Abalo de magnitude 3,7 em Sandolândia não deixou vítimas nem danos, mas motivou boatos infundados na Internet sobre novos terremotos. Cientistas da USP e da RSBR tranquilizam moradores e alertam que a ciência não prevê sismos com exatidão
Um tremor de terra de magnitude 3,7 na escala Richter sacudiu a madrugada dos cerca de 4.000 moradores de Sandolândia, no sul do Tocantins, às 5h45 da última sexta-feira (4), deflagrando um rastro de desinformação que abalou a rotina da pequena cidade mais do que as próprias ondas sísmicas. Detectado pela Rede Sismográfica Brasileira e analisado pela Universidade de São Paulo, o abalo ocorreu devido ao estresse milenar acumulado no centro da placa tectônica Sul-Americana, que, comprimida pelas forças vizinhas de Nazca e Africana, rompeu rochas em profundidade ao longo de falhas geológicas.


Apesar de não ter deixado vítimas ou danos materiais, o fenômeno provocou pânico imediato na população local após boatos em redes sociais anunciarem falsamente uma catástrofe iminente para o dia 18. O episódio ilustra o contraste entre a calmaria do subsolo nacional e a vulnerabilidade humana frente ao desconhecido: embora tremores intraplaca façam parte da história geológica tocantinense — com 34 ocorrências catalogadas desde 1988 —, cientistas e autoridades comunitárias tiveram de mobilizar esforços urgentes para desmentir profecias descabidas e tranquilizar famílias assustadas, reiterando que a ciência mundial não dispõe de tecnologia capaz de prever dias, locais e magnitudes de novos terremotos.


Para quem vive da lida diária e do comércio local, o impacto inicial não veio do ranger de paredes ou do tremor do chão, mas sim das mensagens apreensivas que começaram a circular em grupos de celulares familiares. Entre os moradores, relatos indicavam que a maioria só soube que o solo havia se movido após o aviso de parentes de fora ou por meio de correntes virtuais que anunciavam uma tragédia iminente. “A gente acordou cedo para a rotina normal, ninguém percebeu nada fora do comum em casa, mas logo o telefone começou a tocar com gente perguntando se a cidade ia ser destruída por outro tremor na semana seguinte”, relata a dona de casa Maria de Fátima Alves, que reside no centro urbano de Sandolândia e tentava acalmar os vizinhos mais idosos. O pânico motivou até mesmo a intervenção de líderes comunitários e autoridades locais, que precisaram vir a público desmentir qualquer previsão catastrófica e reforçar a orientação técnica dos especialistas.

A pronta resposta científica buscou desarmar o boato com veemência. “Esse alerta é falso, é uma alucinação. Os tremores são impossíveis de prever, e talvez nunca seja possível prever data, local e magnitude exatos. Isso é uma alucinação, não temos tecnologia para isso”, adverte categoricamente Bruno Colaço, sismólogo da RSBR e do Centro de Sismologia da USP. O pesquisador esclarece que a ciência atual não dispõe de ferramentas preditivas análogas às da meteorologia, que calcula probabilidades de chuvas ou quedas de temperatura. Segundo ele, o que existe são sistemas avançados de detecção em tempo real: “Isso não prevê nada, o tremor já aconteceu. O sistema automático detecta que o tremor já ocorreu e tenta avisar as comunidades vizinhas da chegada desse tremor. Dependendo da magnitude e da distância, pode haver alguns segundos ou minutos para as pessoas procurarem abrigo, e isso pode salvar vidas”.

Embora desperte surpresa na população leiga, o sismo tocantinense não é uma aberração isolada. Levantamentos históricos da RSBR mostram que, desde 1988, o estado registrou 34 abalos sísmicos catalogados, concentrados especialmente nas regiões sul e central. Apenas neste ano, três eventos foram identificados no estado, sendo o de Sandolândia o mais forte em quase uma década. “O que mais chama atenção é essa magnitude de 3,7 — ela difere um pouco do que o Tocantins está acostumado, é um pouco mais alta. Esse é o maior tremor desde 2015 e está entre os três maiores desta última década”, destaca Colaço, ressalvando que o episódio não configura um “enxame sísmico”, termo usado para designar uma sucessão concentrada de tremores num mesmo ponto.

A dinâmica por trás do fenômeno remonta à própria arquitetura do planeta. Ao contrário de países vizinhos como Colômbia, Venezuela e Peru — que registraram recentemente abalos devastadores acima de magnitude 7, com centenas de mortos e milhares de desabrigados na borda tectônica —, o Brasil desfruta de uma posição geológica privilegiada. O território nacional repousa no interior estável da Placa Sul-Americana, distante das margens ativas onde ocorrem vulcões, furacões e megaterremotos. Entretanto, a placa não está imune: comprimida lateralmente pelas placas de Nazca e Africana, que se movimentam a taxas de até 20 centímetros ao ano, a crosta brasileira acumula tensões lentas e progressivas.

“Essas tensões se distribuem por toda a crosta e vão se acumulando durante anos; quando ficam muito grandes, as rochas não conseguem suportar esses esforços e quebram. Quando acontecem essas quebras, ao longo de falhas geológicas, se originam essas fraturas, e as ondas se espalham em todas as direções — é isso que as pessoas eventualmente podem sentir”, elucida o sismólogo da USP. O mecanismo, classificado pela literatura científica como sismicidade intraplaca, pode ocorrer em qualquer ponto do território brasileiro, mas geralmente libera energias de baixa intensidade, incapazes de abalar represas, pontes ou edifícios bem construídos. Hoje, com mais de 120 estações de monitoramento ativas espalhadas pelo país, a rede de cientistas consegue não apenas tranquilizar a população ribeirinha e interiorana contra desinformações, mas desvendar, com precisão crescente, a silenciosa respiração subterrânea do continente.

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