RELIGIÃO

Supremo Concílio presbiteriano condena e recomenda afastamento do movimento Legendários

Documento aprovado em Manaus aponta que práticas de resistência física e exaustão emocional promovem elitismo espiritual, geram divisões nas comunidades locais e enfraquecem o estudo das Escrituras e sacramentos

Homens do movimento Legendários se reúnem na floresta, equipados e prontos para uma jornada de 72 horas de desafio físico, imersão na natureza e reflexão espiritual em busca de transformação — Imagem: Divulgação

DA REDAÇÃO
Macapá, AP
10/08/2026 | 13h12

O Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), reunião máxima de deliberação da denominação realizada em Manaus, aprovou uma orientação recomendando que seus cerca de 650 mil fiéis e lideranças locais abstenham-se de participar e apoiar o movimento Legendários. A resolução, formulada a partir do parecer da comissão teológica da igreja após meses de divergências internas, visa conter a rápida expansão de um modelo de espiritualidade masculina focado em desafios físicos extremos e forte apelo emocional, o qual, segundo os delegados presbiterianos, contraria a tradição bíblica e teológica da denominação reformada.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

No documento oficial aprovado no encontro, a IPB aponta que as estratégias do grupo submetem o ensino doutrinário a métodos pragmáticos voltados ao impacto psicológico individual. A avaliação eclesial criticou severamente o sigilo que envolve as dinâmicas do movimento — em que os participantes são orientados a não revelar os detalhes das imersões na natureza —, o uso de uniformes padronizados, a exigência de juramentos e a cobrança de taxas de inscrição que podem ultrapassar R$ 1.500 por final de semana. Para os teólogos da denominação, esses mecanismos alimentam uma mercantilização da fé e criam uma estrutura paralela de liderança que enfraquece a vida em comunidade e a autoridade dos presbitérios locais.

Criado em 2015 na Guatemala pelo pastor Chepe Putzu, o movimento Legendários espalhou-se por mais de uma dezena de países da América Latina e pelos Estados Unidos, arregimentando dezenas de milhares de homens em buscas espirituais apelidadas de “Reto Escalada” (REC). Durante 72 horas no mato, isolados de telefones celulares, relógios e de qualquer contato com o mundo externo, os integrantes enfrentam marchas noturnas, privação de sono e rotinas de esforço físico desenhadas para quebrar resistências emocionais. Essa metodologia, inspirada em dinâmicas de treinamentos corporativos de alto desempenho e acampamentos de estilo militar, transformou-se em uma franquia de forte presença nas redes sociais, atraindo homens evangélicos de diversas correntes.

Entretanto, a rápida adesão provocou fissuras silenciosas em congregações locais. O publicitário e ex-membro presbiteriano Carlos Eduardo Ramos, 42, participou de uma das edições do retiro em 2023 incentivado por amigos da própria igreja. “No topo da montanha, a carga de exaustão e o choro coletivo criam um vínculo instantâneo e quase hipnótico entre os homens, mas quando você volta para a rotina diária da igreja local, o culto tradicional parece monótono e sem vida”, relata. Ramos conta que o sigilo exigido gerou atritos dentro de sua própria casa: “Minha esposa não podia saber o que acontecia lá dentro, o que criou um clima de desconfiança injustificado. Quando comecei a questionar a falta de fundamentação bíblica das dinâmicas, fui rotulado por outros participantes como alguém sem fibra.”

Para a socióloga e pesquisadora de movimentos religiosos Helena Medeiros, o fenômeno do Legendários responde a uma crise contemporânea da masculinidade dentro do ecossistema evangélico, mas impõe riscos organizacionais. “Muitos homens urbanos encontram no esforço físico extremo e no companheirismo masculino uma válvula de escape para o estresse e uma reafirmação de papéis tradicionais de provedor e protetor. No entanto, ao substituir a instrução bíblica racional por um choque emotivo contínuo e rituais iniciáticos fechados, esses movimentos tendem a gerar dependência psicológica e elitismo espiritual, dividindo os fiéis entre ‘os que subiram a montanha’ e os ‘comuns'”, analisa a especialista.

Documentos internos de comissões de ética pastoral revelam que, além das incompatibilidades doutrinárias, o Supremo Concílio manifestou apreensão com o impacto financeiro e institucional. O fluxo de recursos direcionado a taxas de inscrição, vestuário especializado e viagens para os retiros vinha rivalizando com os dízimos e ofertas destinados a obras sociais e de evangelização das próprias congregações. A resolução presbiteriana enfatiza que a fé reformada histórico-protestante repudia o uso de juramentos secretos ou símbolos de exclusividade que firam a transparência dos sacramentos e a clareza do evangelho.

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Em nota oficial emitida após a deliberação, a direção do movimento Legendários declarou receber a manifestação da IPB com “profundo respeito e serenidade”. O grupo ressaltou que sua missão é fortalecer a figura masculina no ambiente familiar e eclesial, sem a intenção de substituir a autoridade das igrejas locais. A organização pontuou ainda que o parecer da denominação possui caráter recomendatório, e não proibitivo, deixando a decisão final a cargo do discernimento autônomo de cada pastor e conselho local. Enquanto a liderança presbiteriana busca blindar suas comunidades contra influências externas, nos bastidores das congregações a medida reacende um debate secular sobre as fronteiras entre a ortodoxia doutrinária e as novas linguagens de engajamento da fé no século 21.

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