RELIGIÃO

Macapá (AP) — Domingo, 01 de março de 2026


Partido Comunista Chinês intensifica controle sobre a religião sob governo do ditador Xi Jinping

Através de uma manobra legislativa, a ditadura de Xi Jinping reclassificou práticas cristãs comuns como ‘atividades ilícitas’ ou ‘ameaças à segurança nacional’, criminalizando a fé independente

Religiosos oram do lado de fora da Catedral de Xishiku após assistirem à missa no dia de Natal em Pequim, China — Foto: EPA/HOW HWEE YOUNG/ARQUIVO


O relatório anual da organização China Aid, referente aos desdobramentos observados até o início de 2026, expõe uma metamorfose profunda e sombria na forma como o Partido Comunista Chinês (PCC) interage com a fé cristã. O que antes era uma política de contenção baseada na manutenção da estabilidade social evoluiu para uma engenharia de reestruturação institucional agressiva, visando a absorção total da vida religiosa pelo aparato estatal. Sob a governança de Xi Jinping, o regime não se limita mais a monitorar as igrejas; ele busca ativamente redesenhar a doutrina, a organização e a existência cotidiana dos fiéis, utilizando um sistema de repressão altamente institucionalizado que mescla opressão jurídica, vigilância tecnológica de ponta e uma doutrinação ideológica sem precedentes. Este novo paradigma, detalhado no documento, revela que a liberdade religiosa na China não está apenas sendo cerceada, mas sim sistematicamente substituída por uma “religião com características chinesas” que serve prioritariamente aos interesses de sobrevivência e hegemonia do Partido.

A espinha dorsal dessa transformação reside em uma reestruturação legislativa minuciosa que, ao longo da última década, transformou o cotidiano da fé em um campo minado jurídico. Atividades que historicamente eram consideradas práticas comuns da vida eclesiástica, como reuniões de oração em lares ou o ensino bíblico para jovens, foram reclassificadas sob rótulos criminais graves. O regime passou a tipificar reuniões não autorizadas como “ajuntamentos ilícitos” ou, em casos mais severos, como atos que “colocam em risco a segurança nacional”.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Emanoel Reis

Corte chinesa mantém condenações de líderes cristãos

A repressão estatal no Sul da China ganhou contornos dramáticos com a detenção de cinco líderes cristãos e seus familiares em 2023. O grupo, que inclui três membros de uma mesma família (Jiang, Fei e Zhen), enfrentou mais de três meses de cárcere e pesadas sanções financeiras. Enquanto quatro deles foram multados em 5 mil yuans por “atividades religiosas ilegais”, um dos líderes recebeu uma multa punitiva de 300 mil yuans, acusado de manter uma instituição de ensino não autorizada.
A ofensiva não se limitou às prisões: autoridades do Ministério de Assuntos Religiosos realizaram varreduras no local de encontro e em duas escolas próximas, confiscando mobília e vasta literatura. Apesar das tentativas de recurso, a Corte chinesa manteve as condenações, e o paradeiro atual dos líderes permanece incerto, deixando parceiros locais em alerta sobre a continuidade de suas detenções.

Entre os detidos estão três membros da mesma família (Jiang, Fei e Zhen) e dois líderes de outras famílias

Essa manobra legal permite que o Estado utilize o peso do Código Penal contra pastores e leigos, tratando a dissidência teológica ou a autonomia organizacional como traição à pátria. A rede de controle é sustentada por um emaranhado de normas que inclui o Regulamento sobre Assuntos Religiosos e as Medidas para a Administração de Serviços de Informação Religiosa na Internet, criando uma teia onde qualquer movimento fora do script estatal resulta em infração administrativa ou prisão.

Declarações consideradas “ambíguas” durante uma pregação podem ser prontamente classificadas como “heréticas” ou “extremistas”. O relatório da China Aid destaca que, em muitas províncias, a educação teológica tradicional foi suplantada por diretrizes administrativas. Seminários e institutos de formação agora funcionam sob a égide do Movimento Patriótico das Três Autonomias, onde pastores em formação devem ser aprovados em “avaliações de pensamento” que testam sua lealdade ao PCC antes de sua compreensão teológica.

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A pressão sobre as chamadas igrejas domésticas — comunidades que se recusam a submeter-se ao controle estatal — tornou-se asfixiante. Estas instituições enfrentam um dilema existencial: a dissolução forçada, a clandestinidade perigosa ou a rendição ao Movimento Patriótico. O regime intensificou a tática de isolamento, cortando os laços destas comunidades com o corpo global da Igreja.

Esse isolamento visa criar uma câmara de eco nacionalista onde a única voz autorizada é a do regime, impedindo que a solidariedade internacional ofereça qualquer alento aos cristãos perseguidos. Em 2025 e no início de 2026, esse bloqueio tornou-se quase absoluto, transformando a China em uma ilha de informação religiosa controlada.

A tecnologia emerge como o pilar mais moderno e eficiente desta repressão. A China implementou sistemas de aprovação digital para praticamente todos os aspectos da vida religiosa. Desde o pedido para realizar um culto até a nomeação de um novo diácono, tudo passa por plataformas onde o registro com nome real é obrigatório. O uso de reconhecimento facial nas entradas dos templos autorizados e o rastreamento via Big Data permitem ao regime saber exatamente quem frequenta as reuniões, com que frequência e quais são suas conexões sociais. Essa vigilância digital não se restringe ao espaço físico da igreja; ela se estende à internet, onde algoritmos de censura rastreiam palavras-chave em aplicativos de mensagens e redes sociais, punindo qualquer tentativa de disseminação da fé que não tenha passado pelo crivo prévio do censor estatal. A privacidade, para o cristão chinês, tornou-se um conceito obsoleto.

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Fora das quatro paredes dos locais de culto, a perseguição assume uma face social e econômica. O relatório descreve como o envolvimento em atividades religiosas não autorizadas pode levar a retaliações no emprego, na escola e na universidade. Fiéis são pressionados a renunciar às suas crenças sob pena de perderem promoções ou serem expulsos de instituições de ensino. O sistema de crédito social chinês, alimentado pela vigilância constante, pune a “desobediência religiosa” com restrições de viagem e acesso a serviços públicos. O objetivo é tornar o custo de seguir a Cristo de forma independente tão alto que apenas os mais resilientes ousem continuar. Essa abordagem holística de controle garante que, mesmo que o cristão não seja preso, ele viva em um estado de “prisão aberta”, onde cada escolha é monitorada e cada ato de fé pode resultar em ruína financeira ou social.

Cartazes com slogans do Partido e fotos do líder nacional são integrados à decoração litúrgica, forçando uma fusão visual entre a devoção a Deus e a lealdade ao Estado. Esta “politização dos púlpitos” visa garantir que a mensagem transmitida aos fiéis seja, em última instância, uma mensagem de conformidade política. O relatório da China Aid sugere que o regime busca criar uma geração de cristãos cuja identidade religiosa seja secundária à sua identidade como súditos do Partido, esvaziando o cristianismo de seu poder transformador e crítico para torná-lo uma ferramenta de coesão social sob o comando autoritário.

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A resposta das comunidades cristãs a esse cerco tem sido de uma resistência silenciosa e adaptativa, mas o custo humano é devastador. Grupos que tentam preservar sua autonomia organizacional são frequentemente “retificados” — um eufemismo estatal para o desmantelamento forçado de lideranças e a confiscação de propriedades. A “segurança nacional” tornou-se a justificativa guarda-chuva para qualquer ato de repressão, permitindo que o regime contorne até mesmo as proteções superficiais da própria constituição chinesa. Com o controle total sobre as publicações e a circulação de Bíblias — agora restrita e muitas vezes editada para refletir valores socialistas —, o regime tenta controlar não apenas o presente, mas o futuro da fé no país, privando as novas gerações de acesso a fontes teológicas independentes.


O documento conclui que o cenário em 2026 aponta para uma consolidação definitiva deste modelo de “governança religiosa totalitária”. A China não deseja erradicar a religião, pois entende seu potencial de influência; em vez disso, deseja possuí-la. Ao fundir tecnologia de vigilância com leis draconianas e uma ideologia nacionalista, o regime chinês estabeleceu um padrão que desafia a comunidade internacional e coloca em risco a própria essência da liberdade de consciência. Para os milhões de cristãos que ainda buscam exercer sua fé livremente, o horizonte é de uma clandestinidade cada vez mais profunda, em um ambiente onde o olhar do “Big Brother” digital e a mão pesada da burocracia do PCC estão presentes em cada oração e em cada encontro. A reestruturação das instituições não é apenas uma reforma administrativa; é um cerco final à autonomia da alma humana diante do poder absoluto do Estado.

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