Ministro das Relações Institucionais ganha respaldo de Lula, mas precisará provar sua capacidade de liderança

Lula protege Padilha de possíveis consequências, mas o histórico conturbado do presidente sugere que o futuro do ministro ainda é incerto
Mesmo blindado por Lula, a situação de Padilha é delicada e não deixa de expor uma rusga entre Executivo e Legislativo, podendo haver novos desdobramentos. “O Padilha se expôs demais”, afirma Daniel Pinheiro, professor de Cultura Política da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), a quem os cenários estão em aberto. Pinheiro avalia Lula pode ser levado a “ceder”, mas deve calcular o que isso sinalizaria à sua base de apoio.
“Pode ser que alguma cessão o Lula tenha que fazer, sim, mas se ele der mais espaço para o Centrão, indicar mais um ministro, será uma derrota muito grande para o partido”, afirma o professor. “Seria muito delicado para o PT”.
A sombra imediata a Padilha são os casos de Daniela Carneiro e Ana Moser, nos quais os sucessores aos cargos despontaram durante a sobrevida das ministras, que passaram semanas com a saída iminente. Para Marco Teixeira, no entanto, a situação de Padilha é diferente, pois “envolve mais do que espaço no governo”. “Esse embate é mais complexo. Envolve, inclusive, o Ministério da Saúde, objeto de desejo tanto do Padilha quanto do Centrão.
Pinheiro também crê que os precedentes de Daniela e Moser são diferentes, principalmente quanto ao trânsito de cada ministro com o presidente. “Ele (Padilha) está num patamar de confiança um pouco mais alto em relação ao Lula”, diz o professor. Em razão disso, outras saídas são possíveis. “Se o próprio Padilha se vir encurralado, ele mesmo e o Lula podem negociar”, sugere Pinheiro.
Por outro lado, Padilha é o ministro das Relações Institucionais e está envolto a um embate público com um dos líderes do Legislativo, prejudicando diretamente as atribuições da pasta. “Quando se cria uma rusga, há uma desculpa para dizer: ‘Olha, você não está fazendo o seu trabalho”, analisa o professor.
Daniela Carneiro tinha ‘apreço’ de Lula
A crise que culminou no afastamento de Daniela Carneiro começou em abril de 2023, quando a então ministra pediu para sair do União Brasil, sigla que havia a indicado para o cargo. Enquanto Daniela solicitava a migração partidária ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a legenda passou a pressionar o governo Lula para indicar um novo nome à pasta.
Mas o Planalto abafou a trama contra Daniela, alegando que Lula não iria intervir numa questão interna do União Brasil e que pretendia seguir com a titular do Turismo, que dispunha de “apreço” do presidente. “O governo não interfere nos problemas internos dos partidos”, disse à época Alexandre Padilha, ministro das Relações Institucionais. “Daniela Carneiro sempre contou com todo o apreço do presidente Lula”.
A pressão sobre Daniela seguiu nos meses seguintes e, em junho, Padilha admitiu que o União Brasil formalizou ao governo um desejo de “reformulação” nas pastas destinadas à sigla. Mesmo com a saída dada como certa nos bastidores, Daniela teve uma sobrevida e deixou o cargo em julho, sendo sucedida por Celso Sabino (União Brasil-PA), atual ministro do Turismo.

Pressão sobre Ana Moser culminou em sua saída do cargo

Tal como Daniela Carneiro, a trama que levou à saída de Ana Moser do Ministério dos Esportes também teve início meses antes da saída oficial. Assim como a ex-ministra do Turismo, Moser passou semanas no cargo diante de uma demissão iminente.
Em 11 de julho, após uma reunião com Lula, Moser desmentiu que estivesse cotada a deixar a pasta. De acordo com a ministra, a eventual estava “mais na imprensa do que no nosso dia a dia”. Mas as negociações entre governo e Centrão não só seguiram como, dias depois, foram consolidadas as duas indicações do grupo à Esplanada: Silvio Costa Filho (Republicanos-PE) e André Fufuca (PP-MA).
Durante o mês de agosto, o governo articulou um remanejamento na Esplanada para comportar as indicações do Centrão. Costa Filho foi para a pasta de Portos e Aeroportos, então comandada por Márcio França, que ganhou um novo ministério como compensação. Fufuca foi o substituto de Moser, que deixou em definitivo a gestão federal.
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