Refúgio montado entre galhos revela estratégias extremas de sobrevivência urbana, enquanto especialistas e poder público discutem a falta de vagas institucionais e o avanço da pobreza extrema na Região Norte
Entre as copas frondosas da Praça Veiga Cabral, no coração histórico de Macapá, uma estrutura frágil de papelão e ripas desafia a gravidade e expõe as fraturas sociais da capital amapaense. Construído nos últimos dias por um homem ainda não identificado, o abrigo suspenso a cerca de quatro metros do solo tornou-se o endereço improvisado de quem buscou refúgio da violência e da umidade das calçadas na altura dos galhos. A cena insólita, que destoa da rotina comercial do centro, reflete o avanço da vulnerabilidade socioeconômica extrema e a saturação da rede de acolhimento público, transformando a busca elementar por teto em uma rotina de equilíbrio precário.


A moradia nas alturas alterou o cotidiano dos transeuntes e trabalhadores que movimentam a praça diariamente. Abaixo da árvore, donos de quiosques de comida, relojoeiros tradicionais e comerciantes de pequenos armarinhos e lojas de departamento dividem-se entre a preocupação humanitária e o espanto. Raimundo Nonato, 34, que trabalha como flanelinha a poucos metros do local, relata que a estrutura começou a tomar forma durante a noite, momento em que o centro esvazia e a vulnerabilidade se acentua. O morador sobe com agilidade pelo tronco, evita interações prolongadas e recolhe materiais descartados pelo comércio no final da tarde para reforçar a cabine improvisada.


O caso da Praça Veiga Cabral não é um fato isolado, mas o sintoma visível de um fenômeno em expansão. De acordo com estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a população em situação de rua no Brasil cresceu mais de 200% na última década, ultrapassando a marca de 280 mil pessoas. Na Região Norte, fatores como o déficit habitacional crônico, a informalidade que supera 50% da força de trabalho local e a escassez de vagas em abrigos institucionais empurram indivíduos para soluções extremas de sobrevivência.

Especialistas em planejamento urbano e assistência social apontam que a escolha por erguer um abrigo em uma árvore revela uma busca estratégica por segurança física. Segundo a socióloga e pesquisadora de políticas urbanas Marcilene Barreto, viver ao nível da rua impõe uma rotina constante de riscos, que vão desde furtos de pertences até agressões físicas e abusos durante a madrugada. A altura funciona como uma barreira defensiva contra a hostilidade do chão, embora introduza riscos graves de quedas, descargas elétricas e exposição a intempéries climáticas, especialmente durante o inverno amazônico, marcado por chuvas torrenciais.

A informalidade do arranjo também evidencia os limites das políticas de busca ativa e atendimento social. Documentos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social indicam que grande parte das pessoas em situação de extrema exclusão enfrenta barreiras para acessar benefícios como o Bolsa Família ou o Cadastro Único, frequentemente pela perda de documentos civis ou pela ausência de um endereço fixo. A burocracia do sistema de acolhimento somada à exigência de regras rígidas de convivência em abrigos públicos muitas vezes afasta quem já desenvolveu uma relação de desconfiança com as instituições.

Procurada para comentar a situação, a Secretaria Municipal de Assistência Social de Macapá informou que enviará equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social e do Centro Pop para localizar o homem, oferecer atendimento psicossocial e propor o encaminhamento aos serviços de acolhimento institucional e emissão de documentos. A pasta ressaltou que a adesão ao acolhimento é voluntária, conforme preveem as diretrizes nacionais de direitos humanos, e que as intervenções priorizam o diálogo e a garantia da integridade física da pessoa.

Enquanto as equipes públicas planejam a intervenção, o abrigo na Praça Veiga Cabral permanece como um monumento involuntário à desigualdade urbana. Sob a sombra da história colonial da praça, a estrutura de papelão amarrada aos galhos lembra que, quando o direito básico à moradia falha, a sobrevivência encontra formas tão criativas quanto desesperadas de se fazer notar.

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