Patrimônio da boemia amapaense, fundador do tradicional Bar Baré completa 93 anos de vida

Fundado nos anos 1980 no bairro do Laguinho, o tradicional reduto boêmio mantém viva sua essência histórica em Macapá enquanto celebra o aniversário de seu carismático e eterno comandante



Duas relíquias: Seu Louro e o bacamarte

Na tarde da sexta-feira, 10 de julho, o tradicional Bar Baré, um dos estabelecimentos etílicos mais antigos de Macapá, transformou-se no cenário de uma celebração dupla: o aniversário de 93 anos de seu fundador, Lourival Francisco de Oliveira, o “Seu Louro”, e a consagração de um patrimônio cultural que resiste ao tempo. Localizado na valorizada avenida José Antônio Siqueira, no bairro do Laguinho, o bar mantém suas portas abertas sob o comando de Celso Rodrigues de Oliveira, filho do fundador, que preserva a essência de um negócio que começou sem grandes pretensões nos anos 1980 e se tornou o coração da boemia amapaense. A data, que por uma feliz coincidência caiu no “dia internacional da cerveja gelada”, reuniu de autoridades a frequentadores históricos para homenagear o homem que datilografou, com simpatia e irreverência, as crônicas da noite macapaense ao longo das últimas décadas.

A atmosfera no entorno do Bar Baré, situado estrategicamente entre as ruas Odilardo Silva e Eliezer Levy, contrasta o passado e o futuro. Enquanto a região se moderniza e vive a fervilhante expectativa econômica dos royalties do petróleo, o balcão de Seu Louro permanece como um santuário de estabilidade e memória. No início, o espaço dividia suas atenções como lanchonete e casa de jogos, mas foi a vocação para a conversa fiada e o copo cheio que consolidou a tradição do lugar. Natural de Manaus, no Amazonas, Seu Louro chegou ainda jovem ao então Território Federal do Amapá. Foi ali que ele fincou raízes, casou-se, criou os filhos e testemunhou a transição de uma Macapá pacata para a capital em expansão que se conhece hoje.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Mesmo com a saúde fragilizada pelo peso de quase um século de vivências, o patriarca faz questão de manter um ritual sagrado: aparecer diariamente no estabelecimento. Sentado em seu lugar cativo, ele assume o papel que mais lhe agrada, o de um exímio contador de causos e gozador profissional. Suas memórias resgatam um tempo em que a noite guardava excentricidades folclóricas. Com um sorriso nostálgico, ele relembra os fregueses assíduos do passado e as épocas em que fritava bunda de saúva para oferecer como uma iguaria exótica aos clientes mais fiéis e corajosos que batiam ponto em seu balcão.

Essa capacidade de rir de si mesmo e de não perder a esportiva diante das piadas dos frequentadores moldou a identidade do Bar Baré. O local democratizou o convívio social na capital, tornando-se um ponto de encontro democrático onde as barreiras de classe desaparecem entre um brinde e outro. Ali, a linha que separa uma autoridade pública de um boêmio anônimo é tênue, unida pelo respeito à figura do velho comerciante. Para muitos dos chamados “papudinhos”, o bar não é apenas um comércio, mas sim uma extensão legítima de suas próprias casas, um porto seguro de acolhimento e escuta.

A emoção dos clientes que cresceram frequentando o local transborda em declarações que misturam nostalgia e reverência. O servidor público Jonas Gemaque, amplamente conhecido na região pelo apelido de “Cara de Porco”, é um dos rostos que ilustram essa fidelidade geracional. Com os olhos marejados ao olhar para o aniversariante do dia, ele resume o sentimento coletivo que pulsa no Laguinho. “Para mim, o bar do Seu Louro é uma referência. O Seu Louro sempre foi um excelente dono de bar, sempre me atendeu bem, assim como os demais fregueses. Hoje faço questão de parabenizar este verdadeiro patrimônio da boemia amapaense”, comentou, visivelmente emocionado.

A transição da gerência para o filho Celso Rodrigues de Oliveira assegura que o legado não se perca diante das pressões imobiliárias e da pressa dos novos tempos. Dedicado, Celso entende que administrar o Bar Baré vai além de gerenciar estoques de bebidas; trata-se de zelar por um arquivo vivo da identidade de Macapá. A história do bar prova que o sucesso de um empreendimento de longevidade tão rara depende fundamentalmente do amor e da dedicação de quem o conduz. Enquanto a noite caía na avenida José Antônio Siqueira e os copos continuavam a suar frio, a certeza dos presentes era uma só: a história de Macapá passa, inevitavelmente, pelas mãos generosas e pelo sorriso altivo de Seu Louro.


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