Sidônio enfrenta obstáculos na criação de uma identidade institucional coesa e eficaz para o governo Lula
Prestes a completar dois anos e meio de seu terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontra dificuldades para manter o apoio do eleitorado e assiste, com preocupação, à crescente avaliação negativa de seu governo

Cinco meses após assumir a chefia da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira ainda enfrenta dificuldades para criar uma marca forte que impulsione a gestão Lula. Encarregado de apagar incêndios e mitigar crises, como o aumento do IOF e o escândalo do INSS, o marqueteiro tem operado como articulador estratégico no Planalto, definindo narrativas e orientando ministros. Apesar de sua atuação nos bastidores, a comunicação governamental ainda não tem conseguido conter os desgastes políticos e a queda de popularidade do presidente.

Para tentar reverter o cenário, Sidônio tem apostado em entrevistas com Lula, destacando conquistas da gestão, além de cobrar maior engajamento de aliados nas redes sociais — especialmente para contrabalançar figuras como o deputado Nikolas Ferreira.
Sua atuação também tem sido requisitada por ministros em momentos de crise, como nos casos da gripe aviária e das polêmicas envolvendo Janja e Juscelino Filho. Apesar do esforço, ele ainda não conseguiu imprimir uma identidade clara à comunicação do governo, algo considerado fundamental por seus colegas.
Internamente, há críticas sobre a lentidão na reformulação da estratégia digital, especialmente após o TCU suspender uma licitação de publicidade ainda em 2023. Embora o novo edital deva ser lançado em junho, o ministro não o considera a solução definitiva. Ele defende que a base de apoio ao governo, incluindo o PT, participe ativamente da disputa de narrativas. Mesmo com limitações, a Secom aponta crescimento nas redes sociais, especialmente no Instagram e TikTok, como sinais positivos dos primeiros meses de sua gestão.

Lula ignora orientações de Sidônio e gera apreensão entre ministros do governo
Lula resiste a seguir orientações da equipe de Sidônio Palmeira, que comanda a Secretaria de Comunicação. A atitude preocupa integrantes do governo e dirigentes do PT.
Embora prestigie o ministro, e o trate com uma deferência maior do que dedicada a outros integrantes de seu governo, o presidente mostra contrariedade com a possibilidade de ser pautado pela comunicação. De acordo com um dirigente do PT, “Lula não gosta que ninguém mande nele”, o que cria obstáculos para que siga a orientação da equipe de Sidônio e conselhos de outros ministros e amigos.
Uma pessoa que tem proximidade inclusive no plano pessoal com Lula afirma que ele “não quer virar um ‘tiktoker’”, ou seja, não quer seguir orientações para explorar ao máximo as mídias sociais com vídeos gravados por ele mesmo, por exemplo.
Lula resiste ao formato das redes desde quando era candidato a presidente. De acordo com um interlocutor, ele privilegia discursos e debates minimamente profundos e mais politizados sobre os diversos temas da administração, por considerar mais condizentes com uma grande liderança política.
O problema, de acordo com o mesmo interlocutor, é que as novas gerações de eleitores se acostumaram ao formato das redes, por onde recebem informações, se inteiram dos fatos e conseguem interagir.
Sem a colaboração irrestrita do presidente, mesmo propostas de reposicionamento do governo, feitas por diversos colaboradores, correriam o risco de morrer na praia.
Uma das preocupações de dirigentes do PT é com a manutenção do bom relacionamento entre Lula e Sidônio. O publicitário é considerado competente e fundamental para a campanha de 2026. Qualquer desgaste entre eles colocaria a candidatura à reeleição do presidente em risco.
QUEM É SIDÔNIO PALMEIRA
Formado em engenharia, o titular da Secretaria de Comunicação Social (Secom) do governo Lula (PT) é descrito como pragmático, didático e com capacidade de análise política. De pé, Palmeira costumava apresentar à sua equipe na campanha um diagnóstico do cenário, delegando aos sócios a criação das peças publicitárias.
Colegas de profissão e políticos com quem trabalhou dizem que ele tem perfil conciliador, é pouco dado a rompantes e costuma ouvir antes de tomar uma decisão.
Também destacam que, apesar do verniz ideológico de esquerda, é um empresário com apetite para os negócios, que vão desde empreendimentos imobiliários à criação de avestruzes.
No mundo empresarial, não tem cor político-partidária: entrou na sociedade de empreendimentos que envolvem o prefeito de Mata de São João (BA), João Gualberto (PSDB), e até mesmo o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto (União Brasil).
Sua primeira experiência política foi como líder estudantil na Universidade Federal da Bahia.
Entre 1981 e 1982, foi vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes na chapa "Viração", ligada ao PC do B, junto com a hoje deputada federal Lídice da Mata (PSB).
O grupo atuou na luta pela abertura política, por assistência estudantil e na oposição ao então governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães (1927-2007), cuja polícia reprimia manifestações estudantis.

