Índice nacional aponta que cidades interioranas concentram os maiores níveis de participação política do país

Pesquisa com base em dados de 2024 demonstra que cidades do interior, como Itaubal do Piririm, lideram a participação cívica nacional, impulsionadas pela proximidade entre eleitores e candidatos, desafiando a premissa de que a relevância política depende apenas do tamanho populacional



Enquanto as grandes metrópoles brasileiras estampam os holofotes da política nacional com disputas acirradas e milhões de eleitores, é nos recantos menos urbanizados e nas pequenas cidades do interior que a democracia pulsa com maior intensidade proporcional, revelando um retrato surpreendente do engajamento cívico no país. Divulgado neste ano com base em dados de 2024 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o inédito Índice da Participação Partidário-Eleitoral nos Municípios Brasileiros (IPar-Eleitoral), elaborado pelo Observatório Participa — projeto de extensão do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Participa —, mapeou que cidades de pequeno porte concentram os maiores índices de participação cívica, considerando o comparecimento às urnas, o alistamento voluntário de jovens de 16 e 17 anos e a filiação partidária. O estudo coroa municípios como Oliveira de Fátima, no Tocantins, e Grupiara, em Minas Gerais, nas primeiras posições, enquanto capitais gigantescas como São Paulo e Rio de Janeiro amargam a base do ranking, evidenciando um abismo proporcional entre o tamanho das cidades e a disposição de seus cidadãos para a política institucional.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
ARTIGOSARTIGOS17 de julho de 2026Emanoel Reis, Macapá – AP

O levantamento detalha que, na maior parte dos municípios brasileiros, de 80% a 90% do eleitorado comparece rigorosamente às urnas. Além disso, a filiação partidária costuma abranger de 10% a 20% da população apta a votar, ao passo que o alistamento voluntário do público jovem, na faixa dos 16 aos 17 anos, flutua entre 5% e 15%. No entanto, a balança demográfica e regional pende de forma desigual quando os grandes centros urbanos são comparados às pequenas localidades. Em Oliveira de Fátima (TO), que conta com modestos 1.164 habitantes segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice atingiu a pontuação máxima de 100 pontos. Logo em seguida, Grupiara (MG), com 1.392 moradores, alcançou expressivos 97,7 pontos. Na contramão, a capital paulista registrou apenas 10,6 pontos, ao passo que o Rio de Janeiro marcou minguados 6,0 pontos. Em termos macroregionais, a Região Norte desponta com a maior média de participação do país, enquanto o Sudeste fica consideravelmente abaixo da média nacional.

Para especialistas, os números ajudam a desmistificar a ideia de que a relevância política de uma região reside estritamente no volume bruto de seu eleitorado. “Esse resultado mostra que o peso das regiões na dinâmica eleitoral não se define apenas pelo tamanho dos seus eleitorados. Afinal, a intensidade e a disposição da população em participar também importam para os próprios resultados eleitorais”, destaca Carla Almeida, professora da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e uma das coordenadoras do Observatório Participa, responsável pela consolidação do IPar-Eleitoral. A pesquisadora pondera que, embora os dados revelem um panorama claro, desvendar as engrenagens profundas desse comportamento exige novas frentes de investigação acadêmica.

A explicação para o fenômeno, contudo, começa a ser desenhada a partir da literatura especializada e da própria vivência comunitária. A proximidade física e social nas pequenas localidades transforma o cotidiano político em algo palpável, rompendo a barreira do anonimato tão comum nas grandes metrópoles. “Nós encontramos na literatura especializada argumentos que defendem que, em municípios menores, a participação tende a ser mais intensa, porque a política é mais próxima dos cidadãos e cidadãs. Essa proximidade favoreceria o engajamento. Por outro lado, ela também tornaria esse engajamento mais esperado, já que, nesses contextos, as escolhas e os comportamentos políticos individuais adquirem maior visibilidade e, inclusive, maior cobrança”, pontua Carla Almeida. Nesse cenário, o voto deixa de ser apenas um dever cívico abstrato e passa a se integrar às relações de vizinhança e compadrio, onde cada movimento eleitoral ganha eco imediato na praça pública, no comércio local e nas rodas de conversa.

Apesar de desenhar um mapa detalhado do engajamento municipal, o IPar-Eleitoral não ambiciona esgotar todas as dimensões da vida democrática ou mensurar a qualidade intrínseca das instituições brasileiras. A proposta metodológica é mais pragmática e serve como uma ferramenta de diagnóstico para comparar a relação da sociedade com as instâncias eleitorais e partidárias em cada canto do território nacional. A própria coordenação do projeto enxerga no índice um ponto de partida para qualificar o debate público.

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“A qualidade do índice é justamente essa: apresentar esse diagnóstico, possibilitar conhecer melhor a realidade brasileira e, com isso, permitir com que a gente elabore perguntas mais qualificadas com essa fundamentação empírica, além de poder subsidiar ações para aprimorar a participação política”, reforça a professora. Com os dados integralmente abertos e disponibilizados para consulta pública município por município no portal do INCT Participa, a ferramenta passa a funcionar não apenas como um espelho da realidade atual, mas como um convite permanente para que pesquisadores, gestores públicos e a própria sociedade civil repensem os caminhos da democracia brasileira a partir da base de seus municípios.


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