Sob suspeita de desvios na saúde pública, candidata ao Senado pelo Amapá falta a debates eleitorais

Sem apresentar justificativas à Imprensa, candidata ao Senado adota silêncio e troca debates por vídeos controlados na internet, enquanto inquérito no STF apura irregularidades na construção de hospital municipal orçado em centenas de milhões de reais



A três semanas do primeiro turno das eleições no Amapá, a candidata ao Senado Rayssa Furlan (Podemos) decidiu fugir de debates, sabatinas e entrevistas em rádios e emissoras de TV em Macapá, substituindo o confronto direto de ideias por transmissões filtradas nas redes sociais. A opção pela falta opera como uma barreira política para blindar a campanha dela diante do avanço de investigações da Polícia Federal, que apuram o suposto desvio de quase R$ 160 milhões em obras do Hospital Municipal de Macapá.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP
ARTIGOSARTIGOS17 de julho de 2026Emanoel Reis, Macapá – AP

O caso atinge o núcleo familiar e eleitoral da postulante: seu marido, o ex-prefeito da capital e candidato ao governo Antônio Furlan (PSD), foi afastado do cargo em março por decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, sob suspeitas de fraude licitatória e peculato. A cadeira vazia nos estúdios, convertida em símbolo de uma contenção de danos sem justificativa formal às emissoras, reflete o fosso entre o cálculo de cúpula e a população, que assiste à disputa por uma cadeira de oito anos em Brasília à sombra de escândalos na saúde pública e sem respostas claras sobre a gestão do dinheiro público.

O impacto da controvérsia transcende as disputas partidárias e atinge o cotidiano dos moradores que dependem da rede municipal de atendimento. Na porta das unidades básicas de saúde de Macapá, o debate sobre a aplicação dos recursos públicos ganha contornos práticos de espera e desabastecimento. A dona de casa Maria de Fátima Ramos, de 34 anos, relata as dificuldades rotineiras para agendar consultas e exames especializados para a mãe idosa. “A gente ouve falar em milhões em investigação de hospital enquanto passa meses numa fila para conseguir um ultrassom ou remédio básico. Quem quer ser nosso representante em Brasília precisa dizer claramente como vai resolver isso, de frente para as pessoas”, afirmou enquanto aguardava atendimento em uma UBS na zona norte da cidade.

A origem do litígio remonta ao processo de contratação e execução das obras do Hospital Municipal de Macapá, idealizado durante o mandato de Antônio Furlan para ampliar o número de leitos na capital. De acordo com os autos do inquérito da Polícia Federal, auditorias e relatórios de inteligência financeira apontaram indícios de sobrepreço em itens de infraestrutura, inconsistências na medição de serviços de engenharia e transações financeiras atípicas entre empresas contratadas e operadores ligados ao círculo pessoal e político da administração. Diante dos relatórios técnicos e dos pedidos das autoridades investigativas, o STF determinou medidas cautelares para preservar a apuração dos fatos, entre as quais o afastamento do chefe do Poder Executivo municipal.

Cientistas políticos apontam que a decisão de não comparecer a fóruns com contraditório é um cálculo frequente em campanhas majoritárias, sobretudo quando candidatos enfrentam questionamentos no campo judicial. O cientista político Paulo Guimarães, pesquisador de dinâmicas institucionais na Região Norte, avalia que a tática busca limitar imprevistos em transmissões ao vivo, embora traga custos para o esclarecimento público. “Em disputas polarizadas, candidatos que enfrentam investigações sensíveis tendem a priorizar formatos com controle absoluto da mensagem, evitando perguntas técnicas sobre processos judiciais ou documentos oficiais. No entanto, o debate público é o momento em que a sociedade testa o preparo e a transparência de quem pleiteia um mandato de oito anos no Senado”, explica Guimarães.

O contexto amapaense também reflete precedentes regionais onde a recusa a debates repercutiu diretamente na formação da opinião pública local. Na memória política vizinha, analistas relembram episódios históricos do Pará, a exemplo de campanhas em Belém nas quais a evasão sistemática de sabatinas por lideranças tradicionais gerou desgaste prolongado perante o eleitorado, gerando rotulações públicas que influenciaram o resultado das urnas. Em contrapartida, estrategistas de comunicação costumam defender que a dispersão de votos e a exposição a formatos adversos de sabatina podem desviar o foco das propostas centrais dos planos de governo, optando por reforçar a militância presencial nas ruas e bairros periféricos.

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Procurada por meio de sua assessoria de imprensa e da direção estadual do Podemos para se manifestar sobre os motivos da ausência nos debates e sobre as menções ao inquérito da Polícia Federal, Rayssa Furlan não respondeu aos pedidos de entrevista até a publicação desta reportagem. A defesa técnica de Antônio Furlan tem reiterado em petições aos órgãos judiciais a regularidade de todos os atos administrativos praticados durante a gestão da Prefeitura de Macapá, sustentando que as licitações do hospital municipal cumpriram a legislação vigente e que os esclarecimentos necessários serão prestados perante o Poder Judiciário. A três semanas da votação, a resposta final sobre a estratégia de evitar questões comprometedoras caberá ao eleitor amapaense diante das urnas eletrônicas.


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