Com carga tributária recorde, mais de duzentas empresas brasileiras transferem operações para o Paraguai

Fachada da tradicional fábrica da Lupo em Araraquara encerra suas atividades produtivas, deixando um rastro de desemprego e um alerta profundo sobre a perda de competitividade do setor têxtil



Mais de 230 empresas brasileiras transferiram suas operações, total ou parcialmente, para países vizinhos como o Paraguai desde 2023, impulsionadas pelo sufocante “Custo Brasil”, que reúne alta burocracia, pesados encargos trabalhistas e uma carga tributária recorde. O movimento reflete a busca desesperada do setor produtivo nacional por sobrevivência e competitividade diante de um cenário de incertezas econômicas e complexidade fiscal que pune quem tenta empreender em solo brasileiro.


CAPACAPA29 de novembro de 2024Emanoel Reis, Macapá – AP

O estopim para essa debandada em massa reside nos números que sufocam o empresariado. A carga tributária bruta no Brasil alcançou a marca histórica de 32,40% do Produto Interno Bruto (PIB), o maior patamar já registrado na série do Tesouro Nacional. Para piorar o cenário de insatisfação, o retorno desses impostos em serviços públicos é nulo ou ineficiente. Um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) revelou que, embora o nível de arrecadação brasileiro se equipare ao de nações desenvolvidas, o país amarga o pior Índice de Retorno Bem-Estar à Sociedade (IRBES) entre 30 nações analisadas no mundo.

“Chega um momento em que a conta simplesmente não fecha mais. Nós passamos mais tempo calculando impostos e lidando com burocracia do que focando na inovação do produto”, desabafa Ricardo Menezes, diretor industrial de uma metalúrgica paulista que transferiu 60% de sua linha de produção para o Paraguai no final do ano passado. De acordo com o executivo, a gota d’água foi a névoa jurídica provocada pelas discussões da Reforma Tributária. “As incertezas e os impactos práticos da reforma geraram tantos debates sobre o aumento potencial de custos que fomos obrigados a acelerar o planejamento de migração para evitar o encerramento definitivo das nossas atividades”, explica Menezes.

O principal refúgio para esse capital brasileiro tem sido o Paraguai, que desenhou um ecossistema altamente atraente por meio do regime de maquila, um modelo voltado para a exportação com agressivos incentivos fiscais. Enquanto no Brasil as alíquotas corporativas são complexas e elevadas, a tributação corporativa paraguaia gira em torno de modestos 10%. Além disso, os custos trabalhistas no país vizinho são substancialmente menores: a jornada semanal pode chegar a 48 horas e não existem encargos pesados equivalentes ao FGTS brasileiro. A proximidade geográfica e os acordos vigentes dentro do Mercosul completam o pacote, permitindo que as companhias fabriquem em solo paraguaio e exportem de volta para o Brasil com isenção ou forte redução de tarifas de importação.

Esse êxodo expõe uma incômoda contradição no mercado brasileiro atual: de um lado, o consumo interno dá sinais de crescimento; de outro, as empresas continuam deixando o país. A combinação de carga tributária asfixiante, insegurança jurídica e custos operacionais elevados transformou a redução de operações ou a saída definitiva de grandes marcas em uma rotina alarmante. O reflexo desse ambiente hostil ecoa fortemente no mercado de capitais e na infraestrutura logística nacional.

Somente em 2025, cinco grandes empresas deixaram a B3, a bolsa de valores brasileira. Um dos episódios mais emblemáticos desse processo de reestruturação foi o da Gol Linhas Aéreas, que encerrou suas atividades na B3 em meio a um complexo processo de recuperação judicial. O movimento segue o rastro deixado por gigantes como a montadora Ford, que encerrou suas atividades fabris históricas no Brasil, mantendo apenas a importação de veículos e desocupando mais de 95 mil metros quadrados apenas em condomínios logísticos, sem contar suas gigantescas plantas industriais.

O esvaziamento dos galpões logísticos funciona como um termômetro preciso da crise de confiança no ambiente de negócios. Dados da plataforma Market Analytics, da SiiLA, revelam que, desde 2021, 81 empresas estrangeiras deixaram de ocupar galpões logísticos ou reduziram drasticamente suas áreas locadas no Brasil. Ao todo, impressionantes 918 mil metros quadrados foram devolvidos por essas companhias. O capítulo mais recente dessa retração ocorreu em janeiro de 2026, quando a multinacional norte-americana FedEx anunciou o encerramento definitivo de sua operação doméstica no país.

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A gigante do setor de transportes optou por focar apenas no mercado internacional e em segmentos globais mais rentáveis, deixando claro que operar internamente no Brasil tornou-se um desafio caro e pouco atrativo. Sem reformas estruturais profundas que ataquem diretamente o Custo Brasil, o país corre o risco de assistir passivamente à continuidade dessa migração de empregos, renda e inovação para além de suas fronteiras.

Lupo fecha fábricas no Brasil após cento e quatro anos de história

A centenária fabricante de meias e roupas Lupo decidiu, em dezembro de 2025, encerrar de forma definitiva todas as suas operações produtivas no Brasil após 104 anos de história. A decisão histórica da diretoria foi motivada pelo agravamento das condições macroeconômicas nacionais, pela perda de competitividade frente ao mercado internacional e pelo sufocante custo de produção no país. O movimento encerra um dos ciclos industriais mais longos e resilientes do território brasileiro, surpreendendo o mercado e o setor têxtil.
Fundada em Araraquara, no interior paulista, a companhia atravessou intacta os períodos mais turbulentos da história moderna. A produção em solo brasileiro resistiu a duas guerras mundiais, à Grande Depressão, a regimes ditatoriais, à hiperinflação das décadas de 1980 e 1990, ao confisco da poupança e, mais recentemente, aos desafios logísticos da pandemia da Covid-19. Para analistas, o encerramento da produção nacional é o sintoma mais claro de um ambiente de negócios que se tornou insustentável até para gigantes tradicionais.
“Mantivemos nossas máquinas ligadas por mais de um século, adaptando o negócio a cada troca de moeda e crise política, mas o cenário atual de insegurança jurídica e complexidade tributária minou qualquer capacidade de planejamento a longo prazo”, afirma Carlos Eduardo Rocha, diretor de estratégia de uma consultoria que acompanhou os desdobramentos do setor. Segundo o especialista, o custo de manter uma estrutura fabril no Brasil superou os benefícios da identidade nacional da marca. “Não foi uma decisão tomada do dia para a noite, mas sim o reflexo de um estrangulamento operacional que tornou a importação e a terceirização as únicas saídas viáveis para a sobrevivência da empresa”, explica Rocha.
A decisão da Lupo segue uma tendência alarmante de desindustrialização que atinge grandes marcas no país e redesenha o mapa do emprego industrial. Embora a marca continue existindo nos pontos de venda por meio de produtos importados e parcerias globais, as fábricas que geravam milhares de empregos diretos deixam de operar. O fim da produção local da centenária empresa deixa um alerta profundo sobre a urgência de reformas estruturais, mostrando que a tradição e o apego histórico já não são suficientes para frear a debandada do capital produtivo no cenário econômico atual.



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