Governo Lula adota neutralidade estratégica na guerra da Ucrânia e evita condenação direta à Rússia
Entre a defesa da paz negociada e a dependência de fertilizantes russos, o Brasil mantém postura ambígua na guerra da Ucrânia, atraindo críticas do Ocidente ao questionar a expansão da OTAN

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
17/04/2026 | 13h20

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva consolidou, ao longo de seu mandato, uma postura de neutralidade estratégica ao evitar a condenação direta da Rússia pela invasão da Ucrânia e pelos constantes ataques de mísseis contra civis, priorizando, em Brasília e nos fóruns internacionais, a defesa de uma solução negociada para o conflito. A opção pelo distanciamento do alinhamento ocidental, em curso desde o início da guerra, fundamenta-se na tentativa de posicionar o Brasil como mediador neutro e na preservação de interesses econômicos vitais, como o abastecimento de fertilizantes russos para o agronegócio nacional.
Essa diretriz da diplomacia brasileira, embora complexa, reflete um pragmatismo que busca o que o Itamaraty classifica como “neutralidade ativa”. Ao contrário dos Estados Unidos e da União Europeia, que adotaram sanções severas e o envio massivo de armamentos a Kiev, o Palácio do Planalto sustenta que a paz não será alcançada através do isolamento de Moscou, mas sim por meio de um diálogo que inclua todas as partes envolvidas. Para Lula, o prolongamento do conflito e a consequente matança de civis ucranianos são alimentados, em parte, pela retórica belicista das potências ocidentais. O presidente brasileiro frequentemente argumenta que “quando um não quer, dois não brigam”, uma frase que, embora vista com ressalvas por diplomatas de carreira, resume a visão de que a responsabilidade pela guerra é compartilhada.

Essa diretriz da diplomacia brasileira, embora complexa, reflete um pragmatismo que busca o que o Itamaraty classifica como “neutralidade ativa”. Ao contrário dos Estados Unidos e da União Europeia, que adotaram sanções severas e o envio massivo de armamentos a Kiev, o Palácio do Planalto sustenta que a paz não será alcançada através do isolamento de Moscou, mas sim por meio de um diálogo que inclua todas as partes envolvidas. Para Lula, o prolongamento do conflito e a consequente matança de civis ucranianos são alimentados, em parte, pela retórica belicista das potências ocidentais. O presidente brasileiro frequentemente argumenta que “quando um não quer, dois não brigam”, uma frase que, embora vista com ressalvas por diplomatas de carreira, resume a visão de que a responsabilidade pela guerra é compartilhada.

No centro dessa estratégia está a proposta do “Grupo da Paz” ou “clube de países”, uma coalizão de nações do chamado Sul Global — como China e Índia — que não estão diretamente envolvidas na disputa geopolítica entre a OTAN e o Kremlin. O governo brasileiro acredita que apenas um bloco de nações sem interesses militares diretos na região possui a legitimidade necessária para sentar à mesa com Vladimir Putin e Volodymyr Zelensky. Entretanto, essa tentativa de mediação esbarra frequentemente na realidade dos ataques em solo ucraniano. Enquanto mísseis atingem infraestruturas civis e zonas residenciais, a insistência brasileira em não apontar um único culpado gera desconforto em Kiev e Washington, que interpretam o silêncio sobre a agressão russa como uma complacência tácita.

A relação com a Rússia, contudo, vai além da ideologia política ou do desejo de protagonismo internacional. Trata-se de uma dependência estrutural. A Rússia é o principal fornecedor de insumos químicos essenciais para a produtividade da soja e do milho brasileiros. Uma ruptura diplomática ou a adesão total às sanções econômicas ocidentais poderia desestabilizar o agronegócio, motor central do PIB nacional, e comprometer a segurança alimentar do país. Nesse cenário, o pragmatismo econômico muitas vezes dita o tom da retórica oficial, onde o Brasil vota na ONU pela preservação da integridade territorial da Ucrânia — respeitando a tradição de defesa da soberania — mas recusa-se a assinar declarações que personalizem a culpa em Putin.

Além disso, há um componente crítico à ordem mundial estabelecida. Lula e sua assessoria para assuntos internacionais, liderada por Celso Amorim, frequentemente apontam a expansão da OTAN em direção ao leste europeu como um erro histórico que provocou a reação russa. Em 2026, essa visão tornou-se ainda mais evidente quando o presidente sugeriu publicamente que a Ucrânia deveria considerar a cessão de territórios ocupados para encerrar as hostilidades. A declaração foi recebida como um balde de água fria pelo governo ucraniano, que luta para expulsar as tropas invasoras de suas fronteiras reconhecidas internacionalmente. Para o Brasil, a soberania territorial, embora sagrada nos manuais diplomáticos, parece ser ponderada diante do custo humano e econômico de uma guerra sem fim previsível.

Essa postura também está intrinsecamente ligada ao fortalecimento do BRICS. O bloco, que conta com a Rússia e a China, é visto pelo governo Lula como a principal ferramenta para o equilíbrio de forças global, reduzindo a dependência da hegemonia do dólar e das decisões tomadas exclusivamente em Washington ou Bruxelas. Ao evitar condenar a Rússia, o Brasil preserva sua influência dentro desse grupo, que representa uma parcela significativa da população e da economia mundial.

No entanto, o equilíbrio é tênue. A pressão internacional cresce à medida que as imagens da destruição em cidades ucranianas circulam pelo mundo. Críticos da política externa brasileira afirmam que a busca por um papel de mediador esvazia-se quando não há uma condenação clara de crimes de guerra e violações de direitos humanos. O Itamaraty rebate, afirmando que a posição brasileira é de “não condenar a Rússia, mas sim condenar a guerra”, uma distinção semântica que tenta salvar a face humanitária do Brasil sem queimar as pontes com Moscou. Assim, o Brasil segue em uma caminhada solitária na corda bamba diplomática, tentando provar que a neutralidade não é sinônimo de indiferença, mas sim um caminho alternativo para silenciar as armas.




