Escândalo político em Macapá transforma lixeiras clandestinas em nova arena de disputa eleitoral

Aliados de ex-gestor investigado pelo STF são acusados de provocar descarte irregular de lixo na capital do Amapá para gerar factoides nas redes sociais e desestabilizar a atual administração municipal



Em uma quinta-feira que parecia como qualquer outra no bairro do Curiaú, zona norte de Macapá, a moradora que apontou a câmera do celular para a picape cinza estacionada na beira da pista não imaginava estar registrando mais do que um ato de incivilidade comunitária. Das moscas que sobrevoavam os sacos plásticos arremessados na via pública emergiu uma frase retórica e desafiadora, disparada por uma das ocupantes do veículo: “Manda o prefeito limpar”. Por trás do acúmulo súbito de resíduos e do tom provocativo, no entanto, desdobra-se uma engrenagem política complexa que transformou os limites urbanos da capital amapaense em arena de uma guerra de narrativas.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Informações obtidas com exclusividade junto a fontes ligadas ao prefeito interino, Pedro DaLua (União Brasil), apontam para a existência de uma articulação orquestrada a partir do escritório de campanha de Antônio Furlan — ex-prefeito da cidade e atual candidato ao governo do estado pelo PSD —, na qual ocupantes de cargos comissionados estariam atuando para inflar a crise da limpeza urbana, desgastar a imagem da atual gestão e atingir, indiretamente, o governador Clécio Luís (União Brasil).

A motivação do complô reside na disputa pelo espólio político da capital após o afastamento definitivo de Furlan, decretado em março pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito de investigações que apuram suspeitas de peculato, fraude em licitações e formação de quadrilha na administração municipal. Segundo os relatos colhidos pela reportagem, a estratégia da ala ligada ao ex-gestor consiste na fabricação contínua de focos de conflito e “factóides” para abastecer as redes sociais durante a corrida eleitoral. A proliferação vertiginosa das chamadas “lixeiras viciadas” — pontos clandestinos de descarte que reaparecem mesmo após a limpeza oficial — deixou de ser tratada apenas como gargalo de conscientização ambiental para ser encarada como tática de desestabilização urbana.

A rotina dos moradores reflete o impacto direto dessa polarização. Em bairros periféricos como o Curiaú e o Novo Buritizal, o acúmulo desordenado de entulho e lixo doméstico compromete a mobilidade, atrai vetores de doenças e deteriora o convívio social. “A gente limpa a frente de casa de manhã e, à noite, descobre que despejaram restos de obra e sacos fechados. Ficou impossível prever o estado da rua”, relata uma comerciante da zona norte que preferiu não se identificar por temores de retaliação local. Especialistas em gestão pública e urbanismo alertam que o uso de serviços essenciais como massa de manobra política gera danos cumulativos de difícil reparação. De acordo com pesquisas sobre percepção de serviços públicos na Amazônia, a descontinuidade ou sabotagem da coleta seletiva e do manejo de resíduos sólidos eleva em até 40% os custos operacionais do município, além de sobrecarregar o sistema de saúde básico com casos de dengue e leptospirose.

Reagindo aos episódios mais recentes, Pedro DaLua adotou um tom de rigor nas redes sociais e defendeu a punição exemplar dos envolvidos. Classificando a atitude registrada em vídeo como crime ambiental, o prefeito interino assegurou que os ocupantes do veículo já estão sendo identificados pelas autoridades de trânsito e fiscalização para a aplicação de multas severas. “Peguei mais um flagra de gente sujando nossas ruas e alimentando lixeira viciada em Macapá”, declarou DaLua, ao convocar a população a transformar os próprios telefones em ferramentas de denúncia e controle social. “Macapá não é lixeira. Acabou a impunidade para quem insiste em tratar nossa cidade como depósito de lixo”, completou o gestor.

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Enquanto os desdobramentos jurídicos sobre o afastamento de Antônio Furlan seguem em trâmite no Supremo Tribunal Federal, o cenário político amapaense permanece sob forte tensão. Juristas que acompanham o caso destacam que a instrumentação de servidores comissionados para atos de sabotagem ou criação deliberada de desordem pública pode configurar improbidade administrativa e abuso de poder político, somando-se aos processos já existentes. Até o fechamento desta edição, a defesa e a assessoria do ex-prefeito não se manifestaram sobre as acusações de articulação paralela. Entre as calçadas obstruídas do Curiaú e os gabinetes de decisão, os cidadãos de Macapá assistem a um cotidiano onde a disputa pelo poder local é travada, literalmente, na esquina de casa.


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