Parte do eleitorado de Macapá ignora operações da Polícia Federal e mantém preferência por Antônio Furlan

Grande maioria dos eleitores macapaenses rejeita relatórios de corrupção da PF contra o pré-candidato do PSD, alegando que as denúncias sobre obras de hospital são forjadas para prejudicar sua trajetória



Nos bastidores da política amapaense, um fenômeno intrigante começa a ganhar contornos oficiais: a aparente imunidade de certas lideranças políticas frente a graves investigações policiais. Um levantamento inédito realizado pelo portal AMAZÔNIA VIA AMAPÁ entre os dias 5 e 6 de junho revelou que 84,7% dos eleitores de Macapá pretendem votar no ex-prefeito Antônio Furlan (PSD) para o governo do estado, ignorando seu recente afastamento do cargo determinado pelo Supremo Tribunal Federal por suspeitas de corrupção. O dado descortina uma realidade que até então era debatida apenas nos bastidores e em conversas informais, mostrando que o eleitorado macapaense mantém uma forte preferência por candidatos com históricos de malfeitorias investigadas e comprovadas pela Polícia Federal, sob a justificativa quase unânime de que tais operações não passam de perseguição política para minar trajetórias promissoras.

CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

Essa tendência de conceder uma espécie de salvo-conduto nas urnas a políticos sob a mira da Justiça não é uma novidade na região. O cenário atual repete o fenômeno observado nas eleições de 2014, quando o ex-governador Waldez Góes, atual ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, foi reconduzido ao Palácio do Setentrião mesmo após ter sido preso anos antes em uma grande operação da Polícia Federal. Agora, a história se repete com Furlan, que foi afastado do comando da capital em março deste ano por decisão do ministro Flávio Dino. A decisão judicial baseou-se em investigações que apontam o suposto envolvimento do ex-prefeito em um megaesquema de desvio de recursos públicos que deveriam ser aplicados na construção do hospital municipal, um dos projetos mais caros à população de Macapá.

A resiliência do pré-candidato impressiona analistas e desafia as lógicas tradicionais de rejeição política baseada em escândalos éticos. Para a imensa maioria dos entrevistados na pesquisa, as denúncias de que ele seja um corrupto contumaz parecem não ter peso diante da imagem pública construída pelo político. Nem mesmo a apresentação de provas documentais robustas tem sido suficiente para alterar o panorama. “Eu vejo o que ele fez pela cidade no dia a dia, o resto para mim é conversa de quem quer derrubar o homem”, afirma a comerciante Maria do Socorro Silva, de 45 anos, refletindo o sentimento que impera nas ruas da capital amapaense. Segundo ela, as melhorias urbanas visíveis superam qualquer relatório policial.

O comportamento do eleitorado vai além da simples negação e adentra o terreno da desconfiança institucional crônica. Diante de cópias do amplo relatório divulgado pela Polícia Federal, que detalha os indícios de desvios nas obras da saúde, a reação de grande parte dos entrevistados é o ceticismo imediato. O argumento quase unânime coletado pelos pesquisadores é de que o documento é forjado ou inflado por adversários políticos para prejudicar o avanço de Furlan rumo ao governo estadual. Essa postura demonstra um alinhamento profundo entre a narrativa de defesa do político e a percepção de seus apoiadores, que enxergam as instituições de controle não como órgãos neutros, mas como braços de uma disputa pelo poder.

Especialistas apontam que esse tipo de fidelidade cega costuma ser alimentado por uma combinação de forte carisma pessoal, entregas de curto prazo na gestão e uma eficiente estratégia de comunicação nas redes sociais. Quando o líder consegue carimbar as investigações como “perseguição do sistema”, o eleitor tende a abraçar a causa como uma questão de lealdade pessoal. Para esse grupo de eleitores, o voto funciona como um ato de desobediência e desagravo público. O motorista de aplicativo Carlos Alberto Nunes, de 38 anos, sintetiza essa visão de forma direta. “Todo político é investigado hoje em dia, mas o Furlan pelo menos trabalhava de verdade. Se estão tentando tirar ele no tapetão, é porque o sistema tem medo dele”, argumenta o eleitor. Com a consolidação desse cenário, a corrida pelo Palácio do Setentrião desenha-se menos como um debate sobre propostas e integridade, e mais como um teste de força entre a narrativa jurídica e a popularidade das ruas.


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