Presidenciável do PSD enfrenta boicote velado de diretórios estaduais, e a ausência de sua imagem nas inserções diárias de Antônio Furlan, alvo de investigações judiciais no Amapá, escancara o distanciamento prático entre a campanha nacional e os palanques regionais da legenda
O ex-governador goiano Ronaldo Caiado, candidato do PSD à Presidência da República, expressou forte irritação nesta semana diante do “apagamento” sistemático de sua imagem e de seu nome nas propagandas do horário eleitoral gratuito veiculadas pelos postulantes majoritários de sua própria legenda nos estados, um boicote silencioso provocado pela pulverização de acordos regionais e pelo isolamento político que fragiliza sua corrida ao Palácio do Planalto. A insatisfação de Caiado, que esperava ver a engrenagem partidária tracionar sua campanha em nível nacional por meio do tempo de televisão e rádio, escancarou fissuras profundas na legenda presidida por Gilberto Kassab, que agora lida com o desconforto de ter um concorrente formal à Presidência transformado em figura invisível nos palanques locais.


O incômodo do presidenciável atingiu o ápice com a constatação de que nem mesmo em praças onde a sigla formalizou apoio irrestrito à sua postulação o alinhamento se traduz em propaganda efetiva. O caso do Amapá tornou-se o retrato mais agudo desse distanciamento prático: o candidato ao governo estadual pelo PSD, o ex-prefeito de Macapá Antônio Furlan, não incluiu nenhuma menção a Caiado em suas inserções eletrônicas diárias. Furlan, que tenta o Executivo amapaense enquanto enfrenta um cenário judicial delicado após ter sido afastado da prefeitura no início de março por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino — sob suspeitas de desvio de recursos públicos, fraudes em licitações e formação de quadrilha —, simplesmente omitiu o padrinho nacional.

Procurado formalmente pela reportagem para comentar as queixas do ex-governador goiano e a decisão de blindar seus programas de qualquer associação federal, Furlan não respondeu aos pedidos de esclarecimento.
A ausência nas telas e nos discursos reflete um isolamento que ultrapassa a fronteira setentrional do país e atinge o coração da estratégia eleitoral do PSD. Idealizada inicialmente como uma chapa pura encabeçada por Caiado e chancelada por Kassab para dar musculatura própria ao partido, a candidatura presidencial esbarrou na tradicional vocação pragmática e heterogênea de seus diretórios regionais.


Nos maiores colégios eleitorais do país — como São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia —, a legenda já havia amarrado compromissos estratégicos com forças antagônicas antes mesmo de a postulação presidencial se consolidar. Na prática, os líderes estaduais preferiram preservar alianças prioritárias com os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Romeu Zema (Novo) ou com a base do governo Luiz Inácio Lula da Silva, empurrando a postulação de Caiado para a vala comum da neutralidade ou do silêncio calculado.

Sem acesso a essas vitrines decisivas, o ex-governador de Goiás viu seu palanque nacional encolher para um punhado de redutos. Apenas um grupo muito restrito de mandatários e postulantes da legenda tem marchado abertamente ao seu lado, destacando-se o governador do Paraná, Ratinho Junior, e candidatos pontuais em estados como Rondônia, Santa Catarina e o próprio Amapá, onde o apoio, contudo, ainda patina entre o compromisso partidário formal no papel e a omissão deliberada na propaganda de massa. Nos bastidores de Brasília e de Goiânia, interlocutores próximos a Caiado classificam a atitude dos correligionários como um gesto de deslealdade política, argumentando que a cessão dos fundos partidários e do prestígio da sigla não deveria servir apenas aos interesses regionais enquanto o projeto nacional é asfixiado pela falta de visibilidade.

A divisão deflagrou reações imediatas na cúpula pessedista. Caciques históricos da agremiação, entre eles o ex-senador Jorge Bornhausen, vieram a público para cobrar engajamento direto e reprovar enfaticamente a chamada política de “palanques trocados”. Para Bornhausen e lideranças alinhadas à direção nacional, a tolerância excessiva com a infidelidade velada nos estados mina irreversivelmente a viabilidade competitiva de Caiado, rebaixando uma postulação ao cargo mais alto do país a um mero arranjo burocrático de conveniência. Enquanto o relógio eleitoral corre em direção às urnas, Ronaldo Caiado segue sua marcha em ritmo de cobrança, travando uma batalha paralela para existir nas telas de seus próprios correligionários antes mesmo de convencer o eleitorado fora de suas fronteiras de origem.

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