RETALIAÇÃO — Moraes pede apuração contra Mendonça com base em documento apócrifo após vazamento de conversas com Vorcaro

Desdobramentos da investigação sobre fraudes bilionárias provocam choque direto entre magistrados, reativam críticas ao inquérito das fake news e colocam estabilidade institucional do tribunal sob prova às vésperas de eleição



Uma fratura sem precedentes expôs a mais profunda crise institucional dos 135 anos do Supremo Tribunal Federal, levando ministros a duelarem publicamente por meio de inquéritos e relatórios policiais em Brasília. Na quinta-feira, 3 de setembro de 2026, o ministro Alexandre de Moraes pediu a abertura de investigação formal contra o colega de bancada André Mendonça por suposto abuso de autoridade. O pedido, encaminhado ao presidente da Corte, Edson Fachin, fundamentou-se em um documento apócrifo de inteligência da Polícia Federal, desprovido de timbre ou assinatura de delegado, e classificado em seu próprio teor como “sem caráter decisório e sem valor probatório”.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Emanoel Reis, Macapá – AP

O lance ocorre no epicentro de uma escalada de retaliações deflagrada pela revelação de conversas de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e preso sob a acusação de comandar fraudes estimadas em R$ 12 bilhões. Pressionado pela gravidade do choque interno, Fachin fixou um prazo de cinco dias para que todos os envolvidos prestem esclarecimentos ao seu gabinete antes de qualquer deliberação.

O pano de fundo da disputa atinge diretamente a vida de milhões de cidadãos comuns que dependem da higidez do sistema bancário e da previdência social. As suspeitas em torno de Vorcaro, alvo da Operação Compliance Zero, envolvem a negociação de carteiras de crédito sem lastro com o Banco de Brasília (BRB). Para a professora e poupadora Maria Luiza Santos, 61, que mantém recursos em aplicações financeiras vinculadas a títulos públicos, a instabilidade gera apreensão real: “A gente assiste aos juízes brigando entre si enquanto os bilhões que deveriam proteger o trabalhador e o aposentado viram moeda de troca em Brasília; parece que não há ninguém olhando pelo cidadão comum”, lamenta. Paralelamente, os dados de inteligência citados no embate mencionam apurações sobre desvios de recursos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), caso de forte apelo social que atingiu até mesmo o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A ofensiva de Moraes representa uma resposta à divulgação de um relatório oficial da corporação policial, este com 218 páginas, chancela formal e assinatura, que documentou encontros e trocas de mensagens entre Moraes e Vorcaro ao longo de 2024 e 2025. O diálogo transcorreu no período posterior à contratação formal do escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, pelo banqueiro investigado. Mendonça, responsável pela relatoria dos autos da Compliance Zero, quebrou o sigilo das mensagens, o que gerou repercussão internacional e manchetes em jornais da Espanha e da Argentina apontando um abalo sísmico na estabilidade política do país.

Para sustentar a reação contra Mendonça, Moraes anexou o expediente sem valor probatório ao Inquérito 4.781/DF, o chamado Inquérito das Fake News, instaurado de ofício em 14 de março de 2019 pelo então presidente da Corte, Dias Toffoli, e relatado por Moraes desde então. Apelidado nos bastidores jurídicos de “inquérito sem fim”, o processo já dura mais de sete anos, prorrogado sucessivamente a cada 180 dias, e há anos atrai contestações da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) por concentrar as figuras de vítima, investigador e julgador em um único gabinete. “O uso de instrumentos de exceção para dirimir conflitos entre magistrados dinamita o devido processo legal e esgarça a confiança pública nas instituições”, avalia o jurista e professor de direito constitucional Carlos Eduardo Lins.

O próprio relatório informal que embasa o pedido de Moraes aponta inconsistências técnicas severas. O texto compila relatos anônimos, com confiabilidade rotulada pelos próprios analistas como de grau “baixo a moderado”, segundo os quais Mendonça teria cogitado pedir o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e manifestado desconfiança quanto ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Gonet, por sua vez, protocolou parecer no dia 1º de setembro apontando “dupla nulidade” no relatório que liga Vorcaro a Moraes, afirmando que a busca preliminar por indícios contra o magistrado extrapolou os limites funcionais e deveria ter sido submetida ao plenário.

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Nas entrelinhas da disputa, analistas apontam que a fragilidade probatória dos papéis levados a Fachin mascara uma tentativa de conter o avanço das apurações sobre relações mantidas no topo do tribunal. Ao pedir o julgamento em plenário, Mendonça busca expor o confronto ao voto colegiado, enquanto a cúpula do Judiciário se vê diante do desafio de pacificar uma guerra fratricida sem precedentes, cujo desfecho ditará as fronteiras éticas da mais alta Corte do país.


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