Estados do Norte somam R$ 88,6 bilhões em despesas e expõem déficit público no país

Plataforma da CACB e ACSP detalha despesas estaduais no Norte e expõe rombo bilionário no ecossistema público brasileiro, reforçando a pressão por controle fiscal e maior eficiência na gestão dos recursos



Entre os dias 1º de janeiro e 28 de julho de 2026, os governos estaduais da Região Norte do país movimentaram R$ 88,6 bilhões em despesas públicas primárias, impulsionados por fortes assimetrias fiscais e por um abismo significativo entre a arrecadação tributária e o volume de recursos desembolsados pelas máquinas públicas. Os dados constam de levantamento da plataforma Gasto Brasil, desenvolvida pela Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) em parceria com a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que expõe os desafios de gestão orçamentária no ecossistema público e joga luz sobre os contrastes do desenvolvimento socioeconômico regional.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

No topo das cifras absolutas está o Pará, Estado mais populoso do Norte com 8,1 milhões de habitantes, que consumiu R$ 31,3 bilhões nos primeiros sete meses do ano. O valor representa 12% do Produto Interno Bruto (PIB) paraense de 2025 (R$ 254,5 bilhões) e se traduz em um gasto por habitante de R$ 3,7 mil. Na outra ponta das estatísticas, mas na liderança das despesas por pessoa, o Acre registrou desembolsos de R$ 7,8 bilhões para uma população de 830 mil pessoas, alcançando uma proporção expressiva de 29% em relação ao seu PIB anual (R$ 26,2 bilhões) e o maior valor per capita nortista: R$ 9,2 mil por residente.

Os números revelam distorções profundas na eficiência e na capacidade financeira dos estados amazônicos. O Amazonas, dono do segundo maior PIB regional (R$ 161,7 bilhões em 2025), destinou R$ 17,1 bilhões aos seus cofres públicos, o que corresponde a 10,5% do seu produto interno e a um gasto por habitante de R$ 4,2 mil entre seus 3,9 milhões de cidadãos. Em Rondônia, onde residem 1,5 milhão de pessoas, a conta somou R$ 10,6 bilhões — o equivalente a R$ 6,5 mil por pessoa e 14% do PIB estadual de R$ 76,4 bilhões.

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A pressão sobre os orçamentos locais também se mostra contundente nos estados de menor escala demográfica. Em Roraima, com 636,7 mil habitantes, a despesa primária bateu R$ 5,1 bilhões, o que equivale a R$ 7,9 mil per capita e consome 20% do PIB estadual (R$ 25 bilhões). O Amapá apresentou dinâmica idêntica, registrando R$ 5,7 bilhões em gastos para 733,7 mil pessoas — custo individual de R$ 7,5 mil e peso de 20% no PIB de R$ 28 bilhões. O Tocantins movimentou R$ 11 bilhões, alcançando R$ 7,1 mil por morador entre seus 1,5 milhão de habitantes, representando 17% das riquezas estaduais de R$ 64,3 bilhões.

Para lideranças do setor produtivo, a leitura minuciosa desses dados é fundamental para transformar a cultura fiscal do país. Leonardo Pinheiro, presidente da Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Pará (FACIAPA), avalia que o monitoramento é um instrumento crucial para direcionar políticas públicas de longo prazo com base em impacto real, especialmente nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e segurança. Na mesma linha, Kelly Naahmara, à frente da Federação em Rondônia (FACER), defende que o avanço socioeconômico exige transparência e a implementação rigorosa de uma gestão focada em metas e avaliação permanente da qualidade da despesa pública.

Os números da Região Norte refletem uma ferida estrutural ainda maior no país. Quando somados os dispêndios da União, Distrito Federal, estados e municípios, a conta dos governos brasileiros ultrapassou R$ 3,2 trilhões no acumulado de 2026. A máquina federal responde pela maior fatia dessa conta, somando R$ 1,5 trilhão (47% do total), enquanto estados e DF respondem por R$ 872 bilhões e os municípios por R$ 855 bilhões.

O ponto crítico do diagnóstico reside no descompasso entre o desembolso e a capacidade arrecadatória. Cruzamentos com a plataforma Impostômetro indicam que a arrecadação de tributos no país somou R$ 2,3 trilhões no mesmo período. O resultado é um rombo no qual as despesas superam em mais de R$ 900 bilhões tudo o que é recolhido dos contribuintes.

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Diante desse cenário, entidades empresariais intensificam a pressão por reformas estruturais. Alfredo Cotait Neto, presidente da CACB, enfatiza a urgência do controle de gastos para restabelecer o equilíbrio fiscal. Para aprofundar esse debate, novas ferramentas do painel Gasto Brasil serão apresentadas na Câmara dos Deputados no dia 11 de agosto, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), trazendo indicadores sobre a qualidade dos serviços públicos.


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