Dados do Anuário de Segurança Pública mostram Santana e Macapá no topo das mortes violentas na Região Norte, impulsionadas pelo avanço de facções criminosas e disputas por rotas de tráfico
O estado do Amapá passou a concentrar os índices mais alarmantes da violência letal na Amazônia ao emplacar suas duas maiores cidades nos postos de maior gravidade de toda a Região Norte. Segundo dados divulgados no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Santana e a capital, Macapá, lideram o ranking de Mortes Violentas Intencionais (MVI) entre os municípios nortistas com mais de 100 mil habitantes. A dinâmica criminosa na foz do rio Amazonas revela uma escalada sangrenta impulsionada pela disputa de facções do crime organizado pelo controle de rotas estratégicas do tráfico de drogas, transformando a rotina de milhares de moradores e expondo gargalos profundos na segurança pública da região.

No topo do levantamento, o município de Santana registrou a taxa estarrecedora de 47,1 mortes violentas para cada grupo de 100 mil habitantes, consolidando-se como o ponto mais crítico do Norte do país. Logo em seguida surge Macapá, com uma taxa de 36,1 homicídios por 100 mil habitantes, evidenciando que o problema não se limita a um enclave isolado, mas se alastra por toda a região metropolitana amapaense. Completam a lista das quatro cidades mais violentas da região as cidades de Porto Velho, em Rondônia, com taxa de 34,6 mortes por 100 mil habitantes, e Paragominas, no Pará, que contabilizou 32,6 registros no mesmo indicador.


A prevalência dessas quatro localidades expõe as marcas do avanço das organizações criminosas sobre áreas marcadas pela vulnerabilidade social e logística desafiadora. A posição geográfica estratégica desses municípios — cortados por grandes rios ou por rodovias cruciais para o escoamento de mercadorias — transformou o solo amazônico em um corredor disputado palmo a palmo por rivalidades criminosas. No Amapá, o entrelaçamento de canais fluviais e portos clandestinos facilita a saída de entorpecentes em direção ao mercado exterior e a outras regiões do Brasil, acirrando confrontos armados e assassinatos encomendados que inflam cotidianamente as estatísticas de MVI.

O cenário observado em Santana e Macapá reflete uma realidade na qual o medo passou a ditar o ritmo diário das comunidades mais periféricas. Moradores relatam o convívio frequente com toques de recolher informais, tiroteios ao cair da noite e o silenciamento forçado da vida comunitária. Especialistas e analistas de segurança ressaltam que o fenômeno se agravou à medida que grupos locais selaram alianças ou entraram em choque direto com grandes facções de alcance nacional. Esse processo de fragmentação e disputa de território multiplicou as execuções, atingindo desproporcionalmente jovens e populações historicamente marginalizadas dessas cidades.

Em Rondônia e no Pará, a lógica da violência segue caminhos semelhantes aos do Amapá, associada ao crime organizado que se ramifica no interior e nas capitais. Em Porto Velho, o indicador de 34,6 mortes por 100 mil habitantes aponta a complexidade de controlar uma capital cortada por rotas de transbordo e fronteiras permeáveis. Já em Paragominas, onde a taxa alcançou 32,6, o histórico de disputas territoriais e dinâmicas do campo ganham contornos ainda mais graves com a chegada de redes estruturadas do tráfico, exigindo respostas que vão muito além do policiamento ostensivo convencional.

Os indicadores trazidos pelo Anuário lançam luz sobre a urgente necessidade de abordagens integradas que combinem inteligência policial, presença ostensiva e investimentos estruturais em políticas sociais preventivas. O retrato do Amapá e de seus vizinhos amazônicos mostra que, sem o fortalecimento das instituições e sem ações focadas em desarticular o poder financeiro e bélico das facções, as taxas de mortalidade continuarão a impor um pesado custo humano às populações da Região Norte.
Altos investimentos nas das forças de segurança pública

Com um investimento superior a R$ 300 milhões destinado a reestruturar as forças de segurança e sufocar a atuação de organizações criminosas no Amapá, o governo de Clécio Luís (União Brasil) intensificou as ações do programa Amapá Mais Seguro no estado ao longo dos últimos meses. A estratégia combina o fortalecimento operacional das polícias Civil, Militar e Científica — impulsionado pela convocação de mais de 3.700 novos servidores aprovados em concurso público — com a modernização de infraestrutura e patrulhamentos ostensivos de proximidade. O objetivo central da ofensiva é conter o avanço dos crimes violentos letais intencionais e proteger pequenos comerciantes e mulheres, públicos historicamente vulneráveis à criminalidade na região.
A arquitetura do plano estadual assenta-se na ampliação da presença física das forças policiais nas ruas e no aparelhamento técnico da tropa. A frota oficial recebeu o reforço de mais de 85 viaturas zero-quilômetro, além de aeronaves e armamento de alto calibre, com destaque para fuzis destinados ao combate do crime organizado. No âmbito das estruturas físicas, o governo inaugurou o Núcleo de Operações com Cães e ampliou o Instituto de Ensino de Segurança Pública (IESP), garantindo treinamento contínuo para o contingente recém-incorporado.
Paralelamente aos investimentos de grande porte, o programa lançou frentes específicas de atuação urbana, como o Ronda Minibox. A iniciativa foi desenhada para garantir a segurança ostensiva em bairros periféricos e centros comerciais locais, cobrindo estabelecimentos como mercearias, farmácias, bares e pequenos mercados. A aproximação entre policiais e comunitários busca inibir assaltos e extorsões que afetam o cotidiano de pequenos empreendedores amapaenses, restabelecendo a rotina econômica nas periferias.
No enfrentamento direto às facções criminosas, as forças estaduais atuam de forma integrada por meio da Operação Protetor. A força-tarefa mobiliza setores de inteligência e unidades táticas para desarticular esquemas de tráfico de drogas e armas, além de cumprir mandados de prisão contra lideranças de grupos criminosos na capital e no interior. Essa articulação interinstitucional tem permitido intervenções pontuais em áreas consideradas de alto risco, enfraquecendo a logística do crime organizado no território amapaense.
A pauta de proteção à mulher também ganhou prioridade no pacote de medidas. Além da frota exclusiva alocada para reforçar os atendimentos da Patrulha Maria da Penha, o chefe do Executivo sancionou o Programa Estadual de Combate ao Feminicídio. A legislação prevê protocolos integrados de prevenção, acolhimento às vítimas e rigor na apuração de crimes de gênero, estruturando uma rede de amparo que conecta delegacias especializadas, órgãos de assistência social e o Judiciário. Ao unificar aparato bélico, inteligência e políticas preventivas, o estado tenta consolidar um modelo de segurança pública capaz de reduzir os índices de violência e garantir estabilidade social no extremo norte do país.

Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



