Alexandre de Moraes e esposa usaram jatos particulares de banqueiro preso em operações de investigação
Ministro e esposa utilizaram jatos do empresário em viagens de até R$ 290 mil abatidas de honorários advocatícios milionários


O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, realizaram ao menos oito viagens entre Brasília e São Paulo, entre maio e outubro do ano passado, em jatos particulares de empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O uso das aeronaves, cujos trechos podem custar até R$ 290 mil segundo levantamento de mercado, foi justificado pelo escritório de Viviane como forma de compensação por honorários advocatícios previstos em contrato com a instituição financeira. A revelação dos voos, que totalizariam mais de R$ 1 milhão, amplia o escrutínio sobre as relações entre o magistrado e Vorcaro, que foi preso recentemente em uma operação que investiga gestão fraudulenta.

O deslocamento do casal pela ponte aérea mais movimentada do país não ocorreu em voos comerciais ou em aviões oficiais, mas em jatos executivos de alto luxo, como o Legacy 650, o Phenom 300 e o Phenom 100. Sete dessas viagens foram feitas em aeronaves da Prime Aviation, empresa atrelada diretamente a Vorcaro, e uma oitava ocorreu em um Falcon 2000 pertencente à FSW SPE, sociedade de Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro. A logística dessas operações aéreas revela um custo operacional elevado: enquanto o modelo menor, Phenom 100, tem o trecho cotado em cerca de R$ 77,4 mil, o suntuoso Legacy 650, com capacidade para 14 passageiros, alcança a cifra de R$ 290 mil por itinerário.

Levantamento aponta que oito
viagens de Alexandre de Moraes
e sua esposa em jatos ligados
ao Banco Master custariam mais
de R$ 1 milhão no mercado.
A complexidade da relação ganha contornos mais nítidos diante da situação jurídica de Daniel Vorcaro, detido em março deste ano no âmbito da Operação Compliance Zero. O banqueiro é alvo de investigações que apuram a suposta venda de R$ 12 bilhões em títulos podres ao Banco de Brasília (BRB), além de crimes de gestão fraudulenta. O uso das aeronaves por Moraes e sua esposa ocorreu justamente no período em que o escritório Barci de Moraes mantinha um contrato vultoso com o Banco Master, avaliado em R$ 129 milhões por um período de três anos. O escopo do trabalho incluía a elaboração de 96 pareceres jurídicos e a revisão de códigos de ética da instituição, mas os valores envolvidos despertaram questionamentos entre especialistas do setor, que veem os montantes muito acima da média praticada pelo mercado jurídico brasileiro.

Um dos pontos mais sensíveis do levantamento diz respeito à legalidade da operação de um dos voos. A aeronave Falcon 2000, de propriedade da empresa de Zettel, não possui autorização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para realizar táxi aéreo. Isso significa que, tecnicamente, o avião não poderia ser utilizado para o transporte remunerado de passageiros, o que impossibilitou até mesmo uma cotação oficial para esse modelo específico. Como parâmetro de mercado, analistas de fretamento indicam que um voo em aeronave similar, como o Hawker 850XP, custaria aproximadamente R$ 157,6 mil. A nota emitida pelo escritório de Viviane Barci de Moraes defende a regularidade da situação, afirmando que os voos eram descontados dos honorários devidos e ressaltando que, em nenhum dos trajetos, o banqueiro Vorcaro ou seu cunhado estavam presentes a bordo.

Os voos reforçam os laços entre
o ministro e o dono do Master,
Daniel Vorcaro, que foi preso
em março sob acusação de
crimes de gestão fraudulenta.
Apesar da transparência alegada pela defesa jurídica do casal, o ministro Alexandre de Moraes e Viviane Barci optaram por não se pronunciar publicamente sobre os valores e as circunstâncias das viagens após serem procurados. A defesa de Daniel Vorcaro também silenciou sobre o tema, enquanto os representantes de Zettel não responderam aos contatos. Esse silêncio institucional contrasta com a gravidade das evidências de um fluxo de benefícios que mistura a esfera privada da advocacia com a posição pública de um dos magistrados mais influentes do país. No tribunal e nos círculos políticos, o episódio é visto como um elemento que tensiona a imagem de neutralidade do Judiciário, especialmente quando o provedor dos benefícios é figura central em inquéritos de crimes financeiros.

Defesa de Viviane Barci afirma
que os voos em jatos de luxo
serviam para abater valores de
honorários de um contrato de
R$ 129 milhões com o banco.
A simbiose entre os voos de luxo e o contrato milionário coloca em xeque a razoabilidade das compensações. Para o mercado, o pagamento de honorários através do uso de jatos particulares é uma prática incomum, especialmente nas cifras apresentadas. A estimativa de que o casal tenha consumido mais de R$ 1 milhão em deslocamentos aéreos privados em apenas seis meses reforça a percepção de uma proximidade incomum entre o juiz e o investigado. O caso agora se soma a um conjunto de pressões sobre a conduta ética e os limites da atuação de ministros de tribunais superiores em suas relações com grandes grupos econômicos. Enquanto o Banco Master enfrenta turbulências judiciais, as nuvens sobre os voos de Moraes e Viviane Barci indicam que a prestação de contas sobre esses itinerários ainda deve enfrentar muitas zonas de instabilidade.




