Repasse federal destrava obra de creche inacabada desde 2014 no bairro Boné Azul, em Macapá

Parceria entre FNDE e Prefeitura de Macapá garante R$ 1,8 milhão para finalizar unidade no bairro Boné Azul até 2027, ampliando vagas de educação infantil para famílias vulneráveis da Zona Norte



O governo federal autorizou o repasse de R$ 1,81 milhão para destravar e concluir a construção de uma creche pública no bairro Boné Azul, na Zona Norte de Macapá, que estava abandonada há mais de uma década. A repactuação entre a Prefeitura de Macapá e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) foi publicada no Diário Oficial da União na terça-feira (25) e integra o Pacto Nacional pela Retomada de Obras da Educação Básica. Concebido originalmente em 2014, durante o PAC 2, o canteiro de obras na Avenida Vinícius de Moraes estava paralisado com apenas 15,84% de execução física, convertendo-se em um retrato do vácuo assistencial que atinge a primeira infância na capital amapaense. O novo cronograma estende a vigência dos trabalhos até dezembro de 2027.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
OPINIÃOOPINIÃO8 de fevereiro de 2010Emanoel Reis, Macapá – AP

Para quem vive ao redor dos alicerces tomados pelo mato, a liberação da verba traduz-se em uma esperança concreta de alívio social. Sem vagas na rede pública de educação infantil, mães e responsáveis da Zona Norte frequentemente enfrentam o dilema entre trabalhar ou cuidar dos filhos. É o caso de moradoras que dependem de arranjos informais com vizinhas ou são forçadas a abrir mão do emprego com carteira assinada para permanecer em casa. Levantamentos da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal apontam que a ausência de vagas em creches é um dos principais fatores que perpetuam a desigualdade de gênero no mercado de trabalho e aprofundam a pobreza nas periferias urbanas da Região Norte, onde o índice de cobertura para crianças de zero a três anos historicamente figura abaixo da média nacional de 37%.

O impasse da obra do Boné Azul remonta a um ciclo crônico de descompasso orçamentário que paralisou milhares de construções escolares no Brasil a partir de meados da década passada. Contratos celebrados sob regras do Programa de Aceleração do Crescimento sofreram com a disparada de custos de insumos na construção civil, falências de empreiteiras e entraves de fiscalização técnica, empurrando os municípios para impasses judiciais e administrativos. O Fundo de Gestão do FNDE estima que cerca de 3,5 mil estruturas educacionais chegaram a ficar estagnadas ou inacabadas no país, bloqueando o acesso de mais de 450 mil crianças e jovens às salas de aula.

A repactuação viabilizada pela legislação recente do governo federal permitiu que prefeituras atualizassem planilhas de custos e reprogramassem prazos para retomar projetos estruturantes. Segundo o prefeito de Macapá, Pedro DaLua, o aporte garante que o município restabeleça equipamentos públicos essenciais antes esquecidos pelo poder público. “Estamos trabalhando para tirar do papel obras que ficaram pelo caminho e devolver à população aquilo que é seu por direito. Cada obra retomada significa mais estrutura, mais dignidade e mais oportunidade para nossas crianças. A educação precisa ser tratada como prioridade e é isso que estamos fazendo”, afirmou o gestor, ressaltando que a recuperação da malha escolar municipal depende diretamente do destravamento de convênios federais.

Especialistas em políticas públicas e desenvolvimento infantil ressaltam que o impacto da retomada vai além da entrega de paredes de alvenaria. Estudos neurológicos e pedagógicos indicam que a primeira infância — período que compreende do nascimento aos seis anos de idade — constitui a janela mais crítica para o desenvolvimento cognitivo, motor e emocional. A inserção precoce em ambientes pedagógicos adequados reduz índices futuros de repetência, melhora a sociabilidade e garante segurança alimentar por meio da merenda balanceada, aspecto vital em regiões de vulnerabilidade socioeconômica.

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Com a publicação do termo aditivo no Diário Oficial da União, o projeto entra agora na fase de adequação executiva e reativação dos contratos de engenharia pela administração municipal. A meta é transformar o esqueleto inacabado em uma unidade moderna, dotada de salas de estimulação, fraldários, refeitório e áreas de recreação adequadas aos padrões do FNDE. Se o calendário até o fim de 2027 for rigorosamente cumprido, as famílias do Boné Azul finalmente verão a promessa de doze anos atrás se converter em berçário e salas de aula.


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