Brasil), e do líder governista Randolfe Rodrigues (PT), tem como objetivo central frear o crescimento eleitoral do ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan (PSD), que mantém a dianteira nas pesquisas de intenção de voto mesmo após ter sido afastado do cargo pelo Supremo Tribunal Federal sob suspeitas de corrupção.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Longe de ser apenas um xadrez palaciano, o embate que se desenha no extremo norte reflete de forma direta o cotidiano dos mais de 730 mil habitantes do estado, que enfrentam gargalos crônicos na saúde, saneamento básico e infraestrutura urbana. A polarização nacional desembarcou em definitivo nas capitais e nos rincões amazônicos quando Furlan formalizou sua chapa tendo como vice a ex-deputada estadual Luciana Gurgel (PL), mulher do deputado federal Vinicius Gurgel. Ambos são aliados incontestes do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal expoente da oposição ao Palácio do Planalto. A aliança consolidou o palanque da direita no estado e acendeu o alerta máximo na cúpula do governo federal.

Nos bastidores de Brasília e de Macapá, a costura para engajar o chefe do Executivo na campanha de Clécio Luís coincide com a recente repactuação política entre Lula e Davi Alcolumbre, após meses de tensões e distanciamento decorrentes de votações e indicações no Congresso. A estratégia em debate avalia desde a gravação de depoimentos e participações do presidente em peças do horário eleitoral gratuito até uma visita oficial de Lula em solo amapaense antes da ida às urnas. Para o Planalto, assegurar a manutenção de um aliado no comando do Palácio do Setentrião é peça-chave para garantir estabilidade parlamentar e conter a expansão de bases oposicionistas na Região Norte.

Do outro lado, a candidatura de Antônio Furlan navega em meio a um histórico de forte turbulência jurídica e administrativa. O ex-prefeito foi afastado do comando de Macapá em março por determinação do ministro Flávio Dino, do STF, no âmbito de inquéritos da Polícia Federal que apuram desvios de recursos públicos e fraudes em contratos da administração municipal. Documentos e relatórios de órgãos de controle indicam inconsistências na aplicação de verbas que deveriam ter sido destinadas à construção do hospital público municipal, à zeladoria urbana e a postos de atendimento básico. Apesar do desgaste institucional provocado pelas denúncias, a liderança de Furlan nas sondagens eleitorais decorre de seu recall político e de uma retórica de confronto às estruturas tradicionais de poder, que encontrou forte ressonância no eleitorado conservador amapaense.

Analistas e cientistas políticos avaliam que o Amapá transformou-se em um microcosmo da fratura que divide o país. Especialistas apontam que a entrada direta de Lula na arena amapaense representa uma aposta de alto risco e elevado valor simbólico: se por um lado é capaz de transferir prestígio e alavancar os índices de Clécio Luís ao mobilizar a base progressista, por outro tende a nacionalizar o debate em definitivo, estimulando a coesão do voto antipetista em torno da chapa Furlan-Gurgel.

Na ponta do processo, moradores e comerciantes locais expressam apreensão com a instabilidade gerada pelos escândalos e pelas trocas de comando. Para quem depende do funcionamento regular dos serviços públicos nas periferias da capital e nas comunidades ribeirinhas, a judicialização e a disputa entre grupos políticos têm travado investimentos essenciais e gerado descontinuidade nas políticas públicas. O receio da população é que o debate sobre os problemas reais do Amapá — como o custo de vida, a geração de empregos e a logística de transporte — acabe soterrado pela guerra de narrativas ideológicas.

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Embora o anúncio oficial da participação de Lula ainda dependa de acertos finais de agenda e formato de comunicação, a conversa em Oiapoque já redefiniu os rumos da corrida eleitoral. Historicamente visto como um colégio eleitoral de menor peso demográfico, o Amapá passa a ocupar o centro das atenções da política nacional, tornando-se um dos palcos mais emblemáticos do confronto entre os projetos de poder que disputam o futuro do país.


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