Mercado Central de Macapá celebra 73 anos garantindo direitos a comerciantes e valorizando patrimônio histórico

Marco histórico da capital amapaense completa mais de sete décadas de atividades com homenagens, culinária regional e celebrações comunitárias, enquanto permissionários recebem títulos formais de uso dos boxes, fortalecendo a segurança jurídica e a continuidade de negócios mantidos por gerações



A formalização do direito de trabalhar sob um teto histórico foi o principal presente de aniversário recebido por dezenas de comerciantes no centro de Macapá. No último domingo (13), o Mercado Central da capital amapaense completou 73 anos de fundação e celebrou a data com uma extensa programação cultural e a entrega definitiva dos Termos de Permissão de Uso (TPU) aos seus permissionários, conferindo segurança jurídica a quem ergueu sua trajetória entre bancas de alimentos, artesanato e gastronomia tradicional. O evento reuniu trabalhadores, frequentadores habituais e autoridades municipais das 8h até a noite, em uma iniciativa do poder público voltada tanto à preservação da memória coletiva quanto à sustentabilidade econômica de um dos marcos urbanos mais antigos do estado.


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Inaugurado em 13 de setembro de 1953 pelo então governador Janary Gentil Nunes e pelo prefeito Claudomiro de Moraes, exatamente dez anos após a criação do Território Federal do Amapá, o prédio de alvenaria foi construído em frente à histórica Fortaleza de São José para organizar o comércio que até então ocupava as margens fluviais. Ao longo de mais de sete décadas, o espaço sobreviveu ao isolamento geográfico do Norte do país, recebeu levas de trabalhadores de diferentes origens — incluindo famílias de imigrantes japoneses atraídas pela exploração agrícola e da borracha — e passou por sucessivas crises estruturais, até uma reforma concluída em 2020 com verbas do programa Calha Norte, que revitalizou seus mais de 60 boxes.

A celebração do septuagésimo terceiro ano começou cedo, embalada pelos acordes da Banda Municipal de Macapá. Além do protocolo cívico com a presença de gestores públicos, a manhã teve um significado especial para feirantes que aguardavam a regularização formal de suas atividades. O documento emitido pela Prefeitura de Macapá estabelece direitos e deveres claros para a posse e exploração dos boxes, superando um histórico de ocupações precárias e informalidade que frequentemente vulnerabilizava os trabalhadores diante de trocas de gestão.

Para a diretora-presidente do Instituto Municipal de Turismo (MacapáTur), Manuele Flexa, a política pública de regularização visa reconhecer o fator humano que sustenta a estrutura viva do patrimônio tombado. “Essa comemoração foi preparada para valorizar não apenas a história desse importante patrimônio de Macapá, mas também todas as pessoas que fazem o Mercado Central acontecer todos os dias”, ressaltou a gestora, enfatizando que os incentivos turísticos e culturais precisam dialogar diretamente com a dignidade de quem vive do comércio popular.

A segurança jurídica trazida pelo papel assinado foi celebrada por comerciantes que vivenciaram a transição do trabalho assalariado para a titularidade do próprio negócio. É o caso de Ronai Caleb Gomes, proprietário de uma sorveteria local, cuja rotina esteve atrelada aos corredores do mercado durante a juventude. “Comecei trabalhando como funcionário e passei quase dez anos nessa função. Hoje, sou permissionário, e isso representa uma vitória para mim. Sempre participei e, desde o Mercado Central antigo, trabalho aqui. Estou muito feliz por comemorar esse aniversário e agradeço a todos que me ajudaram”, afirmou o comerciante.

A permanência de atividades econômicas no mesmo perímetro também desenha a evolução social de famílias inteiras ao longo do tempo. Na lanchonete da família Rego, a história com o mercado atingiu meio século em julho e agora alcança a terceira geração. A titularidade do espaço, que começou com os avós, atravessou a vida dos pais de Daniela Rego até chegar ao filho dela, inserido no cotidiano de atendimentos matinais. “Para minha família, o Mercado Central é a nossa história, a nossa vida. Eu cresci vendo meus pais, às 4h da manhã, levantarem e virem para o Mercado Central começar a trabalhar na lanchonete”, relatou Daniela.

Historiadores e urbanistas costumam apontar que mercados centrais em cidades amazônicas desempenham papel que transcende o simples abastecimento de mercadorias: funcionam como caixas de ressonância da identidade regional. No caso de Macapá, esses polos resistem à expansão dos shoppings centers e das redes atacadistas privadas, mantendo-se como espaços de sociabilidade onde o saber culinário e as relações de vizinhança sobrevivem à impessoalidade metropolitana.

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A programação dominical refletiu essa dinâmica sociocultural. Às 10h, comerciantes e visitantes cantaram parabéns ao redor de um bolo comemorativo. Pouco depois, ao meio-dia, um almoço cultural movimentou os corredores do mercado com pratos fundamentados na culinária amazônica — marcada por peixes de água doce, farinhas artesanais e temperos típicos —, acompanhado de apresentações musicais ao vivo. As celebrações se estenderam até a noite, com apresentações artísticas que reuniram grupos locais no pátio externo, reafirmando o compromisso de integrar o patrimônio histórico às necessidades cotidianas da população amapaense.


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