INTERNACIONAL

Guiana Inglesa oferece terras gratuitas para atrair produtores rurais brasileiros

A Guiana aposta em concessões de 99 anos e juros baixos para seduzir o agronegócio brasileiro, mirando a autossuficiência de grãos até 2030. No entanto, a falta de asfalto, a barreira do idioma e a ausência de processadoras retardam a adesão

Centro do poder em Georgetown, onde o governo planeja usar os dividendos do petróleo para financiar a revolução agrícola e atrair investidores brasileiros para transformar o perfil econômico da Guiana

DA REDAÇÃO
Com informações da Embaixada da Guiana Inglesa no Brasil
21/04/2026 | 17h04

Impulsionada pela bonança do petróleo, a Guiana Inglesa lançou uma ofensiva diplomática e econômica para atrair produtores rurais brasileiros com a promessa de transformar o país vizinho em um novo polo agrícola global. O governo guianense oferece terras gratuitas em regime de concessão por até 99 anos, isenção total de impostos sobre maquinário e produção, além de linhas de crédito com juros de 0,5% ao ano. A estratégia, desenhada em Georgetown, busca diversificar a economia local e reduzir a dependência de importações de alimentos, mirando o abastecimento do mercado caribenho, mas ainda enfrenta gargalos estruturais como a falta de asfalto, a barreira do idioma e a ausência de infraestrutura básica de processamento de grãos.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
ECOLOGIAECOLOGIA26 de julho de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

O cenário é de um contraste nítido entre a ambição política e a realidade do campo. De um lado, a Guiana ostenta um dos maiores crescimentos de PIB do mundo graças às reservas de petróleo em alto-mar; de outro, possui uma fronteira agrícola que remete ao Centro-Oeste brasileiro das décadas passadas. A meta estabelecida pelo ministro da Agricultura, Zulfikar Mustapha, é audaciosa: reduzir em 25% as compras externas de comida até 2030, posicionando o país como o celeiro da Comunidade do Caribe (Caricom), um bloco de 15 nações que hoje importa quase tudo o que consome.

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O principal ativo nessa negociação são as savanas, uma área de aproximadamente 300 mil hectares apta ao cultivo de soja e milho. Diferente de outras regiões amazônicas, essa faixa de terra permite a expansão do agronegócio sem pressão sobre a floresta nativa, que cobre 86% do território nacional. Para o produtor brasileiro, sufocado por custos de terra elevados e uma legislação ambiental rigorosa, o convite soa como uma oportunidade de recomeço em solo estrangeiro, onde o governo atua como um facilitador e não apenas como um fiscalizador.

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O paranaense Emílio Araújo é um dos rostos dessa migração. Com passagens por Rondônia e pelo Amazonas, ele decidiu atravessar a fronteira após enfrentar sucessivos entraves regulatórios e ambientais no Brasil. Na Guiana, encontrou o que descreve como “outro mundo”. Em apenas três safras, Araújo saltou de 500 para 4 mil hectares cultivados em parceria com um fazendeiro local. A facilidade para trabalhar, segundo ele, reside na desburocratização e na recepção calorosa ao capital estrangeiro, algo que compensa, ao menos em parte, o isolamento logístico.

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Contudo, a aventura guianense não é para amadores ou investidores descapitalizados. O país é o único da América do Sul onde se fala inglês, o que impõe uma barreira cultural imediata. Mais grave que o idioma é a falta de dados técnicos básicos: não existe um mapa georreferenciado das áreas agricultáveis e os registros pluviométricos são escassos, deixando o produtor à mercê da própria intuição sobre quando e onde plantar. Além disso, a espinha dorsal logística do país, a rodovia de 680 quilômetros que liga a cidade fronteiriça de Lethem à capital Georgetown, ainda possui 400 quilômetros de terra batida, com previsão de asfalto apenas para daqui a quatro anos.

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Essa precariedade gera um dilema de “ovo ou galinha” entre os empresários brasileiros. Sem tradings de grãos ou indústrias esmagadoras de soja instaladas no país, quem planta não tem para quem vender em larga escala. Por outro lado, as grandes empresas de processamento aguardam um volume de produção que justifique o investimento em fábricas. O empresário de transportes Pedro Thiago Acordi relata que muitos produtores de Roraima chegaram a ensaiar o movimento, mas recuaram ao perceber que não haveria mercado local para o farelo de soja, essencial para a produção de proteína animal.

Apesar das incertezas, o conselheiro do governo guianense, Richard Blair, minimiza o pessimismo. Ele argumenta que a estrutura de mercado surgirá naturalmente à medida que os primeiros pioneiros consolidarem a produção. Blair destaca que o governo está criando um banco de investimentos voltado exclusivamente para o fomento rural, oferecendo condições financeiras impensáveis no mercado brasileiro atual. O foco imediato é a autossuficiência na produção de frango, a carne mais consumida no Caribe, o que demanda uma oferta constante de milho e soja para ração.

A oportunidade também se estende ao mercado halal, voltado ao consumo islâmico. Com quase 10% da população seguindo o islamismo, a Guiana enxerga na pecuária industrial uma chance de exportar carne com valor agregado para o Oriente Médio, utilizando sua localização estratégica na costa atlântica. O uso de rios, como o Berbice, para o transporte de insumos vindos do Egito e da Rússia, já é uma realidade na fazenda de Emílio Araújo, embora o assoreamento dos leitos ainda limite o transporte a pequenas barcaças.

A percepção entre as lideranças do setor no Brasil é de cautela otimista. O ex-ministro da Agricultura Antonio Cabrera, que recentemente liderou uma comitiva de produtores ao país, define o momento atual como uma “expedição exploratória”. Para ele, as dificuldades de infraestrutura de hoje são o que garante o preço baixo e as vantagens competitivas de amanhã. Há quem já esteja convencido, como o pecuarista Alair Gonçalves, que planeja retornar com propostas para café e fruticultura, oferecendo-se inclusive para ajudar no mapeamento técnico das terras.


Em última análise, a Guiana tenta usar sua súbita riqueza petrolífera para pular etapas de desenvolvimento. O convite aos brasileiros é, na verdade, um pedido de transferência de tecnologia e “know-how” para um país que tem pressa em deixar de comer o que vem de fora. A terra está lá, o dinheiro do petróleo também, mas a transformação da savana em um mar de grãos ainda depende da coragem de quem está disposto a desbravar uma fronteira onde o mapa ainda está sendo desenhado.

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