Documentos mostram que Vorcaro articulou encontros com ministro do STF e contratou parentes de magistrados para tentar destravar interesses financeiros bilionários do Banco Master
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro reuniu-se com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes no dia 11 de abril de 2024, em Brasília, com o objetivo de obter um voto favorável em uma disputa bilionária envolvendo precatórios de usinas do setor sucroalcooleiro adquiridos com deságio. A articulação, revelada em setembro de 2025 por investigações da Polícia Federal a partir de dados extraídos de celulares e divulgada por veículos de imprensa, expõe um complexo esquema de lobby que envolveu contratos de R$ 500 mil mensais com o ex-senador Chiquinho Feitosa — então cunhado do magistrado —, trâmites nos bastidores da mais alta Corte do país e conexões com interesses em precatórios e na abertura de cursos de medicina.


A movimentação financeira e os encontros de bastidores tinham como pano de fundo a tentativa de engordar o balanço do Banco Master por meio da utilização do valor de face de títulos de dívida pública. Naquela ocasião, o plenário do STF discutia, a pedido do governo federal, a validade de ações indenizatórias decorrentes de sentenças transitadas em julgado, cujos pagamentos vinham sendo postergados. Paralelamente, os registros obtidos pela Polícia Federal apontam que Chiquinho Feitosa, contratado formalmente por meio de uma empresa do banqueiro apontada pelas investigações como instrumento de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro, cobrava andamento de pautas de interesse do banco e prestava contas frequentes a Vorcaro.


As conversas recuperadas entre abril e novembro de 2024 detalham a engenharia da influência. Feitosa enviou a Vorcaro o contato de uma servidora do gabinete de Gilmar Mendes e estruturou um roteiro que previa uma conversa reservada com o ministro antes da entrada do diretor jurídico do Banco Master, André Krutchevsky, e do advogado Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União contratado para atuar no caso dos precatórios. Em um dos episódios relatados nas mensagens, o ex-senador comemorou o desfecho da articulação afirmando que o diálogo de Bianco com o magistrado havia ficado perfeito, embora, na prática, o STF tenha acabado por decidir de forma contrária aos interesses do banco em litígios cruciais.

Entre os temas centrais monitorados pela rede de influência estavam os precatórios da Usina Agroindustrial Tabu, localizada na Paraíba, e a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADC) 81, que tratava das regras para a abertura de cursos de medicina e era relatada por Gilmar Mendes. Enquanto o primeiro caso envolvia títulos bilionários adquiridos por fundos do Master, o segundo afetava indiretamente os negócios do fundo Calêndula, ligado à instituição financeira, que financiava a mantenedora da Universidade Luterana do Brasil. Apesar da forte pressão exercida pelos emissários e da intensa dedicação declarada por Feitosa — que chegou a relatar estar “100% dedicado aos nossos assuntos” —, a Corte manteve exigências legais que não favoreceram os pleitos do banqueiro, culminando inclusive na suspensão de pagamentos determinada pela presidência do tribunal.

O impacto desse tipo de revelação transcende a esfera jurídica e corrói a confiança pública nas instituições democráticas. Para cidadãos comuns e especialistas em transparência e governança, a descoberta de que figuras de proa da política e do mercado financeiro tentam moldar decisões judiciais por vias informais evidencia um abismo entre a justiça igualitária preconizada pela Constituição e a realidade dos grandes capitais. Enquanto pequenas causas e cidadãos aguardam anos por reparações na base da pirâmide judiciária, pautas bilionárias movimentam articulações de alto luxo, jantares internacionais e contratos milionários de consultoria.

A teia de relações familiares também veio à tona com força no processo. Na época dos diálogos, Chiquinho Feitosa era irmão da advogada Guiomar Feitosa, que foi casada com o ministro Gilmar Mendes até novembro de 2025. Questionada sobre os episódios, Guiomar afirmou ter sido procurada por Vorcaro por intermédio do irmão, mas relatou que recusou atuar no caso devido à ausência de especificidade nos processos apresentados.

Questionados pelas autoridades e pela imprensa, os envolvidos apresentaram diferentes versões sobre os fatos apurados. Inicialmente, Chiquinho Feitosa negou qualquer vínculo empregatício com o Banco Master, mas, ao ser confrontado com os documentos da Super Empreendimentos, admitiu a prestação de serviços por um curto período e alegou que a empresa desfrutava de idoneidade naqueles dias. Por sua vez, o advogado Bruno Bianco declarou que atuou de maneira estritamente técnica, por meio de seu escritório particular e de forma independente, na defesa de interesses de clientes, negando qualquer integração orgânica com a instituição financeira de Vorcaro. O ministro Gilmar Mendes optou por não se manifestar quando procurado para comentar as acusações e os diálogos revelados pela investigação federal.

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