PETRÓLEO

Cidades litorâneas enfrentam redistribuição de royalties após governo federal atualizar critérios técnicos para terminais aquaviários

Medida atualiza regras em vigor há mais de duas décadas, inclui instalações ligadas a estruturas marítimas e estabelece trava técnica contra repasses sobrepostos, desafiando a gestão fiscal de municípios costeiros que contam com a verba do petróleo no dia a dia

Unidade marítima da Petrobras realiza a exploração de hidrocarbonetos em águas profundas; o volume escoado por dutos e terminais define o volume de royalties distribuídos a prefeituras e governos estaduais — Imagem: Divulgação/Petrobras

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
03/09/2026 | 12h13

A Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicou nesta quinta-feira (28) a Resolução nº 1.007/2026, alterando as diretrizes de distribuição de royalties de petróleo e gás para municípios que abrigam ou fazem fronteira com terminais aquaviários. A medida, aprovada pela diretoria do órgão na véspera, tem efeito retroativo a 1º de julho de 2026 e reconfigura um tabuleiro orçamentário bilionário no litoral brasileiro ao incluir formalmente os terminais terrestres e fluviais como instalações de embarque e desembarque, desde que conectados diretamente a estruturas marítimas. A revisão atende ao Decreto federal nº 12.849/2026 e busca pacificar disputas fiscais históricas, introduzindo travas técnicas para evitar a duplicidade de pagamentos sobre o mesmo volume de óleo movimentado.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Nas cidades costeiras, o impacto dessa engenharia regulatória não é abstrato: traduz-se no custeio de postos de saúde, reformas de escolas e obras contra desmoronamentos. Em São Sebastião, no litoral norte paulista, onde opera o maior terminal aquaviário do país (Tebar), a dona de casa Maria de Lourdes Santos, 54, acompanha a movimentação das petroleiras da janela de sua casa. O sustento de sua família e o atendimento médico especializado que o filho recebe dependem diretamente de serviços públicos financiados pela renda do petróleo. O município arrecadou mais de R$ 368 milhões em compensações financeiras no último ano, recurso que dita o ritmo da economia local.

A nova resolução reformula a histórica Portaria Técnica ANP nº 29/2001, que há mais de duas décadas regia a partilha dos recursos aos entes federativos vizinhos a monoboias, píeres e dutos. A mudança regulatória decorre do Decreto nº 12.849/2026, assinado pela Presidência da República para modernizar o Decreto nº 1/1991, cuja redação original remetia a um mercado pré-abertura da exploração de óleo e gás no Brasil.

O ponto nevrálgico da atualização reside na eliminação da bitributação compensatória. Até então, administrações municipais travavam batalhas judiciais claiming duplicidade: questionava-se se a carga que transitava entre uma monoboia ancorada em alto-mar e as tubulações em terra firme gerava direito de compensação em dobro. Para sanar o vácuo, a ANP determinou que o volume movimentado não pode ser computado simultaneamente no terminal aquaviário e na estrutura offshore interligada. A fórmula adotada estabelece uma divisão de 50% da movimentação para a instalação marítima e 50% para o terminal terrestre, equalizando a zona de influência e conferindo simetria contábil ao escoamento da produção dos blocos do pré-sal nas bacias de Santos e de Campos.

Especialistas em finanças públicas apontam que o rearranjo trará alívio a municípios que antes ficavam de fora do rateio primário, mas exigirá austeridade de gestões que contavam com verbas infladas por interpretações judiciais provisórias. O economista e pesquisador em energia Carlos Alberto Brandão, da Fundação Getulio Vargas (FGV), avalia que a resolução era urgente para dar previsibilidade orçamentária aos estados e prefeituras. O especialista observa que cidades litorâneas habituaram-se a vincular despesas correntes aos royalties e que qualquer oscilação repentina compromete a prestação de serviços básicos às populações mais vulneráveis.

Prefeitos e procuradorias municipais de polos litorâneos reagiram com cautela. Representantes da Associação Brasileira de Municípios Portuários (ABMP) informaram que analisam as projeções de receitas para avaliar o saldo financeiro da trava técnica, alertando que eventuais perdas abruptas em cidades com terminais antigos podem estrangular investimentos contratados.

A controvérsia em torno dessas compensações remonta aos anos 1990, quando a exploração marítima começou a exigir complexas redes de dutos subaquáticos e estações de armazenamento em terra. Ao longo dos anos, com a escalada da produção nacional — que hoje ultrapassa a média de 3 milhões de barris diários —, a falta de clareza conceitual transformou a ANP e os tribunais superiores em árbitros de disputas fratricidas entre prefeituras vizinhas, como as registradas entre Ilhabela e São Sebastião, além de cidades na costa fluminense.

CLIQUE NO BANNER

Nos bairros periféricos que convivem diariamente com o trânsito de caminhões-tanque e o risco inerente de vazamentos, a expectativa é de que o pacto técnico se converta em retorno tangível. Entre a sofisticação das contas fiscais em Brasília e o asfalto das cidades costeiras, os royalties deixam de ser uma abstração contábil para se confirmar como a principal salvaguarda de comunidades moldadas pela indústria dos hidrocarbonetos.


DEIXE SEU COMENTÁRIO

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.