Com alianças à direita no Amapá, Furlan ignora convenção nacional que lançou Ronaldo Caiado pelo PSD
Alinhado ao bolsonarismo no âmbito estadual, Furlan ausenta-se de convenção que oficializou Caiado à Presidência, revelando o pragmatismo de um candidato que luta pela própria sobrevivência política no Amapá

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
27/07/2026 | 12h14

O candidato ao governo do Amapá e ex-prefeito de Macapá, bolsonarista Antônio Furlan (PSD) não compareceu ao evento realizado no domingo, 26, na sede do partido, no centro de São Paulo, onde foi oficializada a candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado à Presidência da República. Afastado do comando do Poder Executivo municipal desde março por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, sob a suspeita de envolvimento em crimes do colarinho branco, Furlan optou por permanecer no Amapá para focar nos compromissos de sua campanha regional, cuja candidatura ao Palácio do Setentrião já havia sido formalizada no dia 20 de julho em uma aliança local com PL, Podemos e Novo.
A ausência dele no lançamento de Caiado à Presidência explicita os profundos dilemas internos e a fragmentação dos palanques estaduais da sigla no momento em que a cúpula partidária tenta viabilizar uma alternativa de terceira via para o pleito de outubro. No encontro na capital paulista, a legenda confirmou uma chapa pura encabeçada pelo ex-governador goiano, tendo como candidato a vice-presidente o próprio presidente nacional do partido, Gilberto Kassab. Diante de militantes e dirigentes, Caiado discursou em tom de gravidade, apresentando a corrida ao Planalto como a eleição mais importante da história do país e buscando posicionar o partido como uma opção moderada e de gestão eficiente frente à forte polarização política que domina o cenário nacional.


O evento do PSD ocorreu sob o impacto direto do acirramento dos ânimos registrado na véspera, durante a convenção do PL que oficializou o lançamento da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O ato da sigla liberal foi marcado pela presença e pelas declarações inflamadas do presidente argentino Javier Milei, que direcionou ofensas diretas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes ao chamá-lo de “lixo careca”, episódio que elevou ainda mais a temperatura da disputa eleitoral e reforçou o tom de confronto ideológico da ala bolsonarista.

Enquanto a direção nacional do PSD tentava projetar unidade e equilíbrio institucional em São Paulo, Furlan concentrou suas forças na articulação política no Amapá para tentar conter os estragos causados por sua situação judicial. O afastamento determinado pela Suprema Corte impôs um duro golpe à sua densidade política e administrativa, obrigando o ex-prefeito a priorizar agendas de rua e negociações diretas com lideranças nos municípios para sustentar sua postulação ao governo estadual. A proximidade de Furlan com o bolsonarismo e sua coligação formal com o PL no estado ajudam a explicar seu distanciamento do projeto presencial de Caiado, evidenciando como os acordos regionais frequentemente atropelam e contradizem as diretrizes traçadas pela cúpula nacional dos partidos.

A aposta do PSD na capilaridade de sua estrutura partidária e na força de seus prefeitos pelo país para alavancar a candidatura presidencial esbarra, no entanto, em números ainda bastante tímidos nas pesquisas de intenção de voto. A sondagem mais recente realizada pelo instituto Datafolha indica que Ronaldo Caiado soma apenas 3% da preferência do eleitorado no primeiro turno. O cenário nacional continua amplamente liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que aparece com 41%, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), que contabiliza 31%. Nas projeções de segundo turno divulgadas pelo mesmo instituto no final do mês de junho, Lula sustenta 47% das intenções de voto contra 43% do candidato bolsonarista, evidenciando a margem estreita e polarizada da disputa.

A estratégia de isolamento de Furlan em relação ao evento de lançamento de Caiado reflete o pragmatismo de um candidato que luta pela própria sobrevivência política em meio a investigações criminais e ao desafio de construir uma maioria no eleitorado amapaense. Ao preferir o palanque local à convenção nacional na capital paulista, o ex-prefeito reforça a prioridade absoluta concedida à sua corrida ao governo estadual, mesmo que isso custe um gesto de descompromisso público com a direção nacional do PSD e exponha as fraturas de um partido que tenta se colocar como alternativa no cenário nacional.




