Justiça fica sobrecarregada com milhares de processos abertos por políticos para intimidar jornalistas

Uso abusivo do sistema jurídico para silenciar denúncias de corrupção cresce no país, pressiona defensores de direitos humanos e expõe a urgência de mecanismos legais que barrem a litigância predatória



A multiplicação de processos judiciais contra jornalistas e ativistas no Brasil, motivada por poderosos que buscam silenciar denúncias e manter privilégios, levou a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) a registrar o recorde de 784 ações de assédio judicial em seu monitor anual de 2025. O fenômeno, conhecido internacionalmente pela sigla SLAPP (Strategic Lawsuits Against Public Participation), consiste no uso abusivo do sistema de Justiça para estrangular financeiramente e desgastar emocionalmente quem investiga desvios de recursos públicos e corrupção. A escalada dessa prática no país ocorre em um momento de fragilidade global, em que o relatório mais recente da organização Repórteres Sem Fronteiras aponta que a liberdade de imprensa atingiu o pior nível em 25 anos, deixando o ecossistema de informação em uma situação classificada como sensível.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Emanoel Reis, Macapá – AP

A técnica do SLAPP se apoia em uma nítida assimetria de poder e na ausência de mérito jurídico, com petições baseadas em alegações genéricas de danos morais e pedidos de indenização desproporcionais. Um caso emblemático dessa pressão financeira ocorreu com o jornalista Rubens Valente, condenado a pagar R$ 310 mil ao ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes devido a informações publicadas no livro “Operação Banqueiro”. Para quitar a dívida e não ser silenciado, o profissional precisou recorrer a uma vaquinha virtual. “O objetivo principal dessas ações quase nunca é vencer a causa no tribunal, mas impor um custo tão alto ao réu que trabalhar se torne inviável”, afirma um especialista em direito à informação.

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Além do sufocamento financeiro, a pulverização geográfica de processos idênticos é utilizada para inviabilizar a defesa das vítimas. Em 2020, o escritor João Paulo Cuenca enfrentou 144 ações abertas pela Igreja Universal do Reino de Deus em 19 estados diferentes após publicar postagens críticas nas redes sociais. A mesma estratégia já havia sido aplicada pela congregação em 2007 contra a jornalista Elvira Lobato, da Folha de São Paulo, que teve de responder a 111 processos simultâneos. Para mitigar esse deslocamento predatório, o Supremo Tribunal Federal fixou o entendimento de que o réu pode centralizar todas as ações no foro de seu próprio domicílio, uma decisão que trouxe alívio processual, mas não freou a intenção de intimidar.

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Organizações técnicas que monitoram a corrupção também entraram na mira do assédio institucional. A Transparência Internacional – Brasil enfrenta desde 2019 uma campanha sistemática de desinformação, investigações infundadas e processos administrativos. Em março, o ministro Dias Toffoli arquivou uma investigação contra a entidade baseada em premissas falsas, após forte pressão de organismos internacionais como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Esses ataques constantes constroem narrativas falsas para minar a credibilidade de quem fiscaliza o poder público, utilizando perícias e pedidos de sigilo para atrapalhar a coleta de evidências de crimes financeiros.

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As consequências desse cenário ultrapassam o prejuízo individual dos profissionais envolvidos e atingem o direito de toda a sociedade à informação. O temor de enfrentar litígios longos e caros gera o chamado chilling effect, ou efeito inibidor, que empurra veículos de comunicação e defensores de direitos humanos para a autocensura. Quando uma instituição respeitada é alvo de um processo descabido, o mercado recebe um aviso informal para que determinados temas ou parlamentares não sejam investigados. Com isso, esquemas de corrupção deixam de vir a público, fiscalizações são interrompidas e o prejuízo ao erário prossegue sem controle.

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O uso do aparato judicial para perseguições políticas provoca ainda um grave dano à eficiência do próprio Estado. Comarcas e varas de todo o país ficam sobrecarregadas com milhares de processos repetitivos e de má-fé, consumindo tempo e recursos que deveriam ser destinados a demandas legítimas da população. A máquina pública é instrumentalizada para defender interesses mesquinhos de grupos políticos e econômicos, afastando os órgãos de controle de suas funções essenciais de prevenção de crimes e auditoria de contratos.

Diante do crescimento do assédio, entidades como a Abraji, a Transparência Internacional e a Associação Brasileira de Imprensa cobram a criação de uma legislação anti-SLAPP no Brasil. Embora o país tenha subido 11 posições no ranking da Repórteres Sem Fronteiras, ocupando o 52º lugar entre 180 nações, o ecossistema nacional ainda carece de políticas públicas de proteção. Em 2024, a Europa avançou significativamente com a aprovação da “Lei Daphne”, uma diretriz que pune quem abusa do sistema de Justiça e impõe a extinção rápida de processos predatórios. No mesmo período, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, comprometeu-se publicamente a pautar uma proposta semelhante no Congresso brasileiro, mas o texto não avançou nas comissões.


A última tentativa de frear a litigância predatória partiu do Conselho Nacional de Justiça, que aprovou recomendações formais para que magistrados identifiquem e repilam ações abusivas em seus tribunais. A iniciativa é vista como um passo importante para capacitar juízes e criar redes de apoio jurídico, mas especialistas alertam que tais medidas regulatórias não substituem a necessidade de uma lei federal robusta. Garantir a liberdade de expressão e proteger o livre debate sobre políticas públicas é indispensável para que o jornalismo continue cumprindo seu papel de expor ilegalidades e combater a impunidade.


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