Lojas de portas abertas e calçadões vazios retratam o ritmo lento do comércio central de Macapá, um termômetro da cautela imposta pela instabilidade econômica que afeta todo o país
O próximo presidente da República assumirá o comando do país em 2027 herdando um cenário de grave deterioração das contas públicas, com a dívida bruta do governo geral estimada em cerca de R$ 11 trilhões, o equivalente a 84% do Produto Interno Bruto (PIB). O quadro, fruto de mais de dez anos de desequilíbrio fiscal, projeta patamares ainda mais alarmantes de 86% do PIB em 2027 e 87% em 2028. A situação vai muito além de uma cifra trilionária: o avanço do endividamento mina a confiança internacional no Brasil, encarece o custo de financiamento do Estado e ameaça diretamente a economia real, com riscos concretos de desaceleração, inflação e impacto direto no emprego e na renda de mais de 200 milhões de brasileiros.


O conceito da dívida bruta engloba tudo o que os governos federal, estaduais, municipais e a Previdência Social devem a credores internos e externos. Esse indicador já atingiu 82,51% do PIB em julho, o patamar mais elevado desde abril de 2021. Enquanto o Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) aponta avanço contínuo da dívida, projeções de mercado compiladas no relatório Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda preveem 83,0% para o fechamento de 2026 e 86,7% em 2027. Instituições financeiras e consultorias independentes traçam cenários ainda mais restritivos: a Austin Rating calcula índices de 85,0% em 2026 e 90% em 2027, ao passo que a ARX Investimentos estima que o indicador alcance 83,22% neste ano, chegue a 87,96% em 2027 e salte para 91,55% em 2028.


Para o economista-chefe da ARX Investimentos, Gabriel Leal de Barros, o principal obstáculo não reside apenas no montante atual, mas na trajetória de alta contínua. “É mais do que o nível da dívida, a trajetória esperada para o futuro diz muito sobre o tamanho do desequilíbrio das contas do país”, avalia Barros, ressaltando que economias altamente endividadas perdem a capacidade de absorver choques negativos. Esse peso é evidenciado pelo volume expressivo de recursos drenados pelo pagamento de juros: somente em julho, a dívida bruta cresceu R$ 99 bilhões por essa rubrica, totalizando R$ 1,15 trilhão acumulado em 12 meses, o equivalente a 8,67% do PIB.

Na prática cotidiana da população e do setor produtivo, o endividamento público se traduz em um ciclo vicioso. Conforme explica Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, o elevado apetite do governo por empréstimos encarece o prêmio de risco cobrado pelos investidores. “A despesa com o pagamento de juros é muito elevada, o que engessa o governo, que gasta muito com juros e pouco com investimentos. O mercado olha para esse cenário, não sabe que retorno vai obter e cobra um custo de risco elevado para investir”, aponta Agostini. Com juros futuros elevados, as empresas reduzem investimentos produtivos e migram para aplicações financeiras ou repassam os custos ao consumidor, enfraquecendo a competitividade nacional, o crescimento e a arrecadação de tributos. Instituições já projetam avanço modesto de 1,45% para o PIB em 2027, acompanhado pelo risco latente de uma recessão técnica.

A gênese desse desajuste crônico está ligada a traços estruturais e políticos do país. Diego Bonomo, assessor sênior de relações governamentais da Covington & Burling, aponta a cultura patrimonialista como o motor da voracidade de grupos organizados por parcelas do orçamento estatal. “Você tem um Poder Executivo que enfraquece o próprio marco fiscal, um Congresso Nacional que aprova emendas sem controle e um Poder Judiciário e Ministério Público que elaboram seu próprio orçamento”, diagnostica Bonomo, sublinhando que o desafio central consiste em blindar as regras de ajuste contra pressões políticas recorrentes.

O caminho para reverter o quadro esbarra na rigidez orçamentária. Gabriel Leal de Barros lembra que cerca de 95% do orçamento federal está comprometido com despesas obrigatórias. Para promover qualquer alívio fiscal consistente, seriam necessárias reformas estruturais profundas — como a administrativa, ajustes adicionais na Previdência e a reformulação da tributação da renda —, exigindo a desvinculação de receitas e a aprovação de Emendas Constitucionais por maioria qualificada no Congresso. “Politicamente, tem um custo, mas se tivermos um governo que tem convicção para fazer essas mudanças, dá para fazer”, pondera Barros. Resta ao próximo chefe do Executivo aproveitar a janela de oportunidade do início do mandato para instituir um plano rigoroso de saneamento fiscal, sob o risco de condenar a economia a um ciclo duradouro de estagnação.

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