Operação contra extremismo digital expõe plano de ataques a bomba e salto do ódio cibernético
Investigação do Ministério da Justiça revela como redes extremistas recrutavam jovens em ambiente virtual para planejar ataques a bomba em Brasília e disseminar discursos de ódio e misoginia

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
10/08/2026 | 12h10
Oito homens de 19 a 31 anos, espalhados por cinco estados e sem jamais ter se encontrado pessoalmente, usavam dois grupos no aplicativo Telegram para planejar detalhadamente um atentado à bomba contra o Palácio do Planalto e a explosão do prédio que sediará o debate presidencial do segundo turno das eleições de 2026. A articulação extremista foi desmantelada na terça-feira, 4 de agosto, quando a Polícia Civil do Distrito Federal cumpriu mandados de busca em Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. O grupo atuava em uma estrutura de recrutamento em funil, financiava o plano com orçamentos detalhados, plantas baixas e modelos tridimensionais das sedes dos Poderes obtidos na internet. A investida policial, denominada Operação Rede Interrompida, partiu de relatórios do Ciberlab — laboratório de operações cibernéticas do Ministério da Justiça — em ação conjunta com a Agência Brasileira de Inteligência (Abin), evitando um novo ataque de terrorismo político no país.


A desarticulação da célula expõe um ecossistema sombrio no qual a incitação à violência institucional se mescla ao ódio sistemático contra mulheres e minorias. Nas residências dos alvos, os agentes apreenderam celulares, discos rígidos e armas brancas. Não foram encontrados explosivos no local, mas os arquivos recuperados demonstravam estágio avançado de planejamento, reunindo manuais de fabricação de artefatos caseiros e coquetéis molotov. “Chegaram, inclusive, a compartilhar a planta baixa do Palácio do Planalto, para mostrar lá: ‘A planta deles é assim, a gente pode entrar por aqui, sair por aqui'”, relatou o delegado Maurílio Coelho, encarregado do caso, evidenciando que o plano ultrapassara a mera retórica virtual.


O mecanismo de aliciamento operava em etapas rígidas. O primeiro grupo no Telegram servia como vitrine ideológica e contava com mais de 600 membros. Aqueles que demonstravam maior radicalização eram filtrados e convidados para um canal restrito com apenas 46 integrantes, no qual o debate ideológico cedia lugar a instruções operacionais táticas. Um dos canais usava a imagem de Adolf Hitler no perfil. Segundo o Ministério da Justiça, os administradores buscavam identificar ativamente militantes dispostos a cometer assassinatos. “Vocês deveriam listar os principais alvos para garantir o sucesso da revolução”, dizia uma das ordens interceptadas.

A atuação ostensiva reflete o dimensionamento do extremismo digital. Apenas nos primeiros cinco meses de 2026, o Ciberlab elaborou 103 relatórios de inteligência mapeando mais de 50 grupos de ódio. O laboratório identificou 132 pessoas vinculadas a crimes digitais extremistas espalhadas por 21 estados, com concentração em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A apuração deu origem a ao menos dez operações policiais no período.

No mesmo dia da Rede Interrompida, a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul deflagrou a Operação Lívia contra uma rede virtual que coagia adolescentes à violência e resultou na morte de uma menina de 13 anos em transmissão ao vivo. A conexão entre as ações é operacional e estrutural: ambas partiram do Ciberlab e esbarraram no mesmo componente catalisador, a misoginia. Nos diálogos interceptados na capital federal, investigados afirmavam que “mulheres não podem ser delegadas, juízas e promotoras porque só fazem besteira”.

Para especialistas e autoridades, a radicalização virtual funciona como antecâmara da violência física. Dados da SaferNet revelam que as denúncias de misoginia e violência contra mulheres na internet saltaram 224,9% em 2025, somando 8.728 casos. Ao todo, a entidade registrou 87.689 denúncias de crimes cibernéticos no último ano. A antropóloga Adriana Dias já alertava para a gravidade do fenômeno ao contabilizar 530 núcleos extremistas no Brasil com até 10 mil integrantes e crescimento de 270,6% entre 2019 e 2021.

O avanço das ameaças em ano eleitoral levou o STF a alterar o entendimento sobre o Marco Civil da Internet, determinando que plataformas digitais removam sumariamente conteúdos de ódio, atos antidemocráticos e misoginia sem necessidade de prévia ordem judicial. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, destacou a gravidade das descobertas ao enfatizar que “não eram práticas inocentes. O que estava ali sendo engendrado eram atentados sérios”. Enquanto o material apreendido passa por perícia, a polícia mantém o alerta diante da proximidade da eleição: “A gente acredita que eles levariam o plano à frente. E a nossa teoria aqui é que a gente não vai pagar para ver”, resumiu o delegado.




