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Abismo entre sociedade e STF aumenta com 60% das pessoas insatisfeitas com a Suprema Corte

Imparcialidade em xeque: para a maioria dos brasileiros, o STF falha em isenção e competência

O favorito e o rejeitado: André Mendonça lidera aprovação enquanto Dias Toffoli enfrenta 81% de imagem negativa — Imagem: ArteAVA


A desconfiança dos brasileiros em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF) atingiu um novo patamar crítico neste mês de março. Segundo pesquisa do instituto AtlasIntel divulgada na sexta-feira (20), 60% da população afirma não confiar no trabalho e nos ministros da Corte, um salto de nove pontos percentuais em comparação ao levantamento de agosto do ano passado. O estudo, que ouviu 2.090 pessoas entre os dias 16 e 19 de março por meio de recrutamento digital, revela um cenário de polarização e desgaste da imagem institucional, onde a percepção de falta de imparcialidade e competência dos magistrados agora é compartilhada pela maioria absoluta dos entrevistados, refletindo um abismo crescente entre a cúpula do Judiciário e a sociedade civil.


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O aumento da rejeição ocorre em um período de intensa exposição do tribunal em julgamentos de forte apelo político e social. De acordo com os dados, apenas 34% dos brasileiros mantêm a confiança na Suprema Corte, enquanto 6% não souberam opinar. A margem de erro do levantamento é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o que consolida o STF em uma zona de desaprovação que ultrapassa a barreira técnica da estabilidade. O sentimento de descrédito não se limita à confiança abstrata, mas se estende ao desempenho técnico: para 59,5% dos participantes, os ministros não demonstram competência nem imparcialidade em suas decisões recentes, um veredito severo sobre a atuação jurídica da casa.

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A análise individual dos magistrados oferece um mapa detalhado das preferências e rejeições que regem a opinião pública. No topo do ranking de aprovação surge o ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Mendonça é o único membro do tribunal a gozar de uma imagem positiva superior à negativa entre os entrevistados, com 43% de avaliações favoráveis contra 36% de desaprovação. O perfil conservador e a postura discreta em temas de alta voltagem política parecem ter blindado o magistrado frente ao desgaste generalizado que atinge seus colegas.

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Logo atrás de Mendonça, Flávio Dino, o mais recente integrante a chegar à Corte por indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aparece com 40% de imagem positiva. O dado sugere que a memória de sua atuação política recente como ministro da Justiça ainda reverbera em sua base de apoio, embora a resistência a seu nome também seja expressiva. A ministra Cármen Lúcia, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ocupa o terceiro lugar no escalão de prestígio, com 39% de aprovação, mas enfrenta uma rejeição de 54%, o que ilustra como até as figuras consideradas mais técnicas da Corte estão sob o crivo de uma opinião pública cada vez mais cética.

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No extremo oposto da tabela, o ministro Dias Toffoli personifica a face mais aguda da crise de imagem do Supremo. Toffoli detém a maior rejeição entre os 11 magistrados, com impressionantes 81% de avaliações negativas. Apenas 9% dos entrevistados aprovam sua atuação. Esse índice de reprovação recorde pode ser atribuído a decisões monocráticas recentes e polêmicas que anularam provas e multas de grandes acordos de leniência da Operação Lava Jato, movimentos que geraram intensos debates sobre impunidade e segurança jurídica no país.

A metodologia de Recrutamento Digital Aleatório (RDR) utilizada pela AtlasIntel permite captar uma amostra diversificada da população conectada, refletindo o pulso das redes e das conversas digitais. Com um nível de confiança de 95%, a pesquisa evidencia que o STF deixou de ser um órgão de consulta técnica para se tornar um protagonista desgastado na arena pública. O aumento da desconfiança em quase 10% em um intervalo de menos de um ano indica que as tentativas de interlocução da Corte com a sociedade ou os esforços de comunicação institucional não têm surtido o efeito esperado para conter a erosão da autoridade moral do tribunal.

O debate sobre a imparcialidade, ponto sensível tocado pelo levantamento, toca no cerne da crise. Quando quase 60% da população afirma que não enxerga isenção nos julgamentos, o tribunal passa a ser visto não como um árbitro neutro da Constituição, mas como um ator político com interesses próprios. Esse fenômeno é alimentado pela crescente judicialização da política, onde temas que deveriam ser resolvidos no Legislativo acabam sob a caneta dos ministros, expondo-os a críticas de ambos os lados do espectro ideológico.

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O cenário desenhado pela AtlasIntel impõe um desafio de sobrevivência institucional para o STF. A alta na desconfiança coincide com discussões no Congresso Nacional sobre a limitação de mandatos para ministros e o fim das decisões monocráticas, pautas que ganham força na esteira da impopularidade demonstrada nos números. Enquanto alguns magistrados conseguem manter ilhas de aprovação em nichos específicos, o tribunal como corpo coletivo enfrenta uma tempestade de legitimidade que parece longe de dissipar.


A fotografia do momento é clara: o brasileiro está olhando para Brasília e, em sua maioria, não se sente representado pela toga. Seja pela velocidade das decisões, pelo teor político dos votos ou pelas alianças de quem os indicou, os ministros do Supremo iniciam este outono sob uma pressão popular inédita, onde a maior das penas não vem de um processo judicial, mas do julgamento implacável da opinião pública.

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