Com início das transmissões em rede nacional, candidatos apostam em alianças e produções robustas na TV para conquistar o público desiludido com a polarização, em um cenário onde meios tradicionais ainda superam o alcance das redes sociais pelo país
Em meio a uma corrida presidencial dominada pela intensidade dos embates digitais e pelo avanço de ferramentas de inteligência artificial, os candidatos ao Palácio do Planalto iniciaram na sexta-feira (28) a veiculação do horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão em todo o país. A propaganda obrigatória, que se estenderá por 35 dias até 1º de outubro, entra no ar cercada de ceticismo sobre sua eficácia, mas especialistas apontam que o modelo tradicional segue decisivo para apresentar nomes, romper bolhas e conquistar a fatia de indecisos que pode definir o primeiro turno marcado para 4 de outubro.


A abertura da transmissão consolida uma vantagem estratégica para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição e lidera as pesquisas de intenção de voto. O petista contará com 5 minutos e 31 segundos em cada bloco diário, fruto de uma ampla aliança que reúne PCdoB, PV, PDT, PSB, PSOL e Rede. O tempo supera em 1 minuto e 11 segundos a fatia destinada ao senador Flávio Bolsonaro (PL), seu principal adversário na disputa, que terá 4 minutos e 20 segundos ancorados no peso da bancada própria do PL na Câmara dos Deputados.


A distribuição dos minutos evidencia como a legislação eleitoral premia a articulação partidária e a força parlamentar: enquanto 10% da grade é repartida de forma igualitária entre as legendas que superaram a cláusula de desempenho, os 90% restantes obedecem à proporção de assentos conquistados em Brasília. Nessa divisão, o governador Ronaldo Caiado (PSD) assegurou 2 minutos e 2 segundos de tela, e Augusto Cury (Avante) terá apenas 35 segundos. Outros concorrentes, como Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), ficaram sem espaço na propaganda em rede nacional por não cumprirem os requisitos legais de representatividade.

Apesar da percepção comum de que as plataformas digitais esvaziaram os meios eletrônicos convencionais, analistas ressaltam que o rádio e a TV continuam insubstituíveis na formação da opinião pública brasileira. O cientista político Jairo Nicolau, do CPDOC da FGV, adverte que a tese de supremacia irrestrita da internet ignora a realidade socioeconômica do país. Segundo ele, a ideia de que as redes sociais estabeleceram uma hegemonia total na comunicação com o eleitor não corresponde aos fatos, uma vez que o ambiente digital permanece marcado por profundas assimetrias de conectividade, concentrando-se em públicos mais jovens, escolarizados e de maior renda, enquanto a televisão preserva penetração capilarizada nos rincões do país.

Sob essa ótica, o papel do guia eleitoral reside menos no poder de converter eleitores convictos e mais na capacidade de conferir visibilidade a projetos políticos para quem ainda não se debruçou sobre a disputa. Enquanto os algoritmos das redes tendem a operar como câmaras de eco, reforçando simpatias e antipatias prévias, a programação aberta funciona como uma vitrine de apresentação primária para o cidadão desengajado.

Esse mecanismo ganha contornos cruciais diante do eleitorado classificado como “nem-nem”, grupo refratário tanto ao lulismo quanto ao bolsonarismo que costuma selar o desfecho do pleito na reta final. Desprovido de paixões partidárias e orientado por critérios pragmáticos, esse contingente recorre aos blocos tradicionais para examinar a postura, o equilíbrio e as propostas dos postulantes. Conforme pontua o cientista político Márcio Coimbra, a transmissão aberta atua como referência de segurança institucional, permitindo a essa parcela avaliar a sobriedade e a viabilidade dos discursos antes de carimbar a escolha na urna.

É essa busca por credibilidade junto ao público flutuante que justifica o vultoso investimento financeiro e técnico na produção das peças publicitárias. Ao estruturarem narrativas cinematográficas e negociarem cada segundo de coligação nos bastidores, os comitês eleitorais reconhecem que, mesmo na era dos algoritmos e dos vídeos instantâneos, a batalha definitiva pelo poder ainda passa pelo televisor da sala de estar e pelo rádio ligado no cotidiano das famílias brasileiras.

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