Centro de Convenções da Assembleia de Deus no foco de crises: o contraste entre fé e negócios
Enquanto tenta resolver a maior crise recente da igreja, líder da congregação religiosa anuncia culto de desagravo

O Centro de Convenções Centenário, patrimônio da Assembleia de Deus em Belém, novamente se encontra no epicentro de uma controvérsia que coloca lado a lado a administração da fé e o pragmatismo dos negócios. À frente da instituição, o pastor Samuel Câmara, presidente da Assembleia de Deus no Pará, protagoniza dois episódios de cessão do espaço ao governo estadual que, em um intervalo de quatro anos, ressoaram como um déjà-vu na comunidade evangélica e na opinião pública. A sabedoria popular, em sua versão adaptada, sugere que conceder uma “segunda bala” pode ser um erro, mas para Câmara, a repetição da estratégia de aliança com o poder público resultou em crises de proporções semelhantes.

O primeiro capítulo ocorreu em 2020, em meio ao colapso sanitário da Covid-19. Em um gesto aparentemente de responsabilidade social, o Centro de Convenções foi entregue para sediar um hospital de campanha. A “boa causa” até serviu como escudo moral contra os primeiros ruídos de estranhamento, mas o argumento perdeu força quando a unidade de saúde sequer chegou a abrir as portas, embora os repasses mensais do governo tenham continuado a pingar na conta da igreja.

Quatro anos depois, a cena se repete com a cessão do mesmo espaço, agora para abrigar eventos da COP30, sob um contrato de R$ 2 milhões. O ruído, no entanto, veio amplificado. A transformação do Centro de Convenções em arena para manifestações “mundanas” durante o evento global de clima caiu mal entre fiéis, lideranças e curiosos. O desconforto varreu a Assembleia de Deus – que congrega mais de 500 templos – e atravessou outras denominações, ganhando tração nas redes sociais, onde a indignação superou o barulho das “trombetas de Jericó”.

Embora o termo “vendilhão do templo” não tenha sido usado publicamente, o tom das críticas é inequivocamente terreno: negócio é negócio. Enquanto um pastor de linha auxiliar tentou dourar a pílula, classificando a cessão como “cortesia” em troca de espaços já cedidos à denominação pelo governo, o argumento esbarrou na vultosa quantia desta vez envolvida.
A irritação, que não é puramente doutrinária, revela uma cisão de gestão. Pastores de segundo e terceiro escalão, preocupados com a imagem pública da igreja, reclamam nos bastidores da falta de informação e consulta sobre o acordo milionário. A avaliação é que a autonomia do presidente Samuel Câmara extrapolou o razoável, expondo a igreja a um desgaste previsível e evitável. Há ainda o temor crescente de que a crise reacenda velhas fissuras internas: a disputa de influência entre setores mais conservadores, o desconforto com decisões centralizadas e a incômoda lembrança de episódios passados envolvendo familiares de Câmara, incluindo o fantasma do caso INSS, que paira como sombra recorrente.

Diante do cenário, e sem perguntas formais ou respostas formais para as redes sociais que o incomodam, o pastor Samuel Câmara quebrou o silêncio em um culto matinal no Templo Central. Dirigiu-se aos fiéis, dizendo-se “julgado precipitadamente”, alegou viver uma vida simples e frugal, e atribuiu a enxurrada de críticas a “ações demoníacas” e a adversários tradicionais. Ele afirmou que não daria explicações, mas, em um gesto de cálculo político, convocou para esta terça-feira um grande culto de desagravo, conclamando os fiéis a testemunharem sua inocência e a unidade da igreja. No balanço entre a convicção e o cálculo, o presidente falou, mas preservou o essencial: o silêncio sobre o contrato, os valores, os critérios e os motivos. A crise continua a ser administrada sob a base da fé – e, como se sabe, a fé raramente exige recibo.




