Sob sombra de apuração policial sobre desvios milionários, Rayssa Furlan coleciona faltas em entrevistas

À frente na corrida eleitoral, postulante repete tática de 2022, cancela idas a estúdios e prioriza eventos controlados para conter desgaste com apuração policial sobre desvios na saúde em Macapá



Líder na disputa por uma vaga ao Senado pelo Amapá, a candidata Rayssa Furlan (Podemos) vem adotando uma rotina sistemática de faltas a sabatinas e entrevistas ao vivo nos principais veículos de imprensa do estado desde o final de agosto, numa articulação de bastidores desenhada para blindá-la de questionamentos incômodos sobre a Operação Paroxismo, apuração da Polícia Federal que investiga supostos desvios milionários e alcança negócios de sua família.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Emanoel Reis, Macapá – AP

Com 27% das intenções de voto no levantamento divulgado pela Quaest no mês passado — à frente de nomes consolidados da política local, como os senadores Randolfe Rodrigues (19%) e Lucas Barreto (18%) —, a postulante preferiu o silêncio do estúdio ao teste do microfone aberto. Nas últimas semanas, ao menos quatro emissoras e grupos de comunicação locais registraram o cancelamento ou a ausência sem explicações da postulante. Em agosto, a Band Macapá viu esvaziada a data reservada para sabatinar a líder da corrida. Dias depois, em 24 de agosto, sorteada para abrir a rodada de sabatinas do Diário FM, a candidata não apareceu, tampouco enviou representantes para as reuniões técnicas que estabeleceram as regras das transmissões.

A rotina de cancelamentos atingiu o ápice na primeira semana de setembro. Na manhã de 4 de setembro, Rayssa deixou vazia a cadeira reservada no telejornal matutino Bom Dia Amapá, da TV Amapá, afiliada da Rede Amazônica. Na ocasião, a equipe de campanha justificou o desfalque sob o argumento vago de sobreposição de “compromissos de campanha”. Poucas horas depois, no entanto, a candidata repetiu a falta na sabatina conjunta promovida pela emissora de televisão e pela rádio da TV Equinócio, retransmissora da Record, deixando o espaço reservado à oitiva completamente vazio e sem fornecer explicações públicas imediatas.

Nos bastidores da campanha, a postura reflete uma decisão calculada. De acordo com informações apuradas pelo Portal Diário da Gente com integrantes do comitê eleitoral, a orientação interna é de que a candidata não compareça a debates públicos nem participe de entrevistas ao vivo até o dia da votação. O motivo principal, segundo interlocutores, é evitar o confronto direto com perguntas não combinadas sobre os desdobramentos da investigação federal que atingiu em cheio o núcleo político e familiar de Rayssa. Oficialmente, a candidata ainda não confirmou nem comentou essa diretriz.

O fantasma que ronda a candidatura atende pelo nome de Operação Paroxismo. A PF apura esquemas de fraudes licitatórias, desvio de dinheiro público e lavagem de capitais nas obras do Hospital Municipal de Macapá. Em relatórios anexados ao inquérito, investigadores identificaram depósitos bancários fracionados que somam mais de R$ 3 milhões, direcionados a contas de pessoas jurídicas ligadas ao ex-prefeito da capital Antônio Furlan e à própria candidata, como a empresa RCFS Médicos Ltda. O escândalo precipitou um terremoto na gestão municipal: Furlan foi afastado do cargo por ordem judicial e renunciou logo no dia seguinte, ao passo que o Supremo Tribunal Federal autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal dos envolvidos.

Embora o inquérito permaneça em curso e sem sentença condenatória contra a candidata, a falta de explicações detalhadas sobre as movimentações financeiras apontadas pela polícia torna a sabatina de imprensa um terreno hostil para a campanha. Diferentemente de caminhadas em bairros periféricos, reuniões com militantes ou postagens nas redes sociais — palcos onde assessores controlam roteiro, edição de imagens, iluminação e duração das falas —, transmissões abertas e debates expõem os concorrentes a indagações sobre projetos institucionais, coerência política e eventuais embaraços criminais.

A escolha pelo recuo não é inédita na trajetória eleitoral de Rayssa. Em 2022, quando também disputou uma vaga no Senado, a médica já havia fugido do modelo tradicional de sabatinas. À época, um levantamento do Portal Seles Nafes mapeou sua recusa em comparecer a estúdios de ao menos seis emissoras, entre elas a Rádio CBN, o portal G1 e a TV Amapá, episódio em que sua assessoria preferiu desqualificar veículos alegando suposta parcialidade na cobertura.

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O próximo grande teste da postura da candidata está agendado para o dia 25 de setembro, data em que a Rede Amazônica promove o primeiro debate televisivo com os postulantes ao Congresso. Rayssa preenche todos os requisitos legais para participar, mas aliados já sinalizam que a cadeira da líder poderá amanhecer desocupada. Procurada para detalhar as razões das ausências e esclarecer o impacto das investigações em sua agenda pública, a candidata ainda não se manifestou. O espaço segue aberto.


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